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A consciência negra
Alexandre Braga*
O Brasil celebra,
comemora, protesta e entra definitivamente na sua conscientização
negroide. Esse fato venceu as teses morenistas, que pregavam que
seríamos uma nação atrasada por causa da nossa herança africana ou
porque uma possível ascendência negra iria nos envergonhar. Todo
esse repertório falacioso perdeu força e caiu no desgosto da
população, apesar de se passarem tantos anos de exclusão étnica.
Hoje, a consciência negra, que virou uma agenda pública mensal,
significa o reconhecimento dessa importante herança negra para o
sucesso societário brasileiro. As ações afirmativas, dela oriundas,
são a aplicação prática dos preceitos que estão na Constituição
Federal, na ideologia e no ethos do nosso povo. Mesmo que com
um reconhecido atraso na disponibilização de ferramentas para
superar as diferenças entre brancos e negros ( incluindo os próprios
“morenos”, os pretos e os pardos), o Brasil está na rota certa para
avançar na construção da democracia racial, que pode tornar-se
realmente um fato. Somente na educação há em torno de 90 das
melhores universidades que usam os mecanismos especiais de inclusão
educativa para beneficiar os estudantes de camadas pobres, aplicando
também o recorte étnico-racial. Na saúde, cultura, empregabilidade,
também há ações voltadas para a inclusão de negros e seus
descendentes.
Na literatura,
teremos muito trabalho para revisar os livros didáticos usados por
nossos pupilos nas escolas, como recomenda a Lei nº 11.645 – sobre
o ensino da cultura afroindígena nos colégios brasileiros. Por
exemplo, somente o IBGE calcula que precisaremos de pelo menos 20
anos de políticas voltadas para as ações afirmativas para colocar
brancos e negros em níveis mínimos de igualdade. Portanto, a
lembrança de datas como essas, do mês da consciência negra, têm um
viés político muito forte: a resistência venceu a escravidão. Por
isso, suas atividades vêm carregadas de tempero emocional. Dessa
forma, o Dia da Consciência Negra traz consigo tantas e variadas
atividades, como as marchas para aumentar a consciência do
pertencimento étnico, os protestos mais raivosos e justos, e as
homenagens aos homens e mulheres negros ( Zumbi e Dandara, líderes
da República de Palmares; Osvaldão, líder da Guerrilha do Araguaia;
Machado de Assis, escritor; André Rebouças, engenheiro especialista
em engenharia hidráulica-ferroviária e de portos; Chiquinha Gonzaga,
compositora, pianista e primeira mulher a reger uma orquestra no
Brasil, João Cândido, líder da Revolta da Chibata; entre outros),
que, de alguma forma, ajudaram na construção da riqueza da nação
mais negra fora do continente africano. E o maior significado desse
dia é que, longe do ranço contra quem quer que seja, hoje a
população negra, ou os 49,8% do povo brasileiro, luta pelo
cumprimento do plano de ação assumido na Conferência da ONU contra o
Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata
,em 2001, e pelas propostas da Conferência Nacional de Promoção de
Igualdade Racial, organizada em 2005 pelo governo brasileiro. Além
disso, o Movimento Negro quer justiça social aos próprios negros,
aos povos de tradição indígena e aos demais grupos que durante a
construção dessa nação-continente tiveram seus direitos humanos
violados. Ou seja, no século XXI o debate sobre as alternativas para
o desenvolvimento sustentável, as soluções para superação dos
conflitos étnicos e o combate ao preconceito e às desigualdades
sócio-raciais se dão entrelaçadas pelo culto à capacidade de
resistência dos povos e pelo clamor por equidade. É inegável a
herança africana na culinária, na dança, no ethos do nosso
povo, mas é inegável também o atraso com que o Estado brasileiro
trata essas questões. Às vezes, quando as assumem, o faz lentamente
e de forma mais para negro ver do que para negro ter justiça e
respeito de fato.
*Alexandre Braga é
Coordenador de Comunicação da UNEGRO-União de Negros Pela Igualdade,
Tesoureiro do FOMENE –Forum Mineiro de Entidades Negras, africanista
e articulista de jornais no Brasil e África.
bragafilosofia@yahoo.com
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