Enquanto o "busão" engolia
distância sobre o asfalto, dentro dele diálogo entre dois
passageiros (um deles este escriba) girava em torno de diversão,
algo tão variável como os tipos de indivíduo, também diversos,
segundo características nem sempre repetidas em dois ou mais, pois
as personalidades são muitas. Não me lembro por que "cargas d’água",
tal assunto tomou conta da nossa conversa, mas o fato é que, em se
tratando de diversão, fatalmente converge para cinema. E foi o que
aconteceu. Meu interlocutor se revelou apreciador de cinema, citando
filmes que teria visto ultimamente.
Aí foram dois sapos a cair
n’água, pois este autor se insere entre cinéfilo desde criancinha,
dos tempos do Oratório Festivo São João Bosco, onde teve os
primeiros contatos com a sétima arte, para ele bem mais diversão.
Durante a semana, ficava eu com o coração na mão, a pedir que nada
interferisse na programação oratoriana do sábado; exibição de filme,
na maioria das vezes e, eventualmente, teatro e outros eventos. As
interferências corriam por conta de diversos fatores, desde a não
vinda da "fita" – havia que buscar os rolos na Estação D. Bosco, e
muitas vezes, quem ia buscá-los voltava de mãos vazias – até
insuficiência da corrente elétrica ou apagão total (A Cemig está
quase a alcançar os padrões da extinta Companhia Força e Luz
Cachoeirense) passando por dor de barriga do operador (quase sempre
um padre) quebra do veículo que conduzia o equipamento e o operador,
do Colégio D. Bosco ao Oratório e vice-versa. Sempre concordei com a
expressão "cinema é a maior diversão" e, para assistir a filmes,
creio que valem sacrifícios e também alguns riscos.
Para ver "A Vida do Santo
Cura d’Ars" (não me lembro se exatamente este título) corri o risco
de levar surra paterna. Na tarde daquele sábado havia chovido muito
e faltou energia, o que contribuiu para que nos recolhêssemos mais
cedo ainda, indo todos para a cama, logo ao anoitecer, assim como
fazem as galinhas em relação ao poleiro. Entretanto, algum tempo
depois, ainda cedo para os costumes de hoje, o fornecimento de
energia elétrica se restabeleceu e do Oratório se ouviu sinal de que
haveria cinema. A intenção de dormir foi pro brejo, mas como ir sem
autorização do papai que dormia? Acordá-lo para isso, nem pensar! A
opção mais viável, também arriscada, era sair às escondidas. Antes
disso, no entanto, havia que conseguir a adesão dos dois irmãos
dorminhocos. Se um negasse fogo, o cinema estaria fora de cogitação.
Acordei o primeiro e não foi difícil conseguir dobrá-lo ante minha
proposta. O mais novo e mais sonolento demorou a entender o que se
passava, mas ao se despertar completamente pulou da cama também.
Saímos às apalpadelas, no escuro, passamos pelos fundos, enfrentamos
barro e mato molhado no quintal, descemos por velho muro de arrimo
todo em pedra seca, também no escuro, alcançamos a rua e nos
abalamos para o Oratório.
Voltamos pelo mesmo
caminho e da mesma maneira, sem que nada denunciasse nossa
peraltice, só agora revelada fora do nosso triangulo fraterno e
solidário! Esta foi a mais séria aventura infanto-juvenil em que me
meti e aos meus irmãos, sem a devida anuência paterno-materna. Mas,
era cinema! Por isso, a escapadela quase cinematográfica!
Não venham me dizer que
cinema, como o de antes, está superado graças à televisão, ao DVD e
outras trenheiras. Nada se iguala à sala de projeção, que nos isola
do mundo, nos põe em sintonia com o virtual na telona! A sala de
projeção é coletiva, porém o espectador se sente único, livre dos
ruídos externos, dos "jecas do asfalto", até dos frissons
domésticos. No ambiente doméstico, pode ter plasma, LCD 52", Full Hd,
HDTV, home theater e o escambau, mas a sala de cinema não perde sua
posição de universo da fantasia, onde o filme é verdadeiramente
visto, sentido e compreendido.
O resto é conversa fiada.
E tenho dito!