PONTO DE VISTA DO BATISTA

Cinema, a maior diversão!

Pretendia abordar o tema antes ou durante a realização do II Cineop, mas não é porque tenha passado o momento mais propício que vamos deixar de lado considerações sobre o cinema, já chamado a "a maior diversão"; e que para mim continua a ser, embora circunstâncias adversas, e também o comodismo, me tenham afastado das salas de projeção. E cinema para mim não é só o filme, hoje visto pela televisão, por meio do DVD e até na internet. É todo um conjunto mágico, iniciado com o anúncio do filme, passando pela expectativa, as longas filas para a compra do ingresso e da entrada no foyer, onde se aguarda a liberação da sala. Dentro da sala de projeção há o burburinho, a música, até que finalmente, vem o filme, que pode ou não agradar, compensando-se a frustração proporcionada pela qualidade da película com o bate-papo nas filas, contato com outras pessoas, reencontro com os amigos. Sair de casa para o cinema sempre compensa!

Com a evolução da televisão e outras mídias, o cinema perdeu público, não o glamour, embora se diga que os melhores filmes já foram feitos e não serão superados. Perdeu público entre desfavorecidos cujo orçamento, jogado abaixo das necessidades primárias, levou espectadores ao refugio na sala de televisão, em casa; perdeu também entre os mais abastados, que sempre têm outras opções. Minguada a freqüência, outro caminho não restou senão o fechamento dos cinemas; primeiro das pequenas e médias cidades, atingindo, posteriormente, também os das metrópoles. Nestas, a onda de igrejas evangélicas converteu muitas salas, enquanto outras desapareceram simplesmente. Ao mesmo tempo, surgiram as salas dentro dos "shoppings", última cartada dos exibidores na tentativa de segurar o público restante. Quem viveu o apogeu do cinema como diversão há sempre de se lembrar daqueles momentos!

Ouro Preto, cidade privilegiada por não ter tido a única sala fechada, graças à sua aquisição pela Universidade Federal de Ouro Preto-UFOP, o cinema era o foco das atenções. Com exceção da segunda-feira, cujo programa era o mesmo do domingo, a cada dia da semana era um lançamento. E aqui reporto-me a referências, de vez em quando feitas a respeito da inauguração do Cine Vila Rica, em Ouro Preto. Diz-se que o "Vila Rica" foi inaugurado em 1958, quando na verdade o foi em 1957 com a estréia do "Rebelião em Vila Rica", filme rodado na cidade. Está, portanto, a completar seu cinqüentenário neste ano de 2007. Durante algum tempo, seus proprietários comemoraram o aniversário daquela sala com a realização do "Festival Vila Rica", sempre em outubro. Compunha-se de seis grandes filmes em lançamento. Por ocasião do segundo festival, em 1959, os filmes foram: "Glória Feita de Sangue", "Rebelde Orgulhoso", "O Pequeno Polegar", "O Príncipe Lendário", "Angustia de tua Ausência", e "À Noite Sonhamos".

As gerações nascidas a partir dos anos sessenta não vivenciaram particularidades próprias das salas de cinema. Havia frequentadores assíduos, que não perdiam um só filme, como também havia os que viam a película uma vez e voltavam a vê-la, só para fazer intervenções engraçadas. Era o espetáculo à parte. Lembro-me de certa vez, quando em rápido corte de cena, alguém gritou: "solta os bois Dodô" (Dodô era apelido dado ao dono do cinema) para, em seguida, a tela se iluminar com a visão de uma porteira a se abrir para dar saída a grande manada de gado. Em outra ocasião, cena de sedução feminina mostra mulher com decote quase a explodir sobre a mesa onde ela serve café. Ao se dirigir ao alvo de sua investida e lhe perguntar se aceita a bebida, o engraçadinho de plantão responde: "sem leite, por favor".

Superproduções como "Os Dez Mandamentos", "Ben Hur", "E o Vento Levou", " Volta ao Mundo em 80 Dias", os do gênero suspense, "Psicose", Um Corpo que Cai", "Intriga Internacional", "Os Pássaros" (de Alfred Hitchcock), os polêmicos "A Caldeira do Diabo" e "De Volta à Caldeira do Diabo" marcaram época no "Vila Rica" com filas, da compra de ingresso até o final da Rua Paraná, e de entrada por toda São José. Mas polêmica mesmo, causou a exibição do "E Deus Criou a Mulher", com Brigitte Bardot, mais porque a inquieta francesinha aparecia nua em rápida cena, embora seus dotes físicos não fossem lá essas coisas (que contraste com o, hoje, visto pela TV!). No domingo de sua exibição, calçadas de ruas centrais amanheceram pichadas com palavras de condenação ao filme. Funcionou mais como propaganda. A história do Cine Vila Rica, em seus cinqüenta anos, daria bom filme.

nbatista@uai.com.br

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