Derrubado da garupa
Uma coisa que mexe
comigo, me irrita, provoca minha indignação, é a solução simplista,
baseada no sacrifício de todos ou da maioria, para coibir práticas
danosas por parte de reduzida minoria. Cobrar da sociedade ou de todo um
grupo pelo comportamento anti-social ou criminoso de meia dúzia
considero extrema injustiça, mas o que mais se vê ultimamente é o
justo a pagar pelo pecador. Está bem fresquinho o caso da senhora de
mais de setenta anos, presa porque seu filho deixara pagar pensão
judicial devida à ex-mulher, ou filho. Na semana passada, a cidade de
Andrelândia-MG saltou ao noticiário nacional com a insólita
proibição emanada do Ministério Público endereçada à banda de
música local e ao serviço de comunicação social da paróquia. Foram
considerados como perturbadores do sossego público e, por isso,
impedidos de exercer suas atividades. Naturalmente que, impotente diante
do abuso dos verdadeiros perturbadores (veículos de propaganda sonora,
veículos particulares transformados em "tralhas elétricas",
veículos com escapamento aberto, etc.) ela decidiu impor sua
autoridade, assacando contra os mais fracos; o veículo de comunicação
comunitária ligado à paróquia e o veículo de cultura que além de
prestar serviços musicais, promove o indivíduo socialmente,
complementando-lhe a educação com a prática do civismo, disciplina e
companheirismo. Enquanto isso os "pocotós" da vida, quando
não recitações de pura pornografia, continuam a infernizar a vida de
todos.
Mudando para o lado
do crime e violência, que não param de crescer, não obstante todos
planos e promessas governamentais de contê-los, novas modalidades e
meios de agressão à sociedade surgem a cada dia, antes que as
polícias tenham tempo de assimilar e combater os já conhecidos. De uns
tempos para cá se tornou comum a prática de assaltos relâmpagos e
execuções por duplas montadas em motocicleta. Devido à maior
mobilidade do veículo para a fuga e a obrigatoriedade do uso do
capacete para os ocupantes, torna-se difícil identificar, localizar e
prender os autores. Pois bem, já se vislumbra o emprego da lei do menor
esforço para combater essa modalidade de crime. Querem proibir a garupa
nas motos. É a incompetência confessada diante dos criminosos! O
cidadão honesto já está atrás de grades, em casa e no trabalho.
Agora querem limitar sua capacidade de locomoção. O bandido está
livre, ganha importância, e o cidadão perde direitos!
Não tenho
motocicleta, nunca usei tal veículo e o abomino devido à sua
insegurança, proporcional à tentação que o condutor tem de
ultrapassar limites, mas quem gosta, tem ou usa, não pode ter seus
direitos simplesmente cortados porque alguns bandidos a usam como meio
para cometer crimes. Gostaria de ver motos barulhentas apreendidas e a
obrigação da placa estendida às chamadas trilheiras, para que estas
fossem identificadas quando em transgressão nas ruas e rodovias. Se a
polícia não tem como coibir sua circulação, proibida nas ruas, que
pelo menos essas motos sejam identificadas como as demais. Quanto
àquelas em situação regular, proprietários e usuários não são
culpados, por extensão, da violência e crimes em ascensão nas asas da
impunidade, corrupção, incompetência e falta de vontade política.
Longe de barrar a violência bandida, a proibição, se aprovada, será
mais uma violência contra o direito do cidadão de usar o meio de
transporte que melhor lhe sirva, embora a motocicleta não seja dos mais
seguros veículos. E aqui cabe observar que o público não recebe
informações estatísticas das ocorrências a envolver motos e seu
percentual sobre o total dos acidentes de trânsito. Do mesmo modo é
mantido sem saber os números de deficientes físicos feitos por
acidentes com motos e nem quantos morrem somente nesses acidentes.
A proibição da
garupa será mais uma agressão aos direitos do cidadão e uma mentira
em nome do combate à violência!