O FUTURO DO DOM BOSCO ESTÁ COM A JUSTIÇA DE OURO PRETO

                                                                                                              Mauro Werkema - jornalista

 

Está nas mãos da Justiça de Ouro Preto decidir a destinação de uso do Dom Bosco, prédio do antigo quartel e terrenos. A proposta do movimento “O Dom Bosco é Nosso”, até agora vitorioso com a Ação Civil Pública impetrada pela Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico, através de seu coordenador, promotor Marcos Paulo de Souza Miranda, entende que a melhor destinação é transformar o Dom Bosco numa espécie de campus cachoeirense da UFOP, conforme já conversado preliminarmente com o reitor João Luís e com o professor Jaime Sardi. As idéias variam desde uma escola agrícola, uma escola técnica de nível colegial preparatória, um hospital regional, para estágio da Faculdade de Medicina e outras unidades da UFOP, que necessita de área de expansão, desafogando Ouro Preto já congestionado com alunos, professores e funcionários atraídos pelas últimas escolas.

 

O questionamento feito pelo Ministério Público se faz através de uma peça jurídica de grande valor técnico e elevado sentido ético e histórico. Pede que o Dom Bosco seja devolvido ao Estado uma vez desfeito, pela Congregação Salesiana, o compromisso de uso do imóvel público para fins educacionais. Mas não só por isto: questiona a transação imobiliária com particulares. É que o Dom Bosco possui história, é estratégico para Ouro Preto e região, deve continuar a ter função pública, de interesse coletivo, se possível de caráter educacional e não servir ao rendoso negócio imobiliário. Nada contra o investimento privado, sobretudo se trouxer emprego e renda para a região,  mas que se faça em outros terrenos, que existem. O Dom Bosco, por seu simbolismo cultural  e pelo sentimento de  “pertencimento” com o povo de Cachoeira do Campo, deve ter funções públicas.

 

Deste episódio, fica claro o valor da mobilização popular, que até emociona os que dela participaram. Reuniram-se  em Cachoeira do Campo, homens e mulheres, conscientes da sua missão de retomar o Dom Bosco, jovens e adultos, de diferentes inserções sociais e profissionais. Sabiam das dificuldades de enfrentar empresas e capitais poderosos. Escreveram boletins, fizeram passeata, incentivaram a comunidade, mobilizaram a imprensa, procuraram o prefeito Angelo Oswaldo, o reitor João Martins, os vereadores, a Assembléia Legislativa, a OAB. E, sobretudo, o Ministério Público Estadual. Encontraram  no promotor Marcos Paulo de Souza Miranda, pessoa séria e competente, historiador, que vem se destacando nos meios jurídicos mineiros, um servidor público dedicado e consciente de seus deveres, hoje merecedor de profundo respeito dos seus colegas. O interessante é que realizaram ampla pesquisa para o Ministério Público, em livros, cartórios, bibliotecas, arquivos públicos, de caráter  histórico, de legislação antiga, de fotografias, desenhos, documentos, mostrando o valor educacional, humano e sentimental do Dom Bosco.

 

E o que é mais interessante: descobriram que o Dom Bosco tem muita história, além de ter educado milhares de pessoas. Nas suas terras, teria havido um dos combates da Guerra dos Emboabas, em 1708.  No Regimento de Cavalaria da Capitania de Minas criado em 1774, serviu  o alferes  Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Seu comandante, outro inconfidente, foi o tenente-coronel Freire de  Andrada. Possuiu fábrica de armas, que abasteceu até o Rio  de Janeiro. E também ferraria importante para sua cavalaria. E dom Pedro I, que nele esteve em abril de 1822, foi seguido, seu pedido,  na sua viagem de volta,  por duas companhias de soldados do Regimento, que assistiram ao jovem imperador no Grito do Ypiranga, a 7 de setembro do mesmo ano. Foi Coudelaria Real, criada por Dom João VI em 1816. Foi visitado por Dom Pedro II em 1881. Foi Tiro de Guerra. Foi o núcleo criador de outro Regimento do Exército, hoje sediado no Rio, e também do Regimento sediado em São João del-Rei. A Polícia Militar de Minas afirma que sua origem foi no Dom Bosco.  Foi emprestado por Pedro II ao Governo do Estado que criou a Escola Agrícola Cesário Alvim, antes da República. Em 1893, foi cedido aos salesianos, mas com cláusula determinante do compromisso de função educacional. O importante é que o movimento conseguiu documentos mostrando que não houve transferência de propriedade e que a missão educacional não havia sido desfeita em nenhum documento.

 

Que fique o exemplo, para Ouro Preto, para Minas Gerais. E para o Brasil, todos precisando muito de exemplos de cidadania, de participação, de consciência do dever de cada um e de todos. Mostra-se que a mobilização popular é importante.  E o Ministério Público demonstra que pode ser eficiente arma em favor do interesse público, ouvindo a voz popular, evitando que a ganância de uns se sobrepunha sobre a vontade da maioria. Ficam mal os salesianos, que se esqueceram do sentido ético de sua presença em Cachoeira, do seu próprio passado humanista e dos limites morais com que deveriam encaminhar seu compromisso espiritual, sobretudo não transformando sua missão em meros negócios.

 

 

 
 

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