Texto transcrito conforme recebido

Fevereiro 12

Depois de 9 horas de um vôo muito tranqüilo desde São Paulo, o "trem que voa" aterrisou suavemente no aeroporto internacional de Miami. Era a primeira vez, em muito tempo, que eu voltava aos Estados Unidos. Confesso que tinha um certo temor que as autoridades americanas fossem dificultar minha entrada, devido aos trágicos acontecimentos do 11 de setembro. Em vez disso, tive um sorriso no rosto e um suave "bem-vindo de volta a América, Jose", o que me deixou muito feliz. Naquele momento, senti que tudo estava conspirando a meu favor. Depois de passar pela alfândega, peguei um ônibus e fui para meu lugar preferido na Florida: Miami Beach. Fui para um pequeno hotel na Collins Avenue e depois de um relaxante banho, fui para a maior feira de barcos dos Estados Unidos: o Miami Beach Boat Show, onde encontrei Erick e Marichelli, responsáveis pelo setor de imprensa do evento e velhos conhecidos meus de outras datas. Com o apoio deles pude fazer contato com a imprensa brasileira da Florida.

No dia 17, liguei para o Dayle Groberg, da PROPHISH, da cidade de Woods Cross, no estado de Utah, fabricante do barco que eu iria usar na viagem, para saber detalhes de como estava indo sua construção, ao que ele me respondeu que apenas faltava a pintura e uns poucos detalhes (Eu havia conhecido a fabrica através da internet em setembro de 2003. Apos ver os barcos da PROPHISH (www.prophish.com <http://www.prophish.com>) sendo usado nos grandes rios americanos, em aguas turbulentas), achei que poderia fazer minha viagem em um deles. Liguei para a fabrica, e fui atendido por Dayle, quem solicitou que eu enviasse a ele uma copia do projeto. Um mes depois, recebia da PROPHISH um e-mail dizendo que eu poderia contar com o apoio deles e que meu barco ja estava sendo construido, e que, o motivo pelo qual eles aceitaram participar do projeto era porque acreditavam, assim como eu, que o mundo precisa estar ciente da necessidade da manutenção das fontes de água do planeta e fazer um chamado á comunidade internacional, da necessidade de reduzir o desperdício e a poluição de nossas preciosas fontes de água no mundo.

Neste mesmo dia liguei para o meu grande amigo Chris Warner, um alpinista que eu havia conhecido quando morava no Equador, e que me ensinou a amar a solidão das montanhas. Naquele momento, Chris estava preparando mais uma expedição para os Himalaia e convidou-me a ir com ele. Lamentavelmente, ele tinha previsto partir dos Estados Unidos dia 5 de abril, e nesta data eu já estaria fazendo minha viagem...uma pena, eu ia adorar voltar aos Himalaia.

Na noite do mesmo dia liguei para o Fernando Natalici, um grande fotografo brasileiro residente em Nova York, e autor de uma de minhas melhores fotos, em frente ao Word Trade Center em setembro de 1983, durante minha volta ao mundo.

Com Fernando, deixei tudo preparado para o dia de minha saída. Ele faria os contatos com a imprensa brasileira o que facilitaria tudo.

Quando eu já havia decidido ir para Nova York, meu amigo Hubbley Affonso me convidou para passar uns dias em Everest (perto de Boston). Apesar do frio que eu sabia estar lá, aceitei, pois d’ali teria melhores condições de fazer meus contatos e trabalhar alguns detalhes da viagem.

Ao comprar minha passagem para Boston, vi que teria que fazer baldeação em Nova York, pelo que decidi parar pelo menos um dia na "Grande Maca", e fazer uma visita rápida ao Fernando, que uma vez mais me recebeu com muito carinho e colocando, uma vez mais, seu escritório a minha disposição. Enquanto falávamos, me apresentou ao seu amigo Rabbi Abraham Gilman, um escritor, que imediatamente se prontificou em me ajudar na preparação dos boletins de imprensa para os meios de comunicação americanos. Resolvi seguir mais cedo para Boston e peguei o ônibus das 17:30. Quando cheguei na rodoviária de Boston, as 22:00, lá estava meu amigo Hubbley, com um sorriso nos lábios e de braços abertos pronto para um grande e fraterno abraço. Neste momento, senti a grandeza do que significa a palavra amigo.

Durante toda minha permanência em Boston, o Hubbley me levou a todos os meios de comunicações brasileiros na cidade e no estado de Massachussetts, e me ajudou a conseguir alguns apoios para a viagem e conhecer o trabalho da ASOBAN, uma organização de brasileiros residentes em Boston que trabalha com crianças carentes (e muitas vezes abusadas sexualmente, inclusive pelos próprios familiares) na cidade de Almenara, no Vale do Jequitinhonha, dando estudos e alimentação (as crianças cuidam de hortas e arvores frutíferas) ensinando profissões e trabalhos artesanais.

Durante os dias que passei em Boston, a temperatura estava bem baixa, sempre abaixo de 0 (zero) grau, havendo nevado bastante e chovido praticamente todos os dias, e, quando eu estava voltando para Nova York, via ao lado da estrada os rios e lagos congelados. Fiquei em Nova York na casa do Fernando e do Robert Martins, tempo que aproveitei dando entrevistas para diversos meios de comunicação, afinal, meu barco só chegaria no sábado (20 de marco).

O Fernando estava ensinando Artes e Fotografias em uma escola publica no Harlem, e me convidou para dar minha primeira palestra da viagem, o que aceitei com muita alegria. Na platéia de quase 50 alunos havia muitos filhos de imigrantes latinos, principalmente porto-riquenhos.

Apenas no domingo (21) pela manha pude conhecer o barco e Dayle, (quem havia dirigido seu carro rebocando o barco por quase 3 dias e percorrendo mais de 4.000 km desde Utah até Nova York) que me deu uma aula sobre o funcionamento do barco, um modelo "GlasSkipper", cujos flutuadores foram feitos de fibra de vidro tendo em seu interior uma armação de alumínio naval, recheado de esponja de poliuretana, medindo 4.50 de comprimento por 2.10 de largura com um peso total de 70 kg, suportando 286 kg de carga. A velocidade de cruzeiro que o barco (vazio), atingia era 17 km por hora, o que permitia um deslocamento limpo e não poluente podendo ser usado de forma ecologicamente correta. O barco também tinha um teto de lona, para me proteger das intempéries.

Apos encontrar com Dayle no hotel, fomos ate o Parque de Liberty Island para definir de onde seria a saída. Ao chegar ao escritório do parque, tive a péssima noticia que não poderia partir dos pés da estatua, como

como estava programado, (por razões de segurança nacional a estatua estava fechada para visitantes desde o dia 11 de setembro) (e que teria que comecar a viagem desde a rampa de lancamento de barcos do parque).

Esta mudança de local na ultima hora, complicou um pouco minha situação em relação ao contato com a imprensa, pois eu estava com dificuldades de aceso a internet, e não teria como avisar aos jornalistas que eu havia convidado para a saída, da mudança de ultima hora do local de partida.

A noite, ao chegar em casa, recebi uma ligação de Orlando Kessler, um jornalista gaúcho, torcedor fanático do Grêmio, que trabalhava no jornal Luso-Americano, da cidade de Newark, e era correspondente de vários jornais do sul do Brasil, quem se mostrou muito interessado na viagem, ao mesmo tempo em que se preocupava com vários aspectos pessoal da viagem, e lamentou não ter me conhecido antes para ajudar a conseguir um pouco de patrocínios para o projeto.

Orlando me prometeu chegar cedo ao local de lançamento da viagem e levar algumas provisões extras para mim.

Segunda feira 22 de março, o tão esperado dia internacional das águas havia chegado. Fernando me acordou cedo, tomei um banho, e fui dar uma caminhada para relaxar um pouco, afinal, devo confessar que me encontrava bastante emocionado, e a emoção me causou um pouco de estresse...caminhei em direção a Union Square, dei uma pequena passeada pela 5 avenida, voltei pela Broadway e caminhei de volta a casa, onde um suculento café da manha me esperava. Em seguida, dei uma ultima olhada nos detalhes da viagem e em minhas anotações. Colocamos toda minha bagagem no carro do Robert, e saímos em direção ao Lincoln Tunnel. Ao sair do túnel, vi uma Nova York diferente, faltava alguma coisa na linha dos arranha-céus, eram as torres gêmeas que faziam de Nova York um lugar diferente...especial.

Quando chegamos na rampa de lançamentos do Liberty Park, ali estavam o Orlando Kessler (que já estava ali desde as 9:00 da manha), e Dayle, que já estava montando o barco, que foi batizado com o nome "LIBERDADE". Uma homenagem aos sonhos de todos aqueles que, como eu, sabem que as fronteiras do mundo são apenas uma situação geográfica. Que o longe, e "logo ali", e que a palavra impossível, e apenas um vocábulo dos incrédulos que não ousam transformar seus sonhos em realidade.

Logo apos fazer algumas fotos para o Orlando, resolvi começar a montar minhas coisas no barco. O embaixador, Julio César Gomes dos Santos, quase não conseguiu localizar o novo local da saída, e apenas chegou devido as indicações que o Orlando ia dando a ele através do telefone. Naquele momento, descobri que praticamente nenhum jornalista chegaria ate ali...fazer o que?

Enquanto o embaixador não chegava, colocamos o barco na água e comecei a brincar um pouco para conhecer melhor meu transporte que me levaria ate o Brasil. Afinal, era a primeira vez que eu tinha a oportunidade de pedalar um pouquinho o barco

O embaixador chegou em fim, e eu já queria sair, porem, o mesmo me indicou que o pessoal da televisão ia chegar, para que eu esperasse um pouco, o que aconteceu apenas as 15:00 horas. Devido a baixa temperatura, o embaixador tentou me convencer a sair outro dia, porem, argumentei com ele, que minha data de saída "era 22 de marco, e se não fosse hoje, eu teria que aguardar mais um ano...22 de marco de 2005", fora isso, o Dayle havia dirigido quase 5.000 kms, desde Utah, para trazer meu barco, assistir minha saída e pegar o caminho de volta ainda naquele dia. Apos as filmagens e novas fotos com o Orlando, dei um grande abraço de agradecimento ao Dayle (que afinal de contas, sem o grande apoio dele, esta viagem não estaria começando hoje). Ato seguido Dayle me levou ate a rampa de lançamentos, levantei as rodas do barco, e fui pedalando para quase enfrente a Estatua da Liberdade. A temperatura estava 2 graus abaixo de zero, a água a uma temperatura de quase 10 graus negativos e ventos para o nordeste de quase 50 km por hora. Como a rampa de lançamento estava em uma pequena Bahia, quase não sentia o vento, pelo que não foi muito difícil chegar ate perto da Estatua, fazer algumas manobras para a televisão e as fotos do Orlando. As 16:30, dei uma guinada no barco e uma ultima olhada na Estatua da Liberdade e tirei algumas fotos. Naquele momento, enquanto colocava a proa de meu barco rumo ao primeiro grande objetivo, a ponte de Verazzano, e dava minhas primeiras pedaladas da viagem rumo a "cidade maravilhosa", veio em minha mente um montão de lembranças: quanto tempo eu havia esperado este momento. 8 anos sentado em frente a um computador estudando mapas, estruturando a rota, conhecendo os lugares por onde iria passar...e de repente, em um passe de mágica, ali estava eu, em meu pequeno barco, começando a realizar meu sonho. Meu projeto "DA LIBERTADE AO CRISTO".

E foi viajando neste sonho, que de repente comecei a sentir os efeitos do forte vento gelado que começou a soprar para o norte. Apenas conseguia, com muito sacrifício, manter a velocidade do barco em 5 km por hora e em sua direção exata. Minha realidade era diferente dos meus sonhos: eu estava no meio do Rio Hudson, com baixas temperaturas e ondas de quase um metro de altura e a quase um quilômetro da margem. Estava difícil avançar, porem, eu sabia que em algum momento o tempo melhoraria. Depois de duas horas navegando, já perto da ponte de Verazzano, parei perto de um posto de abastecimento (de combustíveis) de barco e solicitei para deixar o barco ali ate a manha seguinte. A recepcionista disse que não era possível, e chamou a Guarda Costeira para me ajudar.

Apos me identificar, o oficial rebocou meu barco ate a base. Eles não acreditavam que eu realmente queria fazer esta viagem. Aos poucos, eles foram conhecendo mais detalhes sobre a viagem, e começaram a comentar que eu não poderia seguir, devido a suposta fragilidade de meu barco.Decidiram que meu barco ficaria ali, e que eles iam ver a possibilidade de eu seguir ou não a viagem, e, caso eles autorizassem que tipos de equipamentos extras eu deveria ter a bordo.Chamaram uma ambulância, que me levou para fazer exames médicos e me dispensaram. Peguei um táxi ate as barcas de Staten Island e cheguei na casa do Fernando quase meia noite. O agito do dia me deu uma maravilhosa noite de sono tranqüilo (afinal de contas, tinha certeza que esta pequena interrupção na viagem seria apenas um pequeno detalhe ao final da mesma).

23 março

No outro dia, eram quase 11 da manha quando o vice-cônsul do Brasil me ligou dizendo que o Orlando havia avisado ao embaixador sobre meu problema e que ele havia designado o vice-cônsul para acompanhar-me ate a base. Quando lá chegamos o alto mando da guarda costeira estava reunido para resolver meu problema. Fizemos uma mesa redonda, e depois que o vice-cônsul falou de mim, de minhas outras viagens e do apoio da imprensa internacional ao meu projeto e de quase 2 horas de conversa, ficou decidido que eu poderia seguir viagem, porem, teria que comprar uma serie de equipamentos extras (EPIRB, telefone celular, busina, refletor de radar, GPS, radio de comunicação, strob ligth, etc), e que a viagem só poderia ser feita, enquanto em território americano, pelos canais de navegação (intracoastal way) existentes na costa leste.

Estas exigências extras obrigaram-me a deter temporariamente a viagem ate conseguir estes equipamentos, cujo custo acendiam a mais de 1.500 dólares americanos, o que fez com que eu retrasasse a continuação da viagem em duas semanas. Durante todo este tempo, e graças a uma campanha feita pelo Orlando, que abraçou meu projeto e me acompanhou a varias empresas brasileiras, consegui, assim, comprar parte dos equipamentos exigidos pela guarda costeira. Como não consegui suficientes fundos, decidi que tentaria comprar o restante dos equipamentos na Florida, o que a Guarda Costeira aceitou, desde que eu não colocasse o barco no mar.

Nesse ínterim, uma certa feita Orlando me levou para conhecer o Cláudio Tonini, um empresário brasileiro que havia feito uma viagem, em solitário, de Nova Jersey ate a Patagônia, com escala no Brasil, em um aviãozinho construído por ele: o "Purple Passion". O Cláudio me convidou para jantar na reunião mensal de seu clube de aviação, onde dei uma pequena palestra sobre a viagem e seus objetivos. Dois dias depois, o Orlando me levou ao aeródromo onde o Cláudio estava construindo outro avião. Ao chegar ao seu angar, junto ao "Purple Passion" havia uma outra jóia rara: um Jaguar conversível, vermelho, ano 64 e fiquei por uns momentos admirando aquelas jóias. O "Purple Passion" a primeira vista era (para aqueles que não acreditam em sonhos, conquistas e realizações), quase inacreditável que alguém pudesse voar naquele "trem" tão pequeno uma distancia tão grande. Em dado momento, o Cláudio tirou o "Purple Passion" do angar, pegou uma flanela, deu uma acariciada no avião e disse: Zé, sobe, vamos dar uma voltinha. Antes de ele terminar o convite, eu já estava comodamente sentado no banco de traz. Umas rápidas instruções e lá estávamos, na cabeceira da pista tomando "distancia" para decolar. Olhei para os lados e senti o tamanho das asas: apenas dois metros. Cai na real e pensei com meus botões: "acho que tou doido em voar num trem deste tamanho". Fizemos um sobrevôo sobre Nova Jersey. Ao fundo, a ponte Verazzano e a cidade de Nova York...sobrevoamos grande parte das praias e quase duas horas depois, lá estávamos de volta ao angar...feliz da vida...igual criança.

Do dia 5 para o 6 de Abril dormi na casa do Orlando, pois estávamos esperando a empresa de transporte Confiança liberar o caminhão que levaria o barco ate Cheasapeake City. Apos o café da manha, tentei ajudar o Orlando a recuperar (sem sucesso) alguns artigos que ele havia escrito para o jornal. Apos algumas tentativas, ele achou melhor não fazer a pagina dele, e que o melhor era tentar resolver meu problema. Ligou para a Confiança que confirmou a liberação do caminhão. Fomos para o deposito carregamos o barco e as 14:00hs chegamos a Harbour North Marina, onde o gerente não apenas autorizou a zarpar dali, como também trouxe um auto-carga para levar meu barco ate a rampa de lançamento. O motorista da Confiança ficou ali, me ajudando a carregar tudo para o barco ate o momento em que eu "tentei", isso mesmo: tentei sair, pois um forte vento não me deixava sequer mover o barco e sair do lugar. O gerente da marina ao ver minha dificuldade (no dia seguinte descobri que não podia sair do lugar porque eu estava em cima de um banco de areia) me convidou para passar a noite ali, e me ofereceu um motor home para dormir. Durante a tarde, conheci um indígena americano: Gene...que fez alguns contatos com o pessoal da imprensa e me convidou para jantar. Na quarta feira (07/04) acordei as 7 da manha, a temperatura estava agradável e o rio Elke estava um espelho. Enquanto pedalava, tirava algumas fotos de uma pequena ilha no canal e fiz algumas fotos da Marina. Apenas 500 metro de minha partida, já na primeira curva do rio, um par de tênis e uma roupa boiando me chamou a atenção, ao me aproximar, encontrei o corpo de uma mulher flutuando nas geladas águas do Rio Elke. Acionei a Guarda costeira através do radio de comunicação, e apos 4 horas esperando o resgate, fazer levantamento do corpo e prestar depoimentos ao oficial Kevin M Kuhan, fui dispensado para seguir viagem. (Posteriormente, o oficial Kevin me informou, através de um e-mail, que o corpo era de uma mulher que havia suicidado,atirando-se da ponte existente na Rota 1, sobre o canal Cheasapeake e Delawere)

Passado o susto inicial, continuei minha viagem. Apesar do dia estar encoberto, ao meio dia estava uma temperatura agradável, o vento começou a soprar mais forte, e o canal começou a ficar com suas águas mais agitadas. Durante todo o trajeto contrastando com um bando de cisnes e alguns veados nos frondosos bosques que margeiam o rio, vi uma quantidade incrível de pneus: desde pneus de kart ate pneus de tratores, dezenas de cadeiras plásticas, garrafas pet, geladeira, barcos quebrados, enfim, uma montoeira de lixo...por um momento, lembrei da agonia do "Velho Chico". As 17:30, parei em uma pequena enseada para dormir. Eu estava cansado e impressionado com a cena de hoje de manhã e com a quantidade de lixo encontrada.

quinta-feira, 08/04

Ao acordar, ouvi o canto dos pássaros que me convidavam a levantar. Na ultima linha do horizonte uma bola de fogo em um céu azul anunciava um dia ensolarado. Novamente, o rio estava um espelho.

Como no dia anterior, passado o meio dia, o tempo fechou e uma densa neblina pairou sobre o rio, uma forte e gelada chuva começou e com ela um vento de mais ou menos 30 km por hora vindo em minha direção. O rio começou a ficar agitado e em dado momento, durante um forte temporal que durou quase duas horas, perdi um pouco minha concentração e o barco bateu contra uma pedra quebrando uma das asas da hélice. A partir deste momento, tive que diminuir a velocidade do barco (que já era baixa devido ao peso dos equipamentos e da bagagem). Ao ver uma praia deserta, parei para acampar.

sexta-feira, 09/04

Acordei com o barulho da chuva na barraca. Ao olhar pela janela, tive uma desagradável surpresa: durante a noite, a maré subiu muito e o barco foi parar debaixo de uma arvore que estava caída na praia. Devido a baixa temperatura da água, não me atrevi a entrar no rio, pelo que tirar o barco da água me levou quase 4 horas. Depois que consegui, e bem exausto, segui ate a pequena cidade de Rock Hall (que foi praticamente arrasada pelo furacão Isabel, em setembro de 2003), onde aportei na Marina "Gratitude", onde recebi grande apoio, primeiro por parte de Guy, que ligou para o Dayle explicando o problema (e que nesse mesmo momento se comprometeu em mandar três novas hélices para o barco) e depois pelo proprietário B. Douglas Megargee, que ofereceu todo apoio logístico para a reparação do barco, arrumou um lugar para armar minha barraca ate chegar as hélices e acionou a imprensa da região.

Enquanto armava minha barraca e tirava as coisas do barco, varias pessoas foram chegando perto e todos ficaram surpresos (e emocionados) com a viagem. Assim, cada um tentava me apoiar de alguma maneira. Uns oferecendo sua cozinha para eu preparar meus alimentos ate minha saída, outros me convidando para tomar café, jantar, e ate me emprestaram uma bicicleta para conhecer a cidade. A noite um casal me convidou, depois de admirar um maravilhoso por do sol desde sua varanda, para jantar em um restaurante especializado em frutos do mar.

Sábado, 10/04

Depois de uma noite de sono tranqüilo, acordei com o sol já bem alto. Peguei a bicicleta e fui passear pela cidade, à tarde, ao voltar para a marina, conheci John Ekstrom e Bosse Johansson, capitão do barco "Isabelle", que estavam preparando uma viagem, junto a Magnus Anderson, uma viagem de 9.000km pelo oceano Atlântico ate Estocolmo, na Suécia e gentilmente me convidaram para ficar no veleiro de 35 pés (11.5 metros). Agradeci a hospitalidade, porem, esta noite fui dormir em minha barraca.

Domingo 11/04

O dia amanheceu chovendo e resolvi aceitar o convite de meus novos amigos, afinal, a hélice do barco apenas chegaria em 3 dias. Durante os dias que se seguiram, a chuva piorou, todos os dias a neblina estava baixa e o vento forte atingia os quase 30km por hora. Na terça-feira (13) a tarde chegaram 3 novas hélices, porem apenas na quinta-feira (15) pude troca-la, pois o tempo continuava fechado e a chuva não parava. Na sexta-feira (16) os funcionários da Marina Gratitude me convidaram para um almoço de despedida em um restaurante de frutos do mar, a noite, o casal Kathy e Bruce Meeks me convidou para jantar: Fetucini com aspargos em creme. Para acompanhar, um delicioso vinho tinto australiano. Uma delicia.

Sábado 16/04

Acordei as 7:00 da manha, vi que o sol estava brilhando e resolvi partir. Havia esperado todos estes dias a que o tempo melhorasse e ter contato visual com o outro lado da Bahia de Chesapeake. Fiz alguns ajustes no barco e comecei a preparar a viagem. Tinha previsão de chegar a tarde em Love Point, dormir lá, e na manha seguinte, apenas clareando o dia, cruzar a segunda (e a mais larga) parte do canal.

Eram 10:00 da manha. Na pequena praia existente na Gratitude Marina, um pequeno grupo de amigos (os funcionários da marina, os amigos do veleiro sueco e os vizinhos da região) me davam uma calorosa despedida. Foram os amigos que fiz ali na minha rápida passagem por Rock Hall. Um deles me deu um remo de presente. Ao dar minhas primeiras pedaladas, de repente me veio a memória o seu Colo, em um longínquo dia de marco de 2002, no "Velho Chico", quando ele disse (com toda sua experiência de meio século de rio São Francisco): "Leve este remo meu filho, você vai precisar muito dele". Naquele momento, bateu uma saudade do velho barranqueiro. Saudades de suas historias e de seus causos. Lembrei quando vi seus olhos encherem de lagrimas quando falava com saudades de seu velho amigo: seu "Velho Chico".

E foi lembrando de seu Colo que continuei a despedir de todos. Naquele momento senti que a água, une pessoas cria sentimentos, desenvolve paixões e faz sentir saudades.

O dia estava maravilhoso, e pela primeira vez na viagem senti um pouco de calor. A água da Bahia também havia aquecido um pouco. Passado 2 da tarde, já no ponto onde eu havia escolhido para fazer a travessia do primeiro canal, o vento estava um pouco forte, e achei mais prudente não cruzar ate Kent Island, no local chamado Love Point, pois como a maré estava vazante, o vento Sul fazia com que o canal ficasse bastante ondulado. Resolvi parar em uma pequena praia localizada na ilha Eastern Neck , onde esta localizada uma Refugio Nacional de Vida Selvagem (National Wildlife Refuge). Não tive a sorte de encontrar nenhuma espécie selvagem, porem, e lamentavelmente, encontrei uma quantidade enorme e variada de lixo: Mangueira, Pneus (um completamente montado…e novo), Flecha, Vasilhame de Óleo, Garrafas Plásticas (das mais diversas cores e tamanhos), Garrafas de Vidro, e ate…BALOES DE ANIVERSARIO CHEIOS…Incrível absurdo. Depois de fotografar bastante lixo, fui dormir cedo (18:00) pois sairia bem cedo na manha seguinte.

Domingo 18

Ao acordar, comecei a preparar para cruzar o primeiro canal da Bahia. A maré estava vazante, e a forte correnteza me levou praticamente 4 quilômetros abaixo de Love Point e tive bastante dificuldade para subir novamente. Ao chegar ao meu ponto de referencia (Love Point), avistei a grande ponte que cruza a Bahia, e resolvi começar a cruzar em diagonal (em vez de cruzar por debaixo da ponte, como me haviam recomendado algumas pessoas, para usar os tubuloes da mesma como proteção no caso de alguma eventual ventania repentina). Aproveitando a forte correnteza, e o vento a favor, que empurrava o barco em direção Oeste, consegui imprimir uma velocidade de 7 quilômetros por hora (o que me deixou bastante feliz), e chegar, sem contratempos ao outro lado da Bahia. O primeiro grande desafio da viagem havia sido superado sem problemas.

Antes de chegar a Annapolis, conheci o casal Pamela (Pam) Avery e Walter (Zim) Zimbek, que estavam passeando em Kayak, e me convidaram para que eu ficasse em sua casa.

Aceitei o convite, pois tinha necessidade de fazer um novo teto para o barco (a sombrinha de praia que eu estava usando não ajudava muito, e varias vezes atrapalhava devido ao vento). Doug, gerente Gratitude Marina, havia já acertado com Rob Cuninghan da North Sails (uma das mais importantes fabrica de velas para barcos dos Estados Unidos) que iria providenciar a construção de um teto para o barco, porem, devido ao começo da temporada, levaria quase uma semana para ficar pronto. Aceitei, pois a temperatura já estava começando a querer ficar alta, e em poucas semanas mais, eu não agüentaria ficar muito tempo baixo o escaldante sol da costa este americana.

Fiquei uma semana na casa de Pam e Zim. Na terça-feira (20) fui na escola onde Pam trabalhava (Phoenix Center) para dar uma palestra sobre meio ambiente para mais ou menos 40 crianças e durou quase 2 horas. Falei das viagens anteriores e da atual. Foi uma linda experiência, e no final, distribui fotografias e autógrafos para as crianças. No outro dia, Pam me trouxe algumas cartas que as crianças me haviam escrito. A editora da revista Cheasapeak Bay, Jane Meneley, convidou-me para dar uma palestra na escola Key, que estava comemorando a semana da terra. A palestra foi para mais de 120 alunos. Depois das palestras fomos ate o rio James onde o pedalinho estava ancorado para que as crianças o conhecessem. Como forma de agradecimento, os alunos da escola me presentearam com um lap top, para que eu pudesse escrever o diário da viagem e descer as fotos da maquina digital.

Annapolis é uma cidade histórica e ficou mundialmente conhecida nos anos 80, quando o pesquisador e escritor Alex Halley escreveu o livro Raízes (possivelmente, o mais fiel retrato de uma triste passagem da humanidade: o escravismo) contando a vida de Kunta Kinte, um escravo, cujos pais haviam sido "importados" da áfrica em um navio negreiro e aportado na cidade.

O Zim mostrou que, alem de bom piloto de kayak, era também um exímio piloto de fogão, e toda noite preparava um prato especial. Em uma das noites, para devolver a cortesia, preparei um churrasco em uma churrasqueira improvisada com algumas pedras. Zim e Pam gostaram tanto, que me pediram para não destruir a "churrasqueira" depois do uso. E no outro dia, lá estava Zim, na beira da churrasqueira, assando um delicioso file de salmão na brasa, que saboreamos com muito prazer, acompanhado de um suave "Pinot Grigio" italiano da adega particular de Pam.

Antes de recomeçar minha viagem, fui a uma reunião do Lions Clube, onde todos os presentes me receberam com carinho. Durante a reunião, falei do trabalho que e realizado pelo Lions Clube de Viçosa e trocamos algumas idéias e me homenagearam com o "pin" do governador.

Na manha bem cedo, Pam me levou ate as margens do rio James onde eu havia deixado o pedalinho. Ao chegar comecei a preparar minhas bolsas, e, ao levantar o assento encontrei uma agradável surpresa; um bilhete que dizia: "Querido Jose, vimos teu barco mas não voce. A melhor da sorte em sua jornada - Esperamos que você não se importe com um vinho francês". Jan, Linda, Nick & Katie -Annapolis, MA, USA. O bilhete trazia ainda a palavra "maravilhoso" e uma margarida desenhada (Junto ao bilhete, uma garrafa de vinho bordeaus "Chateau do Gris"... Uma surpresa inesquecivel e um delicioso presente).

O dia estava bonito, e depois de despedir de Pam, comecei a cruzar o Rio James (3 km). Apenas havia percorrido 10 milhas (17km) e o vento sul começou forte, atingindo rapidamente 25kmh. Cheguei perto de um cais e amarrei o barco em um dos pilares ainda existentes. O vento acalmou um pouco e continuei a viagem, porem, apenas mais 2 quilômetros, quando o vento começou de novo a soprar forte, de repente, o pedal do barco travou e o forte vento arremessou o pedalinho contra um cais semi-destruido pelo furacao Isabel Era a segunda vez que acontecia, porem, na primeira vez consegui destravar rapidamente o pedal, e desta vez, por mais que eu tentasse não conseguia voltar a mover o mesmo. Com muito esforço, consegui chegar (escorando nos restos do cais) ate as pedras da margem. Um desastre: a correnteza era forte e o vento levantava ondas e jogava constantemente o pedalinho contra os pilares do velho cais. Depois de quase uma hora tentando, consegui finalmente chegar ate as pedras, e puxar o pedalinho ate um cais existente a uns 20 metros dali e amarra-lo. O dono do cais avariado, Gregory O’Hara, deixou que eu armasse minha barraca em seu jardim.

Apenas no sábado, apos arrastar o barco para uma pequena praia, pude ver os estragos no mesmo: um rombo de quase um metro em um dos flutuadores. Apesar do Dayle (Prophish) haver me assegurado que não havia perigo do barco afundar (o mesmo está recheado com espuma de Poliuretana), aquilo era mais um problema para resolver, de preferência, urgente, pois não gostaria de tentar cruzar o Rio Potomak (o mais largo da viagem ate então e um dos principais rios dos Estados Unidos) com o barco daquele jeito. Agora, eu tinha que consertar o pedal e a fibra. Comecei pelo mais fácil: o pedal. Deduzi que, se ele "trancou", alguma coisa havia acontecido nas engrenagens, pelo que resolvi abrir a caixa onde elas estavam. Ao abrir, vi que o óleo tinha partículas de metal, o que não era um bom sinal. Cheguei a pensar que algum dente da engrenagem havia desgastado. Ao girar um pouco o pedal, vi o motivo do problema: Um parafuso que segurava o eixo do pedal havia soltado e entraram nos "dentes" da engrenagem. Tirei a metade do parafuso (de meio centímetro) porem

não tive como troca-lo, pois precisava de umas ferramentas especiais para tirar fora os pedais e terminar de abrir a caixa. Estava "viajando" no problema, quando Tumoko (a dona do cais onde eu havia amarrado o barco na tarde anterior) chegou dizendo para eu esperar seu marido chegar pois ele poderia me ajudar, e, enquanto ele não vinha, me ofereceu seu computador para ver minhas mensagens de correio. Aceitei, pois queria mandar um e-mail para Dayle contando sobre os últimos acontecimentos da viagem e coloca-lo a par da situação. Apenas abri meu e-mail, vi uma mensagem do capitão David Leham, que e casado com uma carioca (Patrícia), que havia conhecido sobre minha viagem ao ler uma reportagem no jornal "The Capital", e me convidava para ficar em sua casa quando eu passasse por Rose Haven, e, se eu precisasse de ajuda, que poderia contar com ele.

Quando o esposo de Tumoko chegou entrou em contato com Davis, que apenas chegaria em casa as 4 da tarde, pois estava com um grupo de pescadores em seu barco: o Miss Brasil (nome bem simpático e sugestivo) e que teria o maior prazer se eu fosse para sua casa, que estava apenas a 40 km de onde eu me encontrava. Como o marido de Tumoko não tinha as ferramentas, resolvi levar o pedal para a casa do Davis, pois talvez ele teria as ferramentas. Ao chegar em sua casa, contei sobre a viagem e dos meus dois novos problemas e na mesma hora começamos a tentar resolver pelo menos o mais imediato: o pedal.. Levamos quase 2 horas (Davis, Pit, Patrícia e eu) para desarmar, pela metade a caixa de engrenagens, tirar o resto do parafuso, lavar as engrenagens e armar tudo de volta. Apenas um probleminha: não tinha como tirar a parte superior da caixa de engrenagens, justamente aonde ia o bendito parafuso. Ao girar um pouco os pedais, "senti" que aquele parafuso não era tão importante assim, e resolvi correr o risco (um a mais um a menos não faz tanta diferença assim) e montar tudo sem colocar outro parafuso no lugar, esperando estar certo (e os projetistas do pedal errados).

Resolvido este problema, tinha agora o da fibra, que era um pouco mais complicado.

No domingo, bem cedo, fomos com um reboque na casa de Tumoko e levamos o barco para a casa do John (irmão do Dave) para reparar o casco. Na parte da tarde fui com o Dave e um grupo pescar. Foi uma tarde linda e eles pescaram alguns exemplares bonitos com mais de um metro.

Como o tempo estava chuvoso, teria que esperar o sol sair para preparar a resina, o que só aconteceu na quarta-feira a tarde, quando demos a primeira mão na fibra.

Na segunda feira, fui a escola Adventista, onde a filha do John estudava, e falei para um grupo de 20 crianças.

Na manha seguinte voltou a chover e fomos pescar: Dave, John e eu. E pela primeira vez em minha vida, peguei um peixe...e dos grandes: 88 cm e quase 10 quilos (olha que não e conversa de pescador...tenho testemunhas...2 pescadores). A tarde fomos para a casa do John e finalmente terminamos de consertar o barco. À noite, comemoramos o aniversario da Patrícia junto a outros brasileiros amigos dela.

Na manha seguinte sai bem cedo do jardim da casa do John (o fundo de quintal dele, e a Baia de Chesapeake) para chegar ate Rose Haven, onde o repórter Patrick Magraph (um dos principais jornalistas da Fox) me esperava com sua equipe para uma entrevista para o Noticiário Fox5. O John colocou seu barco a disposição da equipe. Depois de quase uma hora de entrevistas e filmagens, o Patrick me avisou que agora as filmagens iam continuar, porem, desde o helicóptero do canal. Por um momento achei que era uma brincadeira, mas ao olhar para o céu azul, lá estava o dito cujo, que ficou me filmando quase meia hora. Enquanto iam filmando, eu ia continuando minha viagem, ate chegar a Cheasapeak beach (onde o Dave ancora o Miss Brasil). Já à tarde os três (Patrícia, Dave e John) foram me buscar, pois a noite íamos comer o meu peixe enquanto víamos as noticias. Minha entrevista durou quase 3 minutos e foi pautada principalmente no lixo que eu havia encontrado na Baia.

Na manha seguinte, ao chegarmos (Dave e eu) no cais, sentimos que as condições metereologicas não seriam propicias para sair: ventos de mais de 25km e ondas de quase meio metro. Resolvi ir, de novo, pescar torcendo para que no outro dia o tempo (que na região e muito instável) melhorasse. À tarde, com o Dave, começamos a construir minha nova pagina na internet, e contratamos um novo site ( www.zedopedal.org ) pois a minha pagina estava muito difícil de colocar fotos e link.

No dia seguinte chegamos ao cais as 5:30 da manha. Um lindo sol despontou na ultima linha do horizonte anunciando um dia maravilhoso e as águas da Baia pareciam um espelho. Agradeci a Dave todo o apoio e o carinho dispensado e recomecei a viagem. Era domingo, dia das mães.

De repente a geografia do terreno começou a mudar e uma serie de falésias foram se descortinando a minha frente. Era um maravilhoso espetáculo ver os desenhos que o tempo e o vento esculpiam naqueles barrancos. Falando em vento, ele começou suave (10kmh) por volta de 11 horas e foi ficando mais forte a medida que as horas iam passando. Ate que às 15h, eu apenas conseguia sair do lugar. De repente, no lugar denominado Scientific Clifs (Falésias dos Cientistas) 3 pessoas que estavam caminhando pela praia, começaram a me acenar. Ao me aproximar, comentaram que me haviam visto na televisão e me cumprimentaram pelo projeto e disseram que eu poderia passar a noite na praia da comunidade, que estava "apenas" 1km. Levei quase uma hora para chegar e fui recebido por toda a comunidade. A Dra. Judith, da Agencia de Proteção ambiental - E.P.A. (siglas em inglês), entrou na água para dar me as boas vindas e ajudar a chegar ate a praia. Confesso que fiquei bastante emocionado com aquela inesperada recepção. Fiquei explicando detalhes da viagem por quase uma hora e um casal me presenteou com 2 dentes de tubarão....de milhares de anos (pelo menos, daquele eu já escapei). Na manha seguinte, sai cedinho apos o café da manha, pois queria chegar cedo na casa de Valeska Lusby (uma brasileira que eu havia conhecido na festa da Patrícia), em Drum Point. As 11 horas, já com um pouco de vento, cheguei perto da Usina Nuclear de "Calvert Clifs". Ali eu tinha três pequenos problemas. O primeiro, o vento em contra; o segundo, não podia passar muito perto da margem (200 metros), e, o pior de todos: tinha que passar praticamente junto ao "cano de descarga" da usina, onde a água (fervendo) saia com uma pressão incrível provocando redemoinhos e correnteza. Para complicar minha situação, o sistema de leme não estava funcionando bem, impossibilitando de fazer curvas fechadas. Parei em uma pequena praia antes da usina para tentar, pelo menos, ajustar um pouco mais o leme. Ao voltar para a água, senti que havia forcado muito para o lado esquerdo (o que me levaria, com certeza, para dentro do redemoinho). Andei mais uns 100 metros e resolvi parar de novo. So que desta vez parei em um lugar errado: dentro dos limites da usina. Quando terminei de ajustar o leme, e já me aproximando dos pontos críticos, 3 helicópteros da segurança da usina começaram a sobrevoar meu barco. Por sorte, o senhor que me havia doado os dentes de tubarão estava pescando ali, e rebocou meu barco para fora dos limites da usina.

Um quilômetro depois, em uma praia completamente deserta, parei um momento para descansar e descobri porque ali era chamado de Falésias dos Cientistas: milhares de fosseis de milhares (talvez milhões) de anos atrás encravados nas paredes. (De acordo com os moradores, ali havia sido o fundo do mar alguns milhões de anos atrás).

Já estava escurecendo quando cheguei ao comunitário de Drum Point, onde Jasson, esposo da Valeska, me esperava e me ajudou a conseguir autorização para deixar o barco ali. Apesar de haver dormido tarde, no outro dia acordei bem cedo, pois teria que cruzar o rio Patuxent (4km) e passar em frente à base naval (12km) onde não poderia parar em lugar nenhum, por se tratar de área de segurança nacional.

Cruzar o rio foi fácil. Difícil foi passar em frente da base naval. O vento começou cedo e a viagem não rendia. Dois helicópteros da forca aérea vieram sobrevoar o meu barco e uma lancha veio ao meu encontro. Levei quase 5 horas para sair da área de segurança. Naquela mesma tarde cheguei ate 1km antes de Point Lockout, na boca do rio Potomak. Um casal me ofereceu para armar a barraca no jardim da casa deles e a noite me convidaram para jantar. Na manha seguinte, sai as 7 da manhã com destino a ilha de Saint George, de onde eu cruzaria o rio Potomak.

Minha chegada ate Point Lockout foi tranqüila, não assim o contorno do mesmo: a maré da Bahia estava vazando e a correnteza do rio provocava ondas e redemoinhos (o point Lockout e considerado um dos pontos mais difíceis dos Estados Unidos para se cruzar, e no local vários barcos já foram afundados pela forca e turbulência das águas). Levei 2 horas para contornar o pontal (100 metros) e, bastante cansado, ainda tinha que cruzar o rio Saint Maris (4.5km). Apenas cheguei a ilha as 17:30. Liguei para Valeska e ela foi me buscar, pois o apresentador da Fox ia dar um churrasco em sua casa e queria contar com minha presença. Na segunda feira, Dave, Patrícia e o Jasson foram me levar ate onde meu pedalinho estava ancorado.

Apesar da previsão do tempo estar indicando ventos e possíveis chuvas, resolvi cruzar. Eram quase 11 horas da manha, quando me despedi dos 3. Havia andado já uns 80 metros, quando uma lancha da policia se aproximou. A oficial havia visto minha reportagem na televisão, e queria uma foto. Às 11 horas consegui sair da ilha. Um denso nevoeiro cobria a região impedindo que eu tivesse contato visual com a outra margem do rio, pelo que apenas poderia cruzar com o auxilio das cartas náuticas e do GPS. Ainda não havia chegado ao meio do rio, e o vento começou a soprar levantando ondas de ate um metro. O barco jogava muito e o vento não deixava avançar. Trovoadas e relâmpagos anunciavam um temporal porem, para minha sorte apenas choveu um pouquinho. A tarde, quando cheguei a Ophelia, no outro lado do rio, eu estava exausto, porem feliz da vida. Afinal, eu acabava de cruzar a boca do rio que tem a mais larga bacia do mundo (sem ilhas): 17 milhas. Durante a noite, o forte temporal que ameaçava todo o dia, finalmente caiu. Quase não pude dormir devido a quantidade enorme de trovoadas e relâmpagos. Choveu a noite toda.

As primeiras fotos da viagem estão no site:

http://www.aldeiadigital.net/coberturas/viajantesolitario/page_02.php

PROJETO "DA LIBERDADE AO CRISTO"

* Os 15 países que serão percorridos: Estados Unidos, México, Belize, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela, Trinidad e Tobago, Guiana, Suriname, Guiana Francesa e Brasil.

* Os Estados brasileiros que serão percorridos: Amapá, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro.

* Quilometragem total: 23.000 Km

Duração: 2 anos

Rota percorrida:

Liberty Park Staten, Island Verazzano, BridgeChesapeakeCity,

North Harbour Marina, Port Hernan, White Crystal Beach,

Grove Point, Better town, Howell Point

Worton Point, Tolchester Beach

Gratitude Marina, Rock Hall

Eastern Neck Island (Nat’l Wildlife Refuge)

Kent Island, Love Point Steven Ville

Sandy Point State Park, Severn River

Annapolis, Highland Beach

South River, Selby Beach, Beverly Beach

Shady Side, Hering Bay, Fairhaven

Rose Haven, North Beach

Cheasapeake Beach

Plum Point

Dares Beach

Governor Run

Calvert Cliffs State park

Seven Point

Drum Point

Patuxent River

Town Creek

Scotland Beach, Point Lookout

Point Lookout State Park, St Mary’s River

Saint George Island, Potomac River

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