PONTO DE VISTA DO BATISTA

Comunicação atravessada

Há pouco tempo, alguém me perguntou como encontro tanto assunto para escrever. Lembrei-lhe que ele próprio tem assunto para falar durante um dia inteiro e no fim deve sobrar assunto. Portanto, escrever pequena coluna, uma vez por semana não é grande coisa, para quem é do ramo, bem entendido. Isso não quer dizer que estamos livres de, às vezes, nos bater uma aridez na cachola, não propriamente falta de assunto, mas uma indolência que se mostra capa de revolta contra fatos repetitivos, que gostaríamos nunca ter tido a primeira vez. A luta contra o indesejável, sobretudo quando este tem sempre a mesma cara, exige descanso para recomposição de forças, se não quisermos sucumbir diante da mesmice. Em dado momento, quando o inimigo é muito forte, é melhor dar-lhe a impressão da vitória antecipada, enquanto nos refazemos para a resistência.

Por isso, hoje vamos divagar, devagar, isto é "caminhar sem rumo" e sem pressa entre palavras e expressões contra as quais embirramos. Imagino como deve sofrer quem aprende língua estrangeira dentro da escola e depois vai usá-la no dia-a-dia entre os que a têm como língua-pátria. No Brasil, os lusitanos estranham o uso abusivo do gerúndio em lugar da forma infinitiva e que se agrava com a prática do telemarketing, essa praga copiada dos Estados Unidos. Falantes de outras línguas aprendem o significado correto de "através" e depois se enrolam ao ouvir o termo em lugar das expressões "por meio", "por intermédio". O pobre coitado deve imaginar cena de sangue ao ouvir, por exemplo, "fulano recebeu isso ou aquilo através de beltrano". Mesmo sem o "através" ele deve se assustar também ao ouvir que o "sapato não entrou no pé" ou o "chapéu não entrou na cabeça". Engraçado é ouvir a dona de casa dizer, diante da visita que se despede: espere, que vou fazer um café novo! Gostaria de saber como se faz café velho, e, o mesmo digo em relação à casa ou à roupa, que todos fazem questão de frisar a condição de "nova" quando em construção ou confecção. Mas hilariante mesmo é quando o assunto se refere a pessoa falecida. Esse erro lemos constantemente em jornais e ouvimos de pessoas de pessoas bem esclarecidas no rádio e na televisão. Elogios à parte - coisa muito natural depois que o "satanás" vira presunto, digo, defunto - a pessoa diz que fulano fez esta ou aquela declaração "antes de morrer". Por que "antes de morrer?" Ele (ou ela) poderia falar ou fazer qualquer coisa depois de "bater com o rabo na cerca?" É isso que mata o "saraiva"! E por falar em defunto, lembro-me que um amigo ao se referir à "cidade-dos-pés-juntos", dizia "sumitério". Não era por gozação e sim pura simplicidade! Mas não é que ele tinha razão? Não é lá que todo mundo some, pelo menos materialmente? E as palavras devem, de preferência, expressar aquilo que significam. Logo o nome mais correto seria mesmo "sumitério"! O mesmo amigo não gostava da palavra futebol, não sei o por quê, mas não gostava. Quando tinha que se referir ao ludopédio (muito pernóstico para o meu gosto) ele dizia "jogo de bola", talvez a expressão usual quando aquele esporte ainda se firmava no Brasil. Para reforçar a "suspeita", havia, em Ouro Preto, um logradouro conhecido como "Rua do Jogo da Bola". Parte da birra dele contra a palavra futebol eu carrego, especialmente sob a pronúncia paulista que é "futeeebol" com o "e" bem aberto, ao contrário do que se faz com as palavras "acontecer", "acontecendo" e outras mais, das quais paulistas engolem o "e" e pronunciam "acontcer", "acontcendo", etc.

"Foot ball", aportuguesado, deveria ser "futibol", mais coerente com a fonética original, mas, bem que poderiam ter traduzido por "chutebola", ou, vá lá, "chutebol". Enquanto concluo estes pensamentos, ouço alguém a dizer que a "luz apagou". E isso pode ser tema para outro bolodório.

nbatista@uai.c

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