PONTO DE VISTA DO BATISTA

Combate com armas erradas

Entre os graves problemas nacionais de ordem sócio-econômica, ou porque não dizer de sobrevivência humana, insere-se o fenômeno da seca no Nordeste, fenômeno natural, contra o qual não há o que fazer, senão adaptação a ele e meios de defesa contra seus efeitos, desde que o homem se dispõe a viver em sua área de domínio. E já teria a população nordestina superado as incertezas e agruras derivadas da seca, se, considerada a dignidade da vida humana, política séria tivesse sido implementada ao longo do tempo, desde que pisaram ali os primeiros colonos. Embora o grito doído pela vida tenha ali ecoado desde os primeiros instantes da ocupação, o que houve em resposta foi exploração econômica do colonizador, seguida da exploração política do poder nacional, de braços dados com os coronéis, herdeiros diretos dos reinóis no domínio da população rural e recipiendários de benesses altamente compensatórias pela manutenção do poder político de uns e de outros. Paternalismo e paliativos em lugar de soluções definitivas mantêm, até hoje, o mesmo estado de necessidade coletiva no Nordeste. Com o assistencialismo mantêm-se junto ao povo as esperanças de um porvir, que sempre se afasta no tempo, engolindo gerações e gerações de frustrados. E assim, como alimentadores de falsas esperanças, políticos se conservam na crista do poder.

Anunciado pelo governo como solução definitiva, e defendido com unhas e dentes, o projeto de transposição de água do Rio São Francisco não passa de outra cartada política, a ser desmascarada dentro de pouco tempo, na visão de grande parte de técnicos, ambientalistas e pessoas que conhecem de perto a questão. Segundo a facção contrária ao projeto, a fazer coro com denúncias já antigas, o Rio São Francisco está em processo de colapso devido à ação predatória do homem, iniciada com o desflorestamento que reduziu o volume hídrico da bacia e agravada com a poluição das águas. E as denúncias não param na debilidade do rio, porque outras vozes se levantam para apontar desvirtuamento da intenção, acalentada pelas populações, para atender projetos de grandes proprietários, repetindo-se vício verificado na adoção de outros projetos em princípio destinados a atender necessidades coletivas. Diante de tantos clamores e denúncias, até o mais leigo se posiciona contra tal projeto, engrossando o coro dos que defendem mais atenção e cuidados para com a bacia do São Francisco, antes que se pense em sugar-lhe as águas num processo erroneamente chamado transposição.

Infelizmente, outro equívoco nasce da luta pela não consecução do projeto. Protestar, reclamar e denunciar, sim, mas que não cheguemos à chantagem emocional e tentativa de suicídio, lamentavelmente, postas em prática por um bispo católico. Os fins, inquestionavelmente meritórios, na presunção de prevalência dos aspectos negativos do projeto, não justificam os meios; um a agredir a ética e outro a violar a divina lei da vida, que religiosos têm por obrigação defender. Muito usada como meio de protesto de cunho político, greve de fome, como ato consciente e voluntário, não passa de tentativa de suicídio. Praticada por líder religioso, tido por sua corrente como exemplo a ser seguido, configura-se como ato social irresponsável porque pode induzir indivíduos de personalidade débil ao mesmo comportamento. Não somos donos do nosso corpo, e, a vida que por meio dele expressamos não pode ser descartada ao capricho do nosso entendimento mundano. Que ele se valesse do jejum, prática recomendada pela religião e altamente benéfica à saúde, quando bem equilibrada. Mas, já não se fazem bispos como antigamente!

nbatista@uai.com.br

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