Distribuição de renda
indireta
Creio que o povo
brasileiro é, de longe, o mais ingrato na face da terra, não
reconhecendo benefícios recebidos e ainda apontando a distribuição
de renda como a mais injusta. Em nenhum país, essa distribuição é
tão ampla, tão alta e em movimento ascendente como no Brasil. Ainda
na semana passada, mais precisamente em quinze de dezembro, tivemos
um dia memorável. Naquele dia a renda de cada brasileiro foi
multiplicada por dois, dobrou de tamanho. Ah! Não? Foi só a renda
dos deputados e dos senadores? É porque você está sempre mal
informado. Se você soubesse qual é a função do deputado e do
senador, não ficaria aí indignado, maldizendo a todos os políticos.
Não sabe que deputados e senadores são representantes do povo e a
eles cabe legislar, aprovar projetos, fiscalizar atos do governo, em
nome de cada cidadão? Tudo que eles fazem no Congresso Nacional é
feito em nome do povo brasileiro, pelo menos assim é definido. Pois,
então, não há o que reclamar. Eles recebem também em nome do povo! E
assim está feita a distribuição de renda. Pelo menos deve ser assim
que eles pensam.
Como representantes que
são, fazem uso do dinheiro também em nome do povo. Assim é que,
quando se alimentam do melhor em suas casas e em restaurantes de
luxo, o fazem em nome de todos aqueles que não conseguem se prover
do alimento necessário; do ponto de vista da moradia, o povão é
também muito bem representado, pois deputados, senadores e
respectivas famílias residem bem, tanto em Brasília onde ocupam
confortáveis apartamentos, quanto em suas bases ou por onde
circulam, tendo à disposição bons hotéis quando fora do domicílio.
Assistência à saúde dos parlamentares é das melhores, razão pela
qual reclama à toa o cidadão que diz não ter remédio quando lhe dói
a barriga; pode ele estar certo de que sua saúde é muito bem cuidada
por vias indiretas. Se morre de SUSto, é por falta de sorte! O mesmo
se pode dizer com relação à educação. Todas as mordomias que o
cidadão gostaria de ter pessoalmente, ele as tem por representação
nos parlamentos. E para que quer emprego o trabalhador brasileiro?
Por intermédio de seus representantes no congresso, ele tem o melhor
emprego do mundo. Portanto, o povo chora de barriga cheia!
Para se chegar à decisão
quanto ao aumento de cinco a vinte reais no salário mínimo, há
demoradas discussões entre governo e oposição. Deve ser porque o
verdadeiro aumento cada cidadão já recebe por vias indiretas, sendo
o salário mínimo apenas lambuja que o governo concede ao
trabalhador.
Esta é a "democracia" que
temos no Brasil; por vias indiretas e concentrada nas cúpulas dos
partidos. Vejam que na hora de aumentar seus próprios subsídios, não
há divergências, não há governistas e nem oposicionistas! São todos
iguais perante o dinheiro! Exceções, pode haver algumas, raras e
passíveis da prova de sinceridade.
Do público saturado com
tanta safadeza, enojado com tanta podridão, pinçam-se cidadãos ainda
confiantes em melhora dessa coisa, de forma espontânea e por
iniciativa dos políticos. Devem acreditar também em papai-noel e no
coelhinho-da-páscoa! Oportunidades de correção de rumos foram
desprezadas, e em favor dos pilantras revertidas, para que outros
deslizes cometam. Novos parlamentares tomam posse à entrada do Ano
Novo, uns neófitos, outros iniciados nos segredos do "venha a mim o
vosso dinheiro" que, nos parlamentos, significa recursos públicos.
Somando-se aos que restaram de mensaleiros, sanguessugas e outros
bichos, em pouco tempo estarão a produzir mais malandragens.
É... "Tamo na mão de
calango"!