PONTO DE VISTA DO BATISTA

Democracia de fachada

Dentro de dezessete dias, o eleitorado brasileiro - algo em torno de cento e trinta milhões de cidadãos votantes - estará mobilizado para as eleições nos níveis estadual e federal, das quais sairão eleitos deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores e presidente da República. De quatro em quatro anos realiza-se a corrida eleitoral nesses níveis e, em alternância com essas eleições, na metade do tempo entre uma e outra, a mesma corrida se faz no nível municipal. Embora se enalteçam a estabilidade política e regularidades das eleições, estas tidas como fator comprobatório da democracia, pouco ou nada o país avançou no aprimoramento do processo eleitoral, que continua a favorecer grupos e oligarquias.

Eleições se sucedem, trocam-se algumas figuras dentro dos próprios grupos, também em razão do fator morte, mas antigos vícios persistem no impedimento à ocorrência de mudanças em favor do país como um todo.

Os últimos anos foram reveladores do quanto o sistema político-partidário brasileiro é inconsistente, corporativo e tendente à impunidade de seus afiliados incursos na ilegalidade. A corrupção oblitera a luz sobre os raros imunes ao lamaçal, destacando-se sob os holofotes da mídia, os que fizeram da área pública o quintal de suas casas. Com algumas alterações nos meios e forma, mas enganadora como sempre, a campanha se desenrola com candidatos em plena autopromoção, cheios de virtudes nunca vistas quando no exercício dos cargos. Complementa-se campanha das candidaturas com apelos pró-comparecimento do eleitorado às urnas, salientando-se a necessidade da escolha consciente do candidato, mediante estudo de sua vida pregressa, antecedentes políticos, etc. E é aí que o bicho pega, pois grande parte do eleitorado não sabe como fazer tal avaliação e nem meios para isso tem, estando a internet – o melhor meio – fora do alcance da maioria. E mesmo na internet requer-se espírito crítico, cheia que está de informações duvidosas sobre o mesmo assunto, mormente em campanha político-eleitoral, com prevalência do princípio do "menor esforço" na competição em andamento: derribada ou destruição do concorrente, mediante "criação" de dados sobre sua história e imagem. Com base na incapacidade de avaliação da maioria do eleitorado, e, por meio de pesquisas, funciona o sistema indutivo do voto "maria-vai-com-as-outras", ou seja, o voto do eleitor sem opinião própria. Pressionado pelo sistema, que obriga o comparecimento às urnas mediante "chantagem", com suspenção de direitos de cidadania como "inscrever-se em concurso público ou prova para cargo ou função pública, investir-se ou empossar-se neles; receber vencimentos, remuneração, salário ou proventos de função ou emprego público, autárquico ou paraestatal, bem como fundações governamentais, empresas, institutos e sociedades de qualquer natureza, mantidas ou subvencionadas pelo governo ou que exerçam serviço público delegado, correspondentes ao segundo mês subsequente ao da eleição; participar de concorrência pública em todo o país; obter empréstimo de órgão oficial, e com essas entidades celebrar contratos; obter passaporte ou carteira de identidade; renovar matrícula em estabelecimento de ensino oficial ou fiscalizado pelo governo; e, praticar qualquer ato para o qual se exija quitação do serviço militar ou a regularidade com o Imposto de Renda" (do Código Eleitoral) o eleitor cumpre a obrigação, também recorrendo à lei do menor esforço ao escolher o candidato destacado pelas pesquisas.

Ao eleitor consciente e responsável, que pretende escolher alguém com perfil exigido para o cargo, nem sempre as opções oferecidas correspondem ao ideal pressuposto. Não há como fugir ao "prato feito", cujo critério no preparo não se baliza pelo grau de competência e integridade de caráter, levando-se mais em conta o grau de popularidade do indivíduo, cujo potencial de votos pode elevar a posição da agremiação partidária dentro do sistema vigente; sem contar o como certas candidaturas podem ser convenientes, imprescindíveis na sustentação de interesses nada compatíveis com os interesses do país.

Esse critério de escolha, manipulador e despojado de preocupação com as reais necessidades da coletividade, aliado à cultura nacional da esperteza, da vantagem a qualquer custo, engendra a corrupção, mal crônico e de difícil tratamento neste país, onde bandidos tomam conta da cadeia. A lei da ficha limpa é ainda ensaio e só atinge os da orla do lamaçal, porque os demais, eles mesmos tecem a malha de forma a não serem colhidos por ela. Quem ainda acredita no sistema e tem esperanças na regeneração política espontânea escolhe um dos que o sistema apresenta. Quem não mais acredita já optou pelo VOTO ZERO.

Partidos políticos já fizeram mal demais à humanidade.

nbatista@uai.com.br

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