Deputado fugiu da escola
Em contraste com a
arquitetura futurista, o traçado arrojado, amplas avenidas, grandes
espaços livres e verdes, Brasília parece ter incorporado o espírito
da confusão e quebra de paradigmas, da negação do consagrado e
endeusamento do vulgar ao condenável. Enquanto o país trabalha para,
pelo menos, permanecer de pé, ainda que cambaleante, enfraquecido
pela alta carga de impostos, juros abusivos, baixos salários e
burocracia insuportável, não somente a corrupção agrava a
desconfiança do povo na classe política, pois entre iniciativas de
cunho legislativo muitas há de pouco valor, ou nenhum, quando não
perturbadoras ou prejudiciais aos interesses coletivos.
Não faz muito tempo,
abordou-se aqui o caso do deputado federal que queria proibir a
colocação de nomes de pessoas em animais; iniciativa felizmente
repelida por muita gente, que tem o próprio nome dado a animais e
não se sente, nem um pouco, constrangida ou ofendida por isso.
Projetos inúteis, ridículos, que não acrescentam nada à vida do
cidadão são mais comuns do que parece, nos três níveis de
parlamento, embora apenas um outro caso mereça destaque na mídia.
Mas há também projetos que, parecendo corrigir erros, fazer justiça
ou ajudar, na verdade são oportunistas e niveladores por baixo,
abonadores de situações inadequadas pré-existentes.
É o caso da língua
portuguesa, vilipendiada neste país do ensino à prática mais solene,
passando por comunicadores e outros profissionais dos quais se
espera o bom uso do idioma pátrio. Para adequar a língua à
mediocridade decorrente da situação de penúria da Educação, circula
na Câmara Federal Projeto de Lei, que pretende matar e enterrar de
vez a crase, como se fosse ela mero capricho dos gramáticos.
Esclareça-se que crase não é o acento (chamado grave) e sim a fusão
ou contração entre a preposição "a" com o artigo "a" ou com pronomes
demonstrativos "aquele", "aquela", "aquilo", que resulta em "à" ,
"àquele", "àquela", "àquilo". Grande confusão existe no uso do
acento porque, não se ensina apropriadamente ou não se aprende como
deveria, nas escolas. Longe de facilitar o aprendizado e o uso da
língua, a nova regra apenas esconderá os incapazes de escrevê-la. E
se este for o caminho da facilitação, o Português desaparecerá no
Brasil, pois outras alterações serão necessárias para se adequar a
língua à incompetência. Além de substantivo como nome de letra do
alfabeto, isoladamente o "a" pode ser artigo, pronome, preposição,
crase. Na fala, pode ainda ser o "há" do verbo haver. E como muita
gente faz confusão no emprego do "a" (preposição), "à" (crase) com o
"há" (flexão do verbo haver), o mesmo deputado ou outro do mesmo
quilate, deverá propor a eliminação do "h" em "há". Vejam, por
exemplo, o trecho: "...esta manifestação
popular que resiste à pelo menos 38 anos na cidade...",
extraído de "release" enviado ao jornal. Sem o acento da crase,
incorreto no caso, e eliminado o "h" (faltante), o texto estaria
correto na boca de qualquer asno! Noutro exemplo, extraído de uma
crônica –"...porque daqui há 10, 15 anos,
estarei..." - a preposição foi trocada pelo verbo haver. Em
seu arrazoado ou tentativa de justificar a proposta, o deputado João
Hermann Neto diz que a crase "humilha muita gente".
Humilhante é o nível em
que políticos colocaram a educação. Ao invés de dar meios para o
povo se educar, derrubam-na ao nível dos iletrados. Deitam ao chão o
coqueiro para que assim se colham cocos! Explica-se também o porquê de o
engenheiro agrônomo João Hermann Neto, eventualmente deputado
federal pelo PDT/SP se atrapalhar com o acento da crase.
Entre 18.02.2003 e 09.06.2005, ele compareceu a apenas 35,30%, das
sessões da Câmara, menos da metade do exigido ao estudante como
freqüência à escola. Como foge do plenário da Câmara, deve ter
fugido também da escola, e assim sendo não teve tempo de aprender o
uso da crase.
Por isso, "tamo na mão de calango"! Ora, deputado, vá plantar
batatas, vá!