A questão do "Dom Bosco"

                                                     Kátia Maria Nunes Campos*

Até pouco tempo atrás, o direito à propriedade era “inviolável e sagrado”. Significa que a proteção a esse direito era individualista e exagerado, que não admitia nenhuma restrição, a não ser algumas obrigações do proprietário com relação à vizinhança. Mas esta concepção mudou e, hoje em dia, passou aprevalecer o sentido de função social da propriedade, com várias restrições que possibilitem uma ordem econômica e social e o desenvolvimento com justiça social. Está na Constituição Federal!

As instalações e terras do antigo quartel de dragões foram cedidas pelo poder público à ordem salesiana para instalação e sustentação de uma única e exclusiva finalidade: a educação, ou seja, para manter um colégio, no caso, o antigo colégio D. Bosco.

O colégio acabou, está extinto. Mas isso não extinguiu a vocação nem a finalidade social da propriedade. Ainda é do interesse público e coletivo que as mesmas terras e instalações continuem a servir como centro educativo e não com finalidade de exploração imobiliária. Causa imenso assombro e indignação que, justamente no momento em se discute a total incapacidade de uma cidade como Ouro Preto tem de suportar a expansão dos dois centros universitários existentes no distrito sede: a UFOP e a IFMG, as autoridades municipais não tomem conhecimento nem estudem a alternativa clara e vantajosa de recuperar a vocação da propriedade para esta expansão. Causa assombro mais ainda, lembrar que a doutrina de função social da propriedade é uma concepção defendida há décadas pela Igreja, que se mostra agora totalmente incoerente em relação às próprios direcionamentos doutrinários.

Não houve nenhuma tentativa séria de atender aos interesse da cidade e da coletividade nem de uns nem de outros. Não há como o distrito sede de crescer mais, para fazer frente à demanda futura de moradias para a população excedente prevista para a expansão do ReUNI. Não se trata apenas dos estudantes, mas dos prédios para os novos cursos e da demanda de funcionários. Trata-se, sobretudo, do enorme benefício que representaria, para Cachoeira do Campo e entorno, como forma de dinamizar a economia e o desenvolvimento dos distritos próximos, sem mencionar as cidades vizinhas da região dos Inconfidentes.

Isto é crucial para que Ouro Preto não sofra, no futuro, com demandas extras de serviço público que já estão no limite de sua capacidade, além da especulação imobiliária. O trânsito, transporte público, a poluição sonora e do ar, os serviços de saneamento que são precários hoje, como ficarão em cinco, dez anos? Como ficará nosso patrimônio histórico, cada vez mais sujeito à degradação pela multiplicação de puxadinhos, de agressão atmosférica, de vibração por trânsito intenso e outros efeitos do adensamento demográfico?

 

 

Já que as autoridades não saem do seu conforto para evitar que o D. Bosco se perca para sempre, sempre resta o poderoso recurso da atuação popular e movimentos cidadãos para lutar pelo interesse público. Durante o Carnaval estarão funcionando comitês de coleta de assinaturas para forçar a rediscussão e a interferência do Estado na salvaguarda do interesse coletivo que exige que as terras do antigo quartel sirvam preferencialmente à sua finalidade social, conforme prevê a Constituição, superando largamente o direito de propriedade privada.

A ADEPRO (Associação em Defesa da Educação e do Patrimônio Público) e a Associação dos Moradores de Cachoeira do Campo montaram comitês de coleta de assinaturas que estarão nas ruas de vários distritos (Cachoeira, Amarantina, Glaura, Rodrigo Silva, São Bartolomeu e Santa Rita). Só poderão assinar eleitores maiores de 16 anos, pelo tombamento do conjunto construído e paisagístico do quartel e desapropriação das terras para instalação de complexos educativos. Na próxima semana, estaremos nas ruas de Ouro Preto. Participe e assine pelo retorno do D. Bosco à sua verdadeira função social!

*doutoranda em demografia

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