A Criação é obra
não concluída, que avança em direção ao infinito mediante cooperação
mútua de todas as coisas sob a regência da inteligência suprema,
comumente denominada Deus. Tudo tem uma razão de ser, embora no
entendimento humano muitos seres sejam maléficos, muitas coisas sem
sentido. Na verdade, nada existe sem propósito em toda a engrenagem
do universo. O que parece fora de lugar ou contraditório cumpre
função, ainda que humanamente não compreendida, no esquema geral da
cooperação universal. Seria difícil a constatação, se a cooperação
estivesse restrita aos confins do cosmos, entre os astros, cada qual
com sua natureza peculiar.
Não é preciso
voltar a atenção para tão longe, pois os exemplos estão próximos, ao
redor de cada indivíduo. A todo o momento e em qualquer lugar,
exemplos se mostram dessa cooperação na natureza, bastando a atenção
estar desperta para que sejam percebidos.
A jabuticaba,
fruta tão apreciada na região de Ouro Preto, tem sua existência
garantida quando, quarenta dias antes da maturação e consequente
colheita, as flores se abrem a cobrir de amarelo pálido toda a
jabuticabeira, da raiz aos galhos mais altos. Ao mesmo tempo em que
isso acontece, a jabuticabeira se despe das folhas, abrindo caminho
para que as abelhas se aproximem na execução da tarefa da
polinização, sem a qual frutos não nascerão. Finda a polinização, o
que acontece ao cabo de três dias, toda a árvore se refolha de verde
escuro e assim se mostra durante mais um ano, até outra floração. Se
a jabuticabeira não cooperasse, permitindo às folhas que caiam no
momento necessário, as abelhas teriam dificuldade em sua
aproximação. E as abelhas são apenas uma das espécies que cooperam
na produção de frutos e na proliferação da flora em todo o planeta.
As aves, de modo geral, disseminam sementes por onde andam ou voam,
e, as pescadoras ajudam a povoar os cursos de água com ovas de
peixes, transportadas nas patas de ponto a outro. Esquilos e outros
roedores, assim como macacos, são conhecidos pela prática de também
espalhar sementes nas florestas. Quem trabalha a terra, planta e
colhe, conhece a relação entre "plantas companheiras", espécies
diferentes, porém cooperativas especialmente na defesa contra
pragas. A chuva cai no momento certo para que semente germine e a
noite sucede ao dia para que a natureza descanse. A cooperação se
faz presente em tudo.
Dentro da
espécie humana, por força da necessidade, os indivíduos cooperam
mediante trabalho, ainda que remunerado, e compulsoriamente,
cooperam por meio do recolhimento de impostos, necessários à
administração e provimento de serviços públicos. Felizmente, há
indivíduos conscientes da importância da cooperação e, entre estes,
ela vai além do trabalho comum e das obrigações de cidadania. Estes
formam a rede informal da cooperação espontânea, responsável por
grande parte do desenvolvimento humano. Essa cooperação está
presente em todas as áreas do conhecimento e das atividades humanas,
de forma individual ou associativa, desde o indivíduo que ajuda seu
semelhante até entidades científicas, passando pelas associações de
vizinhos e de bairros. Sem alarde ou qualquer propaganda, indivíduos
solidários se dedicam à causa do semelhante de diversos modos, em
todas as áreas e, repetindo-lhes o gesto, organizações e associações
sem fins lucrativos levam seus serviços a todos os cantos do mundo.
Em princípio, nem guerras são obstáculos à atuação altruísta dessas
pessoas e entidades, sendo conhecidos do público vários casos de
pessoas salvas dos horrores dos campos de concentração, durante a
Segunda Guerra Mundial.
Embora possa
haver competição - e há - entre duas entidades congêneres, isso não
impede que membros de uma cooperem com outra, em situações aflitivas
ou com objetivo de puro companheirismo, em mão dupla. É a
fraternidade humana a superar, momentaneamente, o orgulho de ser de
uma entidade em favor de outra. No tempo ocioso de uma, integrantes
seus cooperam com a outra em atividade; e o mesmo acontece em
posição inversa, só não valendo o deslocamento de uma para outra,
quando as duas estão atividade ao mesmo tempo. O intercâmbio
funciona bem e as duas entidades seguem seus caminhos, sem que uma
prejudique a outra até que a exploração, escorada na vaidade, no
egoísmo e sob visão de imperialismo tacanho, se faz pela mente de
pessoa em posição privilegiada, numa das entidades. Alheio a todo o
histórico do sucesso intercambial, induz transferência do outro
grupo para sua entidade em momentos de atividades simultâneas nas
duas. Instado a respeitar a existência da outra entidade, revela-se
intransigente, afirma que o problema não é seu e, sim, da outra
entidade. É a política da terra arrasada, praticada mediante
estimulo à indisciplina na outra entidade, para agir como
sanguessuga e alcançar a hegemonia sobre aquela.
O mundo é
povoado de cooperadores sinceros, mas há também o espírito de porco!