Cultura maltratada
"Água mole em pedra dura,
tanto bate até que fura", diz o povo em seu otimismo, ao que emenda
o pessimista: "ou acaba a água". Paciência, persistência,
resistência, são armas com que lutam os mais fracos contra a dureza
dos mais fortes, não querendo dizer que fortes aí sejam,
necessariamente, os dotados do poder econômico, porque o poder
político pode até ser mais cruel, embora, teoricamente, sua função
seja administrar em benefício de todos. O poder do dinheiro compra,
faz comprar, corrompe, subverte e aniquila caráter em toda a escala
social, mas o poder de mando, de decisão, é discriminatório e
sujeito a "variações climáticas", desde a dura inflexibilidade até
extrema maleabilidade contida no famoso jeitinho deste país
tupiniquim. Por este preâmbulo, percebe-se que o tema focal (não
confundir com fecal) é o poder público versus sociedade.
Nas últimas semanas um
misto de jogo de empurra, má vontade, enrolação, propaganda
enganosa, tem acontecido em Ouro Preto sem que a população perceba
seu alcance, talvez porque a vítima esteja situada culturalmente na
faixa despojada do poder de barganha e não iluminada pela mídia.
Pelo quinto ano
consecutivo, realizou-se o Festival Ouropretano de Bandas de Música,
iniciativa que tem à frente duas instituições federais, uma entidade
representativa empresarial e, nos dois últimos anos, também a
entidade representativa das bandas locais. Da parte empresarial,
responsável pelo transporte das participantes mais próximas, tudo
foi cumprido, com exceção de um caso por culpa da empresa
transportadora que não cumpriu o contrato, ainda que verbal. Em três
casos de bandas mais distantes (Jeceaba, Santa Bárbara e Nova Lima),
faltou transporte porque o recurso foi cortado no último momento e,
no caso de banda entre as mais próximas - acredite se quiser - não
havia motorista para conduzir o veículo disponibilizado para tal. O
pequeno público só tomou conhecimento do evento dois dias antes, em
razão de a instituição responsável só ter liberado a divulgação no
último momento. Programado há algum tempo para reunir dez
corporações em dois dias de apresentações, o evento foi realizado
com a participação de apenas cinco, inclusa a de Nova Lima, que
compareceu com os próprios recursos. Nem teria se realizado se não
houvesse pessoas desprendidas, para as quais compromisso cumprido é
ponto de honra, o que se prova pelo histórico dos festivais
anteriores, realizados sem problemas! Na realização de evento
elitista tais fatos não acontecem, porque aí o jeitinho funciona!
Em data anterior, a
prefeitura instruiu as bandas no sentido de que apresentassem
projetos para investimento de seis mil reais, valor da subvenção
municipal para cada uma delas neste exercício. Convênios foram
assinados e o repasse seria no dia 30 de julho, ocasião em que todas
as contempladas se apresentaram na Praça Tiradentes, por convocação
da prefeitura. Entretanto, nem se falou no assunto naquela ocasião.
Posteriormente, em caráter extra-oficial, apresentou-se desculpa
esfarrapada de que a Câmara Municipal estava em recesso (em todo o
primeiro semestre?), seguida de outra que dizia estar o impasse na
Secretaria Municipal da Fazenda. Por último, comenta-se que o freio
foi puxado por espécie de "censor financeiro" (anti-prefeito?)
existente na administração municipal, que se revela contra
subvenções justamente diante das bandas de música, porque outras
entidades já receberam sem qualquer problema.
Não é por outra razão que
alguém, em recente evento religioso, pela primeira vez nem chegou
perto da banda de música, que ali se apresentava. Em momento
significativo, ao final das celebrações, ao invés de à frente como
seria natural, postou-se atrás da pequena multidão, de onde
espichava o pescoço para ver a cena à porta da igrejinha!
Não importa a dureza dos
que se opõem, porque as bandas de música, de ora em diante, baterão
como água a fim de romper a capa de elogios enganosos para se obter
o reconhecimento de fato.