Embora fosse
madrugada, o ar estava sufocante, em decorrência do forte calor
imperante no último janeiro, céu praticamente sem nuvens, em
contraste com outras regiões onde chuvas torrenciais e contínuas
causavam destruição e mortes. A completar o quadro angustiante, para
os que pouco sono têm, uivos e latidos quebravam o silêncio.
Da janela podiam
ser vistas quase duas dezenas de cães, de diversos tipos e tamanhos,
em sobe e desce pela rua, naturalmente, a perseguir uma fêmea no
cio. Tão grande quantidade de cães abandonados nas ruas, em pouco
tempo, leva à constatação de que a "carrocinha" municipal está a
enxugar gelo. Recolhem-se os animais e, poucos dias depois, as ruas
estão cheias deles. Pelo aspecto dos animais, bem nutridos e
aparentemente saudáveis, percebe-se que o abandono é recente. Não
somente doença motiva o dono ao abandono do cão. Parece que é
simples desprezo pela vida! O cão é considerado o melhor amigo do
ser humano, mas o que prende este àquele não é afeto (com exceções,
é claro), mas a característica submissão canina. Pode ser agredido e
enxotado pelo dono, mas ao ouvir o estalar dos dedos do mesmo, ele
volta, tranquilo a abanar a cauda. O bicho homem é dominador,
enaltece a submissão de seu semelhante e vê no cão a qualidade nem
sempre vista nos da sua espécie. Quando o cão não responde a esse
interesse, é abandonado, ainda que livre de doenças.
Mas, há também o
contrário e, coincidentemente, enquanto redigia estas linhas,
chegou-me jornal com matéria a retratar trabalho de psicólogos junto
a casas de abrigo a idosos. Cães abandonados são adotados, treinados
e levados em visita aos idosos que, muitas vezes, são também
abandonados pela família. Estabelece-se, então uma interação
proveitosa ao idoso e ao cão. O cão quebra a solidão em que vive o
idoso, e recebe deste o afeto compensatório pelo período em que
viveu abandonado.
Ao longo do dia,
vários deles são vistos a cheirar pessoas e olhar insistentemente à
sua volta, como se à procura do dono. Outros são vistos, em posto de
gasolina, a rondar a cabina de cada caminhão, que para em busca de
abastecimento. Guardam na memória que aqui chegaram, transportados
de algum lugar em veículo. É improvável que tantos cães vadios sejam
descartados por pessoas locais, deduzindo-se facilmente que são
"deportados" de outros pontos de origem. E isso ainda não se provou
porque, de longe e na escuridão da noite, ainda não foi possível
anotar a placa de caminhão, visto algumas vezes, a descartar
matilhas nas ruas de Cachoeira do Campo.
O ladrar dos
cães faz lembrar o tempo em que eles eram muitos, e se sabia disso
porque eram ouvidos de longe, pois presos estavam nos quintais. Um
ou outro, quando saía, era para acompanhar o dono. E se houvesse
cães na rua, como hoje, por certo que certos costumes não teriam
prosperado. A carne, por exemplo, adquirida nas vendas (não havia
açougues) onde se comprava com caderneta, para pagamento no fim do
mês, o consumidor levava pendurada por pedaço de embira trespassado
no pedaço mais firme da peça comprada. Imagine-se a carregar carne
dessa maneira com dez a vinte cães famintos em volta de si. Na
embrulhada que se formaria, até o consumidor viraria comida de
cachorro!
Havia animais
nas ruas, sim, e muitos: galinhas, cavalos e burros.