PONTO DE VISTA DO BATISTA

Fora o cigarro!

Ao olharmos pelo retrovisor da vida, ultrapassados os primeiros estágios mais avançados da jornada, chegamos à conclusão que, se não fomos protegidos especialmente pela Divina Providência, Deus dotou-nos de intuição - o que dá no mesmo – mediante a qual escapamos das malhas de certas ilusões na juventude. A grande discussão em torno dos males do fumo, o avanço progressivo das leis que limitam seu uso, em paralelo com o repúdio espontâneo ao cigarro, sugerem considerar-me privilegiado por não ser integrante da legião de fumantes sob risco de encurtamento da vida, em decorrência de graves moléstias causadas pelo tabagismo.

Escancaradas as fontes de informação sobre as conseqüências do uso prolongado do fumo, a sociedade, enfim, aciona o alarme que não houve para prevenir os milhões que já morreram e outros tantos que ainda deixarão este mundo nas volutas da fumaça do cigarro. Tendo vivido a adolescência, quando fumar era chique e sinal de independência em relação à autoridade paterna, nem que fosse às escondidas, enganando a si mesmo, eu questionava a validade do gesto em relação à saúde, ao invés de me deixar levar pela onda. E, em decorrência de doença mental que acometeu minha mãe quando eu tinha doze anos, não havia sobre mim a rígida vigilância familiar, o que poderia ter facilitado meu acesso ao vício, não só do cigarro. Hoje, creio que a educação recebida na infância e a forte intuição quanto aos males da dependência, de qualquer gênero, salvaram-me do fosso comum dos atormentados pela opção entre a satisfação do organismo dependente e o desejo de se libertar do vício; ou dos que, mesmo conhecendo os riscos, nem pensam deixar o cigarro. Os belos anúncios associados com o que há de mais prazeroso, típicos da propaganda enganosa, saíram de veiculação por força de lei e, cada vez mais pessoas se conscientizam dos malefícios por meio de informações que, no passado, eram escamoteadas.

Essa cruzada antitabagista tem como maiores beneficiários as crianças e jovens que, antes de seduzidos pelas falsas aparências, podem fazer a opção conscientemente. E isso seria mais fácil se fumantes se abstivessem do fumo em suas presenças, respeitassem as novas regras, não fumando em recintos públicos fechados e, principalmente, num gesto de vontade, aderissem a movimentos simbólicos, como o Dia Mundial sem Tabaco, comemorado no dia 31 de maio, e, Dia Nacional de Combate ao Fumo, em 29 de agosto. Por intermédio da Coordenação Nacional de Controle do Tabagismo e Prevenção Primária do Câncer (Contapp), o Ministério da Saúde implementa aquelas ações que, lamentavelmente, esbarram na contradição de fumantes ostensivos.

Entre esses fumantes, que mais cuidado tenham pessoas públicas, sobretudo políticos e detentores de cargos no governo, para que suas imagens não sejam uma negação da campanha, ao se mostrarem fazendo uso do cigarro. Reconheça-se aqui o direito de opção por fumar, mas, em consonância com o direito em sentido inverso e em apoio aos interesses da saúde pública, que devem prevalecer, o fumante tem o dever de exercer seu direito da forma mais isolada possível. Que não mais se vejam pessoas públicas a fumar em atos oficiais, ou indícios do vício, como na foto (jornal Estado de Minas de 17.04.2004.) do jantar, no qual o presidente da República recebeu líderes de determinado partido político. Justamente à mesa de refeição, local e momento sagrados ligados à preservação da saúde da vida, lá estava num canto o cinzeiro com o toco de cigarro recém-fumado.

nbatista@uai.com.br

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