Democracia de araque 1
Entre um escândalo e outro
por trás de CPIs que não passam de cortina de fumaça ou encenações
que fingem dar satisfação ao povo sobre a sujeira que a Polícia
Federal tenta limpar, políticos encontram tempo para criar outros
meios de sustentar essa farsa, teimosamente chamada de democracia.
Exaustivamente denunciado como falho, cheio de vícios a favorecer
oligarquias que, de um modo ou de outro, se perpetuam no poder, o
atual sistema há muito carece de mudanças em consonância com a
dinâmica das transformações pelas quais passam as idéias,
notadamente no campo político, destacando-se aí o novo conceito de
democracia.
Para o regime democrático,
atualmente, não bastam eleições livres, pluralidade de partidos,
liberdade de expressão e imprensa livre. Há que ser muito mais,
porque ao eleitor o poder do voto e o direito da crítica não
garantem retorno em exercício de política coerente com seus anseios
e nem administração ilibada e assentada no atendimento às suas
necessidades. Para o eleitor, pouco vale o voto como direito de
cidadania, se a partir daí nenhum controle ele tem sobre o eleito,
cuja campanha, escorada em interesses espúrios a serem satisfeitos a
posteriori se faz com base em mentiras e promessas vãs.
O desnudamento do
Congresso Nacional e demais setores da vida pública brasileira,
processado ao longo dos últimos com o afloramento de tanta
bandalheira, pôs a sociedade de sobressalto, uma vez que, de forma
repentina , não se processa a podridão. Pelo grau de deterioração,
atingindo órgãos nunca dantes imaginados como passíveis de
contaminação imoral, deduz-se que o câncer corrói as entranhas deste
país há algum tempo, sem que se soubesse; auto-inoculado pelo
próprio sistema eleitoral, viciado, aberto à corrupção e pior de
tudo, sem salvaguardas contra corruptos que conseguem se eleger.
Eleito e diplomado, empossado está e, cassado, quase certo não será!
Dentro do parlamento, com a faca e o queijo na mão, protegido pelo
partido e pelo forte corporativismo existente, as leis se fazem
amoldadas às suas mãos, prontas para a prática da gatunagem com a
sutileza da falsa capa do benefício coletivo. Confiante no sistema,
altamente favorável aos interesses inconfessáveis, o pilantra
continua a fazer das suas sem ser apanhado. E se tem menos sorte,
ainda conta com a impunidade.
Há jeito de consertar a
coisa? Claro! Só para a morte não há. Mas, com esse Congresso, fruto
do mesmo processo vicioso, impregnado de corrupção e mola propulsora
do sistema oligárquico, da maneira que querem os políticos, nenhuma
reforma ali concebida dará ao país melhores mecanismos de governo,
em todos seus aspectos. Teoricamente consideradas partidos
políticos, as agremiações que disputam e manipulam o poder no Brasil
não passam de pequenos grupos que constituem os núcleos (cúpulas)
atrás dos quais podem se formar caudas, maiores ou menores, que lhes
dão visibilidade, assim como os cometas. E são esses pequenos
núcleos que, entre si, dividem o poder. Até a oposição pode ser
apenas fachada, porque na defesa de interesses pessoais desaparecem
as cores partidárias. Sem ganhar expressão política, tais partidos
terão mais poder de manipulação mediante as listas fechadas, que
primeiro devem ser votadas na acanhada e retardatária reforma
política em pauta no Congresso Nacional.
Tradicionalmente eleitor
de indivíduos e não de partidos - porque na prática não existem - o
brasileiro terá que dizer amém a um partido, se aprovada a novidade.
E teremos então oficializada a ditadura partidária (leia-se "de
cúpulas partidárias") que, de fato, já funciona! Voto facultativo,
poder de revogação de mandatos e de dissolução do Congresso
constituem veneno contra si próprios. Não creio que bebam dele! Se
quiser ter governos honestos, competentes, e parlamentos menos
corruptos, a sociedade deve se organizar e se preparar para
dispensar partidos da intermediação política.
A sociedade organizada
pode e deve assumir, ela própria, o comando da Política. Em todo o
mundo, os políticos profissionais estão com a corda no pescoço,
faltando apenas quem lhes chute o tamborete sob os pés, pois,
partidos políticos já fizeram mal demais à humanidade!