De cócoras diante do
banditismo
Compreende-se o estado misto
de amargura, revolta, impotência e desespero de familiares ante a
violência, sob a forma de seqüestro, seguido ou não de morte, contra
alguém de seu círculo. Compreende-se que nesses momentos é difícil
superar sentimentos de carinho e proteção em relação a entes
queridos sob a tutela criminosa, para pensar e agir com racionalidade.
Os sentimentos do coração falam mais alto. E é com base nesse fator
que, paralelamente à infiltração de sua influência na máquina do
Estado, o crime organizado está a coagir a sociedade.
O seqüestro de uma pessoa,
concomitante com a tortura psicológica de seus familiares, é o meio
que, talvez por acaso, os criminosos tenham descoberto para minar a
resistência moral da sociedade. Esse tipo de crime foi adotado, em
princípio, como meio de extorquir dinheiro. Como o Estado não reagiu
à altura, mesmo por que politicamente não estava preparado, desgastado
com a repressão que se fez na luta entre ideologias divergentes durante
o regime de exceção, a sociedade se viu fragilizada. Repressão passou
a ser tabu também contra a marginalidade. Os bandidos se fortaleceram
e, na ocorrência de seqüestro, outro recurso não têm familiares de
vítimas senão ceder à tirania criminosa. Houvesse, logo no início, a
força do Estado se levantado contra o crime sistematizado em torno de
contravenções, como o do jogo clandestino, e depois do comércio de
drogas ilícitas, hoje não viveríamos esta situação de insegurança
crônica, surpreendidos a cada momento por uma nova ameaça. A batalha
contra o crime organizado, que deveria se caracterizar como ataque
direto com todo o peso, por meio da lei e da força, e indireto por
ação social, tudo dentro das prerrogativas do Estado, reduziu-se à
defesa pura e simples. No momento saímos da defesa e entramos na fase
de resistência ao cerco que o crime impôs. O crime organizado já
domina os presídios, determinando como devem eles funcionar; controla
bairros inteiros nas grandes cidades, determinando como e quando
funciona o comércio, a escola, as associações comunitárias,
chantageia autoridades etc. De alguma forma, os criminosos influem até
na batalha que se trava pela adoção de leis mais severas contra alguns
tipos de crime como, por exemplo, o tráfico de drogas.
A chamada "síndrome de
Estocolmo", que se caracteriza por simpatia votada pela vítima aos
seus seqüestradores, depois de algum tempo sob seu cativeiro, ganha
outra versão no âmbito coletivo. Ao invés de exigir do Estado o
combate, já se pede a abolição do crime. À campanha de liberação
da maconha junta-se, por incrível que pareça, a descriminação do
tráfico de drogas em geral, sugerida sob o argumento de que, liberado
todo o comércio de drogas, a violência desapareceria. Isso seria a
capitulação de uma nação diante dos criminosos! Inversão de
valores, negação de tudo que se concebe como bem comum, submissão da
sociedade aos ditames dos criminosos e, por fim, a anarquia geral. A
quem pensa inadvertidamente dessa maneira é bom lembrar que as drogas
não matam só por tabela, na disputa pelo mercado ou em confronto com a
polícia. O pior elas fazem aos seus usuários, ainda crianças e
adolescente. E são estes, dependentes do vício e dos bandidos que,
amanhã, assumirão nosso lugar na sociedade. Que país será este? O
que a sociedade deve fazer, além de fazer a sua parte como
co-responsável, é cobrar, cobrar e cobrar do poder público -
incluindo-se os candidatos já em campanha - mais autoridade de fato e
eficiência no combate ao crime; nunca se dobrar diante dos criminosos.
Que o governo, seja ele quem
for, use mão de ferro contra o crime organizado, adapte as leis aos
novos tempos, às novas necessidades, e devolva a tranqüilidade ao
povo. Que, ao invés, de contemporizar com os bandidos, as vítimas
possam confiar nas forças da Lei e na Justiça. Aos justos, a
serenidade; aos culpados, o peso do remorso somado ao da Lei!