PONTO DE VISTA DO BATISTA

Donos do mundo

Alguns incômodos havia no terminal rodoviário durante as obras de reparos, mas nada que causasse transtornos mais sérios aos usuários. O essencial, que é o transporte dentro dos horários pré-estabelecidos, funcionava perfeitamente. Se é para melhorar, cabe ao usuário um pouco de compreensão e paciência, mesmo que os serviços se alonguem um pouco além do tempo necessário. Tudo nos custa algo razoável e contra isso não se reclama, pois a própria natureza nos cobra pela vida que nela desfrutamos. Entretanto, da parte de usuários há comportamentos totalmente fora de sincronia com o restante do seu grupo; no caso, os demais passageiros para o mesmo veículo em determinado horário.

Antes que o veículo entrasse no boxe, bem próximo dele três mulheres conversavam animadamente, tendo junto de si seus respectivos pimpolhos. Deviam estar a contar "casos de fogueira" (como diria o saudoso alfaiate e maestro, Luiz Marzano), tão entretidas e sorridentes se mantinham ao longo do tempo daquele encontro. O condutor abriu a porta para receber os passageiros e elas continuavam a tagarelar. Felizmente, os garotos eram do tipo bem comportado (raridade, hoje), razão pela qual nenhuma teve que se afastar para pegar traquinas desgarrado. Também tomei assento no veículo e, confesso, cheio de curiosidade sobre o assunto a absorver a atenção daquelas "comadres". O motor foi posto em funcionamento, o que despertou a atenção de usuários ainda distantes do boxe, fazendo-os apressar o passo na chegada ao terminal de embarque. Acomodados estes últimos em seus lugares, o condutor iniciou manobra de partida, deslocando o veículo para fora do boxe. Foi nesse momento que uma das mulheres se desgarrou das demais, ergueu o braço e indagou: - Ô moço, esse ônibus vai pra......? – Vai, sim. E ela explicou: - eu também vou. Do chão, ela levantou o filho como se saco de batatas fosse e, tendo na outra mão bolsa e outras tralhas, entrou no coletivo. Na roleta (catraca, para os paulistas) a auxiliar de viagem teve de esperar até que a retardatária encontrasse minúscula bolsa dentro de outra, por sua vez a fazer parte de miscelânea numa sacola plástica. Contar os caraminguás foi outro exercício de paciência para quem aguardava. Ainda bem que outro usuário não havia a passar pelo bloqueio!

É surpreendente como pessoas conseguem viver sob a ilusão de que o mundo está à disposição de seus caprichos, não lhes importando horários, regras e regulamentos, até que seu mundinho pessoal entra em choque com as circunstâncias comuns aos demais.

Naquele mesmo dia, poucas horas antes, ao transitar por estreita calçada que, teoricamente, protege o pedestre do trânsito de veículos, encontrei pela frente um grupo de mulheres a bloquear a passagem, enquanto tagarelavam como na feira. Incontinênti, atravessei o bloqueio. E ouvi de uma delas: - ô moço, a rua é larga! A resposta, devidamente premeditada, saiu rápida: - então vão conversar no meio dela! - Se elas se julgavam no direito de lançar-me entre os veículos em trânsito, também eu podia querer vê-las paradas à frente deles, ora bolas!

Noutro dia, pouco à frente, testemunhei o terceiro caso de falta de sincronia com o coletivo e, a tudo coroar, o cúmulo do exclusivismo ao qual algumas pessoas se julgam com direito. Em terra alheia e feriado local, devidamente anunciado, dondoca criada na abastança, acostumada com os "lambe-botas" à sua volta, entendeu que determinado estabelecimento deveria abrir só porque ela precisava de algo.

Seria o fim da picada, se abrisse!

nbatista@uai.com.br

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