Coincidências
Não há muito tempo, abordei
o tema das coincidências e acasos, fenômenos que nos desafiam a
compreensão e a tentativa de explicá-los, situá-los como elos na
corrente dos acontecimentos. Simplesmente acontecem e pronto. Para os
envolvidos com a lei das probabilidades e números estatísticos, creio
haver certos casos cujas probabilidades são reduzidíssimas, quase
imensuráveis. Lembrei-me de um que pode se situar nessas condições.
O futebol se situa no lado
completamente oposto ao dos meus interesses e atenções. Mas, de tanto
ouvir falar na copa, seleção e coisas do gênero, a memória levou-me
ao mesmo clima vivido em 1974 quando, forçado pelas necessidades da
sobrevivência, morava em São Paulo. Dividia com mais três
trabalhadores apartamento num prédio de vinte e cinco andares, no
centro da capital. Naquela época, tal prédio era uma favela vertical,
dotado de uma infra-estrutura administrativa tão relapsa que o imóvel
chegou a ficar sem energia elétrica durante três dias consecutivos,
porque não foi paga a conta junto à Light. Toda área comum do prédio
ficou às escuras. Conseqüentemente, ficamos sem água e sem
elevadores. Imaginem a situação de quem, residindo nos andares mais
altos, voltou do trabalho e não encontrou meios de subir para casa.
Praticamente nenhum proprietário residia no prédio e, assim sendo, os
inquilinos não tinham nenhuma garantia. Cada morador tinha que portar
um lápis ou esferográfica na hora de chamar o elevador, porque os
painéis não tinham placas; ou então arriscar um choque, introduzindo
o dedo no buraco. Hoje, o prédio conta com infra-estrutura
administrativa mais adequada, mas, mesmo assim, há dois ou três anos
uma proprietária esteve em evidência nos jornais, rádio e televisão.
Ela criava um bode dentro de um apartamento. E a coisa deu o maior bode!
Bom, vamos ao caso da
coincidência, pois a proposta inicial não foi para falar do prédio e
nem de bode. Como comemoração ao término um dos jogos da copa de
1974, só não pulou gente lá do alto. De tudo, moradores mal educados
jogaram um pouco, destacando-se o papel picado que, dos males, é o
menor. Uma verdadeira nuvem de minúsculos papéis cobriu os espaços
entre os prédios residenciais. Nosso apartamento situava-se no sexto
andar, de frente para uma das ruas, e, da janela podia-se ver toda a
agitação nos prédios vizinhos. O vento soprava os papéis picados
para direção contrária ao nosso prédio, mas, em determinado momento
um daqueles milhões de pequenos pontos dançantes no ar caiu em nossa
sala.. Durante toda a balbúrdia na rua, aquele solitário papelzinho
ficou no meio da sala. É que estávamos à janela a observar as
comemorações. De volta a calmaria às ruas, retornamos também para o
interior do apartamento. Abaixei-me para recolher o papel. Curiosamente,
não estava cortado aleatoriamente. Contornava cuidadosamente uma foto
colorida, não excedente a seis centímetros quadrados, recortada de
revista. Antes de apanhá-la percebi tratar-se de um jogador de futebol.
Ao ler sua identificação no pé da foto, veio a surpresa. O jogador se
chamava Isidoro. E daí? Poderão perguntar. Acontece que o dono daquele
apartamento se chamava Isidoro. Foi o coroamento de uma sucessão de
coincidências estranhas. Dentre milhões de papeizinhos a voar, somente
um se desgarrou e caiu em nossa sala; poderia ter caído num canto,
atrás de um móvel, mas, caiu no centro e com a frente para cima; a
minúscula foto fora preservada da tesourada aleatória. Ela mostrava,
devidamente uniformizado, um jogador de futebol, centro das atenções
daquela comemoração, mas os papéis picados não tinham origem
exclusiva em revistas de futebol. Por fim, o nome do jogador coincidia
com o do dono e residente do apartamento onde fora cair. Há que
ressaltar o fato de Isidoro não ser um nome comum. Naquele imenso bloco
de apartamentos em que deveriam morar cerca de quatro mil pessoas, só
havia um Isidoro. E até hoje, parece-me, continua a ser o único. Por
que tanta coincidência?