Corta o sete!
Na área da comunicação, a
internet é a maior descoberta e melhor ferramenta para o
aprimoramento do conhecimento humano, quando utilizada com critério,
porque assim como qualquer outra pode ser faca de dois gumes, "emburrecendo"
ainda mais os que confiam cegamente em tudo que lhes chega do
ciberespaço pela tela do computador. O engano começa pela crença
ingênua de que nela tudo se encontra, e não é bem assim. Na internet
se encontra de tudo, mas não tudo; somente se inserido por alguém.
Também nela não há geração espontânea!
Quanto ao seu uso creio
que será mais racional a partir da geração ainda nos cueiros (ainda
existem?), devidamente preparada e educada para não cair nas
armadilhas dos sites de relacionamento, na prática da fofoca, nas
salas de bate-papo com estranhos, também chamadas chats (e que
chatice!) ou nas chantagens de cunho "religioso" sob a forma de
corrente pelo correio eletrônico. Mas, o deslumbramento exagerado
por ela é antecedido ainda nos primeiros contatos com o computador,
quando, diante do editor de texto, o novo usuário se "descobre"
redator, quando não escritor, pensando estar a salvo de erros com o
uso do corretor oferecido pelo próprio programa. Ele, que não
mergulhe de cabeça na gramática, para ver o resultado!
Plugado na rede, descobre
então o supra-sumo do quebra-galho: o Google na internet é para ele
a panacéia que cura ignorância em qualquer nível, assim como
remédios charlatães curam desde unha encravada até "doença ruim".
Como a internet é espaço extremamente democrático quanto à inserção
de conteúdo, nem sempre o que ela responde contém a verdade ou
corresponde à busca efetuada e qualidade desejada. Portanto, bom
senso se requer no momento de absorver informação sobre assunto novo
para si e, por isso, ainda mal compreendido.
Bom, o bolodório até aqui
foi apenas para chegar à velha anedota "corta o sete", a circular na
web pelo correio eletrônico. De acordo com a anedota (na internet) a
origem do corte na haste do sete - abolida não se sabe por quem, mas
ainda em uso por muitos, incluindo-se este velho escriba, em
manuscritos - teve origem quando Moisés declinava aos israelitas os
dez mandamentos recebidos de Deus: 1º - Amarás a Deus sobre todas
as coisas; 2º Não tomarás Seu santo Nome em vão. E assim foi
relatando até que, chegando ao 7º - Não desejarás a mulher do
próximo, a turba gritou em coro: Corta o sete! Corta o sete!
Corta o sete!
Da forma como está, a
anedota encerra grande equívoco, porque o "não desejarás a mulher
do próximo" corresponde ao 9º e não ao 7º mandamento. O 7º diz:
Não furtarás! Tenho duas explicações para a incorreção. Na
primeira, vejo o autor da inserção da anedota na internet como
analfabeto de pai e mãe em relação aos dez mandamentos ou, então,
necessitado de voltar às aulas de catecismo. Entretanto, na segunda
pode estar a origem do erro.
Muitos ainda usam o corte
no 7 para evitar confusão com o algarismo 1 que, especialmente sob a
forma manuscrita, ostentava espécie de apêndice ao alto, puxado para
a esquerda. Mas, o 7 não foi o único algarismo a ter o corte na
haste. O 9 também já teve o mesmo corte, para evitar confusão com o
6, se visto invertido. Em documentos antigos, isso pode ser
comprovado, entre outras curiosidades, como o "s" dobrado. No caso
dos dois "esses" manuscritos, o segundo se estendia abaixo da linha,
assim como o "z" minúsculo. Ainda não encontrei explicação para
aquele "s", esdrúxulo, prepotente e "aparecido". Quanto à anedota,
deduz-se que, originalmente, pode ter feito referência ao 9º
mandamento até que se aboliu o corte no 9. Posteriormente, passou-se
ao 7º, sem que fosse trocado o mandamento pelo correspondente na
ordem cronológica.
Este é apenas pequeno
exemplo dos muitos equívocos encontrados na internet, sem falar na
falsa informação, visando interesses não revelados!