Tem dado o que
falar o caso do senador e ex-governador, apanhado ao volante com a
indispensável Carteira Nacional de Habilitação-CNH ("carlta" em "paulistês")
em situação irregular e, de quebra, desdenhou o bafômetro sugerido
pelo policial. E não era para menos porque, em país com altos
índices de acidentes de trânsito com mortes, o que não se pode
perdoar é autoridade, especialmente parlamentar, a fazer pouco das
leis que eles próprios criam. A imprensa tem mesmo que comentar, a
sociedade tem que discutir e cobrar mais respeito às leis,
especialmente as do trânsito, não importando o ponto da pirâmide
sócio/política/econômica, onde esteja situado o cidadão abordado
pelo agente da segurança pública.
Lei é para ser
cumprida e não é título ou oneroso cargo político que torna o
cidadão imune e inimputável; pelo contrário é dele que se espera
mais respeito e o fiel cumprimento das determinações legais voltadas
ao coletivo. Agora, o que é mais grave no episódio, que promete ser
escarafunchado pela facção, eventualmente, no poder? Para o comum
dos mortais, multa a beirar mil reais, além da perda de sete pontos
na carteira é quase o inferno em vida, sobretudo quando do trabalho
ao volante depende a vida de que quem cai nessa situação. No caso do
senador, isso pouco representa e talvez vá pesar, e muito, no lombo
de sua assessoria, secretário particular ou equivalente, a quem cabe
cuidar desses pormenores na vida pessoal do patrão. Falha como essa
é suficiente para a perda do emprego.
Políticos de
destaque e grandes executivos não têm tempo para se preocupar com
detalhes, como quando vence este ou aquele documento. Para isso,
eles contam com assessores, secretária e o escambau. Agora, beber e
dirigir, não tem jeito de debitar ao pessoal do porão! É assumir e
pagar com as consequências. Esquecer documentos, deixar de
atualizá-los ou regularizá-los é passível de acontecer com qualquer
cidadão. Não é perdoado pela lei, mas o bom senso aceita, ao
contrário do dirigir com a cuca cheia de "mé", que é coisa de
irresponsável mesmo. Ah! mas não há provas de que o homem estivesse
alcoolizado. Não há prova legal porque ele se recusou a fazer o
teste, mas ficou o ônus da dúvida, que pesa mais de que a prova
concreta, na proporção direta do grau de responsabilidade do cidadão
dentro sociedade. A lei diz que ninguém é obrigado a fazer prova
contra si próprio, mas autoridade sob suspeita de estar sob efeito
de álcool, enquanto conduz veículo, seria preferível fazer o teste e
assumir o que viesse. Fugir ao teste foi covardia e admissão de
culpa; bem pior do que se render à realidade. Diz bem o dito
popular: "quem não deve não teme"... e não treme!
E o senador não
podia beber? Podia e pode, até cair e rolar na sarjeta, se quiser.
Senador da República não está entre os cargos, oficiais ou não, aos
quais pede o bom senso (não a lei) a não ingestão de bebida
alcoólica em público. Tais cargos são o juiz, o promotor de Justiça
(ambos em qualquer nível) e o ministro religioso de qualquer crença.
O que não podia e não pode é dirigir sob ação do álcool. Este país
tem pesada carga de mortes violentas, entre elas as causadas por
irresponsabilidade no trânsito, em muitos casos, estimulada pelo uso
do álcool, antes de assumir a direção de veículo e mesmo durante o
ato de dirigir. Necessita de bons exemplos e de atitudes corajosas,
que estimulem mudanças de comportamento no convívio social,
normatizado pela lei, amparado pela educação e temperado com o
respeito.
Em países mais
educados, homem público apanhado em flagrante delito não se esquiva.
Assume sua culpa e pede desculpas ao público, ao qual deve, sim,
explicações por seus atos cometidos publicamente. Enquanto
autoridade constituída pretender ter, em público, o mesmo
comportamento inconsequente de cidadão comum, o Brasil não terá
ingresso na lista dos países considerados sérios.