PONTO DE VISTA DO BATISTA

Dom Bosco, sonho que findou!

Novamente sob o foco das atenções, a sustentabilidade da "Escolas Dom Bosco" levanta discussão preocupante naquela comunidade escolar, herdeira do que sobrou da antiga estrutura mantida durante cerca de cem anos. Primeira casa fundada em Minas Gerais, em 1896, oito anos apenas após a morte de Dom Bosco, fundador da obra salesiana, o estabelecimento recebeu nome de Escolas Dom Bosco, devido a pluralidade de cursos instalados: Primário, Secundário, Curso Profissional de Agronomia, Mestres e Contramestres em Artes e Ofícios, mantidos pelo menos nos cinco primeiros lustros (vinte e cinco anos).

Tendo alcançado fama e prestígio devido à qualidade universalista do ensino, famílias de destaque nos meios político e econômico elegeram o estabelecimento para a educação de seus filhos, mas, ao mesmo tempo, iniciaram pressão para que os mesmos não fossem levados ao manejo da lavoura e/ou às oficinas de ofícios (Alfaiataria, Sapataria, Carpintaria, Marcenaria, Tipografia), devendo ater-se tão somente aos estudos preparatórios. Era o velho e preconceituoso academicismo brasileiro a se opor à técnica, assim como ainda hoje! Ao mesmo tempo, o Estado cortava a subvenção destinada às oficinas. Reduzindo seu ensino a tão somente o curso ginasial, o Colégio Dom Bosco (denominação pela qual passou a ser conhecido, embora conservasse o nome original, como até hoje) tornou-se referência, quando escolas privadas de boa qualidade eram raras, e estas eram de natureza religiosa e regime de internato. Bons professores, ensino universalista, disciplina rígida, tudo temperado com diversificadas atividades desportivas e culturais, deram ao "Dom Bosco" de Cachoeira do Campo o galardão na figura do ex-aluno, que estufa o peito para dizer, com orgulho: eu estudei no "Dom Bosco" - e este escriba não se furta ao mesmo gesto!

O "Dom Bosco" não mais é o mesmo, perdidos o corpo docente que definia sua natureza religiosa e o aprazível espaço entre as muralhas do antigo quartel colonial, embora lhe sobre o nome aureolado pelos antigos feitos. E é com o nome, tão somente ele, que se tenta manter o que sobrou, dentro do exíguo espaço restante do antigo Oratório Festivo, onde também já retumbaram hinos e algazarra de crianças e jovens em formação salesiana. Por muito que se esforce, o corpo docente leigo nunca conseguirá atingir a proficiência dos antigos quadros, cujos professores tinham suas necessidades de natureza pessoal resolvidas pela congregação. Dedicavam-se totalmente à educação, aprendendo (porque também eles estudavam) e ensinando, sem preocupação com sua manutenção e atenção voltada para problemas domésticos.

A crise das vocações religiosas reduziu a renovação nas fileiras salesianas, provocando assim carência de recursos humanos para a área educativa, que se viu forçada a buscar compensação no meio leigo. Assim, temos hoje, de um lado, a congregação salesiana a fingir que tem o mesmo colégio de outrora, e de outro, a comunidade dos educandos a fingir que acredita na história, impelida, em parte, pela vaidade que não admite a realidade frustrante. Comunidades de educadores e de educandos tentam se agarrar ao antigo status do estabelecimento, mas para a geração atual isso constitui apenas um sonho, saudosa lembrança da realidade vivida por privilegiados do passado, um tanto distante. Além de tudo, poucos são os que podem pagar por ensino de melhor qualidade, mas não obtêm a excelência, também pretendida por grupo maior cujo orçamento não comporta, sem riscos, a mensalidade cobrada.

Aí está o impasse que precisa ser superado com discussão sincera e adequada à realidade, sem apelos emotivos aos feitos ou desfeitos no passado, visando tão somente a continuidade do estabelecimento a partir do estágio atual, para – quem sabe? - alcançar outros mais altos, no futuro. Antes é preciso que cada um esteja convencido de que o "Colégio Dom Bosco", como conhecido no seu apogeu, não mais existe.

Mas possibilidade existe de recuperar parte do seu brilho como instituição de ensino, desde que cada um ofereça o melhor de si em trabalho, superando discussões estéreis e críticas inúteis.

nbatista@uai.com.br

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