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Nossa Consciência Negra
Alexandre Braga*
O Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, é
feriado em 335 cidades, segundo levantamento da Seppir-Secretaria
Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. A data, que
será tema de diversos eventos pelo país, lembra o dia em que foi
assassinado, no ano de 1695, o líder Francisco Zumbi, do Quilombo
dos Palmares, herói e um dos principais símbolos da resistência
negra à escravidão. Havia em Pernambuco, Minas Gerais, Bahia e
outros estados cerca de 700 quilombos, 2600 comunidades
remanescentes e milhares de insurreições que lutaram contra o jugo
dos senhores de escravos, período que o sociólogo Clovis Moura
definiu como modo escravista colonial. Em 1971, ativistas do Grupo
Palmares, do Rio Grande do Sul, chegaram à conclusão de que o dia 20
de novembro tinha sido a data da execução de Zumbi e
estabeleceram-na como Dia da Consciência Negra. Em 2003, a lei
10.639, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
estabeleceu a data como parte do calendário escolar. Mas, apesar
dessa agenda de eventos para celebrar a negritude, a nossa
consciência negra é fenômeno novo dentre as várias manias adotadas
pelo povo. Hoje é chique ser black. É moderno cultivar os valores da
cultura black, enquanto o fosso social entre brancos e negros ( os
pretos e os pardos juntos ) mantém o apartheid brasileiro
inalterado. O mito da democracia racial, por aqui, foi denunciado
como mentira pela realidade socialmente perversa e pelos dramáticos
indicadores sociais; que compravam que negro no Brasil está
associado à miséria e exclusão social. Por exemplo, somente o IBGE
calcula que precisaremos de pelo menos 20 anos de políticas voltadas
para as ações afirmativas para colocar brancos e negros em níveis
mínimos de igualdade.
Portanto, a lembrança de datas como essas têm um
viés político muito forte: a resistência venceu a escravidão. Por
isso, suas atividades vêm carregadas de tempero emocional. Dessa
forma, o Dia da Consciência Negra traz consigo tantas e variadas
atividades, como as marchas para aumentar a consciência do
pertencimento étnico, os protestos mais raivosos e justos, e as
homenagens aos homens e mulheres negros ( Zumbi e Dandara, líderes
da República de Palmares; Osvaldão, líder da Guerrilha do Araguaia;
Machado de Assis, escritor; André Rebouças, engenheiro especialista
em engenharia hidráulica-ferroviária e de portos; Chiquinha Gonzaga,
compositora, pianista e primeira mulher a reger uma orquestra no
Brasil, João Cândido, líder da Revolta da Chibata, entre outros)
que, de alguma forma, ajudaram na construção da riqueza da nação
mais negra fora do continente africano. E o maior significado desse
dia é que longe do ranço contra quem quer que seja, hoje a população
negra, ou os 49,8% do povo brasileiro, luta pelo cumprimento do
plano de ação assumido na Conferência da ONU Contra o Racismo,
Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata em 2001 e
pelas propostas da Conferência Nacional de Promoção de Igualdade
Racial, organizada em 2005 pelo governo brasileiro. Além disso, o
Movimento Negro quer justiça social aos próprios negros, aos povos
de tradição indígena e aos demais grupos que durante a construção
dessa nação-continente tiveram seus direitos humanos violados. Ou
seja, no século XXI o debate sobre as alternativas para o
desenvolvimento sustentável, as soluções para superação dos
conflitos étnicos e o combate ao preconceito e às desigualdades
sócio-raciais se dão entrelaçadas pelo culto à capacidade de
resistência dos povos e pelo clamor por eqüidade. É inegável a
herança africana na culinária, na dança, no ethos do nosso
povo, mas é inegável também o atraso com que o Estado brasileiro
trata essas questões. Às vezes quando as assumem o faz lentamente e
de forma mais para negro ver do que para negro ter justiça e
respeito de fato.
*Alexandre Braga é Coordenador de
Comunicação da Unegro-MG e da Coordenação Executiva do FOMENE-Fórum
Mineiro de Entidades
Negras.Email:bragafilosofia@yahoo.com.br
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