PONTO DE VISTA DO BATISTA

Comodismo, covardia, ou rabo preso?

Ainda não refeitos do choque que aquele piloto nos causou com seu gesto grosseiro, próprio de quem não recebeu educação, no mínimo de como se relacionar com seu semelhante em casa deste, fomos surpreendidos pela notícia da agressão de um passageiro de avião a recém-nascido, que viajava na poltrona ao lado com seus pais; tudo isso em meio ao noticiário sobre a repatriação de brasileiros, imigrantes ilegais nos Estados Unidos. Podia ser de qualquer outro país, mas o passageiro covarde era justamente um norte-americano, infeliz coincidência na qual, certamente, os que não morrem de amores por norte-americanos vão buscar argumentos para reforçar sua antipatia. A ação de um ou dois indivíduos, isoladamente, não pode e não deve ser debitada a todo um povo, assim como este também não é culpado por iniciativas infelizes de seus governantes. Mas, em nenhuma hipótese, a violência cometida na forma de água lançada no rosto do bebê, sob o argumento de que seu choro perturbava, merece ser desconsiderada. Perturbações há de todos os tipos em qualquer lugar e choro de bebê incomoda, especialmente, em viagens, mas se todos reagissem da mesma maneira que aquele passageiro diante de situações incômodas, este mundo se tornaria insuportável. E, em se tratando de cidadão estrangeiro, que pretendia entrar no país, a deportação era o mínimo que as autoridades brasileiras podiam fazer em resposta à sua crueldade.

Pena é que um processo não tenha o autor a responder no Brasil, uma vez que os representantes legais não se comportaram como tais. Depois do impacto da violência, injustificada contra um adulto em circunstâncias semelhantes e que extrapolou os limites do compreensível ao fazer vítima um recém-nascido, o que mais chocou foi não terem os pais da criança registrado queixa numa delegacia. Desse episódio e outros mais, relegados por vítimas, depreende-se que longo caminho temos a percorrer até que a maioria tenha consciência dos deveres e direitos (nesta ordem) do cidadão perante seu semelhante e a coletividade. Deixar de registrar queixa, contra qualquer ação maléfica de que tenha sido alvo, extrapola a quebra do direito da própria vítima e atinge os da coletividade, que se torna mais frágil às investidas de elementos anti-sociais. Antes de ser direito é dever do cidadão, na condição de vítima, registrar queixa, para que se resguardem também direitos de terceiros, ainda que pouco ou nada se espere de solução para o caso – argumento defendido pelos que se omitem –pois, a segurança da sociedade depende, em primeiro lugar, da solidariedade entre seus membros. Entretanto, na contra-mão dos direitos de cidadania, o que se ouve é muita crítica contra a dita inoperância das autoridades, mal sabendo o cidadão que sua omissão é responsável, em parte, por aquela inoperância, e o direito de criticar ele perde no momento em que, por covardia, comodismo ou por ter o "rabo preso", se omite. Infelizmente, somando-se ao comodismo e covardia, ainda existe também o conceito errôneo de que, queixar-se e reclamar os próprios direitos, é coisa de "chatos" e "encrenquinhas", quando não prerrogativa de ricos, porque ao pobre cabe conformar-se com a situação. Consolida-se então a cultura do "deixa pra lá", numa submissão irresponsável, indigna de cidadão que se diz livre.

Um dia a criança agredida será adulta, e, praza Deus não lhe seja dado conhecimento do incidente, para que se conserve em seu íntimo a primeira imagem que todo filho guarda dos pais: seus ardorosos e maiores defensores!

nbatista@uai.com.br

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