PONTO DE VISTA DO BATISTA

Coisas do passado

Ah! Que saudades do tempo em que fio de bigode valia como assinatura e servia de garantia em fechamento de qualquer negócio! Não que tenha vivido esse tempo mitológico da cultura brasileira, mas por ouvir dos mais velhos como prevalecia a seriedade em relações humanas noutros tempos. Podia-se confiar na palavra dada, ponto de honra das pessoas no trato com quem quer que fosse e em quaisquer circunstâncias. Pilantragem sempre houve e isso eles próprios confirmavam, dando nomes aos bois em exemplos marcantes de vilania, porém, exceções à regra geral na qual se inseria o comportamento dos cidadãos, do serviçal ao bacharel. Do meu mundo infantil, ficava a cogitar sobre o caráter daqueles senhores sisudos cujos retratos se viam nas paredes da sala das casas. Seus pêlos faciais valeriam o mesmo que os das histórias contadas por nossos avós? Alguns de longas barbas, outros não, mas o bigode sempre a se sobressair. Uns se assemelhavam a vassourões a ocupar todo o espaço entre o nariz e os lábios, quase avançando pela boca. Imagino até que ao morder bom naco de carne aqueles pêlos pudessem se confundir com a comida e... ai, ai, ai... uma fisgava na entrada das ventas punha a perder o prazer do paladar. Em outras figuras imponentes, o bigode parecia o sinal gráfico conhecido como chave, na horizontal, com as pontas enroladinhas. Entre os dois citados variavam outros exemplares desse ornato facial masculino, cada um a ostentar características próprias que, penso, podiam conter indícios da personalidade. Com a palavra os psicólogos...

Passou o tempo do fio de bigode, ficando apenas este último, mais raro e sem destaque. Passou também o tempo da seriedade! "Palavra dada, palavra cumprida" soa estranho aos ouvidos afinados com conveniências e oportunismos, mesmo a empenhada sob a chancela oficial. Não se fala aqui de promessas eleitoreiras, isca destinada à pesca dos votos de incautos, porque isso só não vê não quer. Mesmo com promessas de punição, a prática dessa propaganda enganosa continua, irresponsável e sem escrúpulos, a martelar nos nossos ouvidos e desperdiçar toneladas de tinta e papel. Por incrível que pareça, existe até livro que ensina como enganar e conquistar a simpatia do eleitor, chegando ao absurdo de fazer apologia à compra de votos, configurada como crime eleitoral; passível de punição, em raros casos, é verdade. Na área comercial, o que vale é vender, não importa como e o quê. A propaganda enche olhos e ouvidos do consumidor com mil e uma vantagens, posteriormente constatadas falsas e não assumidas pelo fornecedor. O CDC está aí e, o Procon, também, mas a cultura do "deixa pra lá" e "reclamação não fica bem" dá força à prática da enganação e do não cumprimento do prometido. Também não é santo o consumidor, que assume compromissos financeiros, não os cumpre e graças a isso se coloca em suspeita o uso do cheque, símbolo de status no passado.

Tudo isso se agrava ao se constatar que na área oficial também não vale o que está escrito em convênios assinados, teoricamente garantidos por leis, sustentados por regulamentos e demais exigências burocráticas. De repente, entidade cultural envolvida, e comprometida financeiramente com base em documentos firmados com o poder público municipal, é surpreendida com a informação de que recursos prometidos não lhe serão repassados em tempo hábil para execução de projeto. A entidade que se vire para cumprir os compromissos unilateralmente e divida os louros com a municipalidade! É bonito isso?

nbatista@uai.com.br

 

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