PONTO DE VISTA DO BATISTA

Desmazelo com a Língua Portuguesa

O mau uso da língua portuguesa no Brasil atingiu estágio tão comprometedor que, se quisermos uma reversão ao padrão regular, um verdadeiro mutirão deverá ser realizado, ao longo de alguns anos, em todos os níveis de atividades da vida nacional. Não se cobra aqui erudição, que deve ser cultivada tendo em vista a literatura, em suas diversas formas e gradações, à medida que ascende à perfeição, meta almejada por todos os povos no uso de seus respectivos idiomas. Também não se quer que o cidadão simples seja obrigado a conhecer, falar e escrever a língua com apuro como os mestres. Cobra-se, sim, o elementar, o básico, na linguagem, especialmente na forma escrita, da parte dos que se destacam na sociedade por força de suas profissões ou cargos públicos. O profissional de nível superior tem a obrigação de cuidar para não incorrer em erros primários ao falar e escrever, no contato com o público.

A degradação se manifesta com maior intensidade, por incrível que pareça, na área da comunicação; logo esta, por natureza, com maiores responsabilidades na preservação da língua-pátria. Como se já não bastasse a inserção abusiva de termos estrangeiros, que se qualifica também desrespeitosa para com o leitor, jornais estão cheios de vícios de linguagem. Quem, no exterior, toma contato com a pureza da língua portuguesa, ao chegar ao Brasil deve ficar horrorizado ao ouvir expressões comuns como esta: a faca chegou às mãos de Fulano através de Beltrano. Entenderá que o Beltrano esticou as canelas com o corpo atravessado pela lâmina; isto porque através tem o sentido de atravessar, de lado a lado. Não se sabe por quem e quando o através deu entrada no lugar de "por meio", "por intermédio" ou "mediante". E quase certo que algum cabeça-de-bagre, achando a palavra bonita, usou-a numa entrevista e as "marias vão com as outras" acompanharam-no. A espécie tem bastante influência no país, sobretudo por dizer besteiras! De repente veio a onda "a nível", creio que da mediocridade em que caiu o uso do idioma no Brasil, mesmo entre os ditos de nível superior. A malsinada expressão tomou conta dos discursos quando o que se queria dizer seria no "âmbito de", ou "no nível de". Perdeu ibope depois das advertências de algumas sentinelas de plantão! O uso exagerado do gerúndio, batizado de "gerundismo" pelos críticos, é outro vício que tem levado puxões-de-orelha. Terminações em "ando", "endo", "indo" e "ondo" se espalham por toda extensão de textos, como se os verbos fossem estáticos.

Mas, outro vício se configura quanto ao uso de verbos, especialmente nas páginas de grandes jornais. O verbo "ir" é usado sistematicamente como auxiliar no futuro. Ninguém mais escreve "fará", "estudará", "trabalhará", "votará". É tudo "irá fazer", "irá estudar", "irá trabalhar", "irá votar". Quando se emprega "ir" como auxiliar, o mais correto é empregar o presente "vai". Se é para empregar o auxiliar no futuro, melhor que isso seja feito diretamente com o verbo principal. No malabarismo besta, feito para evitar a conjugação do verbo principal, profissionais da imprensa chegam a misturar verbos indicativos de ações opostas. Não é raro encontrar expressões como "Fulano vai trazer". Ora, se "trazer" indica aproximação, o auxiliar não pode indicar afastamento como é o caso do verbo "ir". A expressão correta, se não quisesse dizer "Fulano trará", seria "Fulano vem trazer". Tem que haver coerência! Outros mais "evoluídos" ao colocar o verbo "ir" no futuro produzem pérolas como a de um repórter ao definir a data do retorno de um político em viagem: Fulano de tal "irá retornar" no dia...

Se vitorioso o primeiro, seria o caso de agora dizer que o Brasil está precisando de outro Mobral!

nbatista@uai.com.br

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