PONTO DE VISTA DO BATISTA

Um circo sem lona

"Dentro de alguns instantes, terá início o espetáculo!" . Quem nunca ouviu essa explicação com o intuito de conter a impaciência do público diante da arena do circo? Mambembe ou grande, embora, em princípio, todos sejam grandes, circo não tem hora para começar o espetáculo, mesmo depois de insistentemente anunciado seu horário. E sendo no Brasil, onde relógio é apenas um adorno que já deu status em pulsos, mais razões há para o circo protelar a entrada, com toda pompa e circunstância, dos artistas em cena. No tempo em que o circo se fazia mais presente como diversão, entre um outro daqueles repetidos anúncios, a atenção do público era distraída com atrações extraprograma e fora do controle da companhia circense, não se descartando a conveniência de toda tropelia, para que o atraso não fosse mais reclamado. Para o vendedor de pirulito, que subia e descia a arquibancada na esperança ter vazios todos os furos do seu tabuleiro, o atraso era providencial. Ele sabia, por intuição, que mesmo as crianças perdiam o interesse pela guloseima com o início do espetáculo. No fundo, comer algo no circo ou no cinema é uma forma de preencher o vazio da espera, conter um pouco a impaciência; assim como o cafezinho no ambiente de trabalho é pretexto para descanso e nada mais. Quanto ao interesse pelo espetáculo, o "piruliteiro" não podia negar, pois gostava de toda aquela animação, mas o resultado das vendas lhe falava mais alto. À medida que o tempo passava, mais gente chegava, pois há os que sabem do tradicional atraso; e a zorra crescia com as gaiatices endereçadas por grupos aos retardatários do seu meio, que vinham se juntar aos primeiros. De vez em quando algum artista se mostrava de relance o que bastava para recrudescer a bulha com os gritos "Tá na hora!", "solta o leão!". Coisas impublicáveis alguns engraçadinhos chegavam a gritar, quando se mostrava alguém do sexo oposto. Qualquer coisa servia para provocar manifestações ruidosas nas arquibancadas. No lado de fora, desocupados, com a colaboração de inescrupulosos, maquinavam a entrada por baixo da lona, o que acabava acontecendo depois de algum estratagema usado com o propósito de desviar a atenção da vigilância. Na maioria das vezes a simulação de briga junto à entrada era a garantia de ingresso da marginalidade, parte desprovida de recursos, outra desprovida do senso de respeito para com o trabalho de terceiros. Durante o tumulto armado propositalmente, muitos aproveitavam para se esgueirar rasteiramente por baixo da lona. Quando o espetáculo anunciado se iniciava, muita malandragem tinha sido aplicada e o público já estava no limite da paciência. Anunciou-se ainda há pouco o início do espetáculo do crescimento, mas nada aconteceu, com exceção do crescimento do desemprego em lugar dos dez milhões de novos postos de trabalho; isso para ficar só no campo do sustento do povo assalariado. As reformas que todos querem, desde que a parte antipática atinja somente o próximo mais distante, provocou ameaça de greve inusitada - um braço do Estado contra este próprio – e a paralisação de serviços municipais, especialmente, onde a emancipação irresponsável vinculou novas cidades à dependência exclusiva do Fundo de Participação dos Municípios. Diante do recrudescimento agressivo das reivindicações de grupos como "sem terra", "sem teto" e outros "sem" de diversos naipes, autoridades prometem punição rigorosa, mas de tudo já aconteceu e continua a acontecer contra a lei, em ambos os lados dos envolvidos. E o que se vê em resposta é somente complacência do Estado! Senadora fora do local de trabalho e de seu momento como parlamentar traveste-se de manifestante e se agarra a invasora que é retirada de prédio público. Consegue aparecer na mídia como a coitadinha arrastada por policiais. Da verdadeira arrastada não se viu o rosto e nem se sabe o nome. Uma "maria" qualquer não vende jornal, mas uma senadora... mesmo que as fotos mostrem claramente a verdadeira situação. Assim o Brasil, circo sem lona, continua a oferecer atrações extras enquanto não vem o espetáculo! E o palhaço, quem é?

nbatista@uai.com.br

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