PONTO DE VISTA DO BATISTA

E a comunicação se fez!

Na escola se aprendia que o corpo humano se divide em três partes principais: cabeça, tronco e membros. Hoje, percebe-se que ele se divide em quatro: cabeça, tronco, membros e... celular! A engenhoca, maravilha tecnológica da comunicação pessoa a pessoa, se integrou de tal forma e tão rapidamente ao dia-a-dia que, para seus usuários, difícil se torna não tê-lo à mão. Mais difícil ainda é imaginar a comunicação tendo o telefone como serviço restrito a poucos, há não muito tempo, quando a grande maioria tinha que se deslocar ao posto telefônico e aguardar até horas para uma ligação cara e precária. Nem os poucos privilegiados tinham contato no momento desejado, senão quando isso coincidia com o sucesso da telefonista no estabelecimento imediato da conexão. Disso me lembro, final dos anos setenta, nas obras da última grande expansão da Alcan, em Saramenha. Quando se conseguia conexão telefônica com a sede da empresa, em São Paulo, informava-se a façanha aos setores possivelmente interessados, para que se valessem da oportunidade.

O celular é, pois, o coroamento de todo o processo de democratização da comunicação entre pessoas, independente das críticas que se possa fazer aos serviços prestados. Está ao alcance do maior número de pessoas, aproximando-as a qualquer momento, desde os mais importantes e de real significado na vida, aos simplesmente desinteressantes, mais desperdício de tempo e dinheiro que necessidade.

As ligações importantes se passam sem que o público delas tome conhecimento, feitas de forma discreta, em locais à prova de ouvidos alheios; ao contrário das desinteressantes, estabelecidas a qualquer momento e local, desde que haja público ao redor. O usuário, ou usuária, saca o bicho da cintura, do bolso, ou da bolsa e dispara em voz alta: Tô subindo no ônibus (será que viajará no topo onde, ao tempo das jardineiras, era o bagageiro?) e agorinha mesmo chego aí. Os dois em contato trocam mais meia dúzia de abobrinhas e o aparelho é desligado. Mais um pouco, os passageiros se sobressaltam com mistura dissonante de ruídos, por alguns chamada de música. É o suplício proporcionado pelos fabricantes dos aparelhos, que permitem ao usuário a escolha do toque de chamada, nem sempre discreto e de bom gosto. O toque do realejo se interrompe com o atendimento: pois é Fulano, tô indo pra casa de Beltrano. Pelo jeito da conversa, a chamada foi pré-combinada. A qualquer momento somos surpreendidos por pessoa, aparentemente, a falar sozinha na rua. Há apenas alguns anos tal cena ensejaria ao funcionário da Saúde, providências para internamento de mais um em manicômio! O celular proporciona também situações, no mínimo, constrangedoras como a acontecida em Ouro Preto.

Uma pessoa necessitava falar com determinado político local e ligou do celular. Ao ouvir a pretensão, a pessoa que atendeu respondeu: o doutor não está Uai! E emprestou a cara dele a essa pessoa, que chegou à janela e agora está sentado aí na sala? O solicitante estava à porta do político esquivo. Tinha que ser político!

Dizem especialistas que dentro de alguns anos - espero serem bem distantes - o celular deixará de ser mero telefone acrescido de alguns acessórios, tornando-se o computador portátil do qual será dependente a vida do homem civilizado.

Na região houve personagem que, ante o surgimento do transporte terrestre mecanizado, se recusou a usá-lo, justificando-se que não andaria governado por outro homem. Parodiando-o, espero nunca ser governado por uma engenhoca de bolso.

nbatista@uai.com.br

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