PONTO DE VISTA DO BATISTA

Dr. Sapiente

A historieta a seguir foi publicada nesta coluna na edição nº 221 de setembro de 1995 e, talvez, na época, muitos não a tenham ligado a uma situação real com início naquele ano, que perdurou até agora, em Cachoeira do Campo. Republicamos a alegoria com a intenção de que o leitor compare a ficção com a realidade.

Sapolândia, como o nome dá a entender, é o país dos sapos, todo salpicado de lagos, lagoas, pequenos poços e brejos onde vivem, em comunidades, sapos de todas as raças e outros batráquios como as rãs e pererecas. Numa determinada região de Sapolândia fica Brejo Seco, que de seco não tem nada a não ser o nome, pois tem perfeitas condições de abrigar uma grande e antiga comunidade de batráquios. Por ser uma das mais antigas comunidades daquela espécie, Brejo Seco desenvolveu maneiras peculiares de convivência, o que atrai de tempos em tempos enormes contingentes de visitantes , vindos de pontos distantes, para ali apreciar outros de fazer, e de viver, especialmente por ocasião dos festivais de coaxo. Tudo ia bem em Brejo Seco, cada um coaxando de acordo com o que aprendera, saltitando e comendo os melhores petiscos dentre os insetos que povoavam a folhagem à margem da água. De vez em quando, davam bons mergulhos e ia verificar como iam seus girinos. Até que um dia, de desconhecida e distante comunidade sapeana, chegou o Dr. Sapiente. Ainda muito novo, porém com ares de senhor de si, assumiu lugar de destaque, e passou a questionar os modos de vida local, especialmente no tocante ao coaxar.

_ Estamos vivendo tempos novos – dizia ele – e não se justifica os sapos continuarem a coaxar desta maneira. Em Poço Fundo, de onde venho, novos métodos já há muito os batráquios adotaram. Temos que mudar tudo aqui.

_ Mas, Dr Sapiente, há fortes razões em nossa natureza, para que tão bruscas alterações sejam desaconselháveis – diziam os locais.

_ Não mais se admite, por exemplo, esses modos discrepantes de coaxar. Estamos buscando a união de todos os batráquios sob um só coaxo – retrucava ele.

_ Discordamos dessa teoria, pois os diferentes modos de coaxar não representam desunião na família sapeana, em Brejo Seco, mas uma característica nossa. É como se fosse nossa identidade dentro de toda a Sapolândia. Os diferentes sons por nós produzidos em comunidade têm também a propriedade de afastar as cobras, nossas inimigas.

_ Ah1 ah! ah! Cobras? Vocês ainda acreditam nessa lenda? Creio que, em parte é devido ao modo como saltam aqui. É outra ignorância que pretendo eliminar.

Dr. Sapiente não quis ouvir ninguém e zombou de tudo, em sua sanha por alterações na vida de Brejo Seco. Os festivais de coaxo foram totalmente modificados, perdendo assim o atrativo. Somente os saltos de seu estilo, e por ele praticados, eram permitidos. Até na alimentação ele quis interferir. Aos poucos, os batráquios mais velhos foram se afastando, e não demorou muito para que os girinos, mesmo confinados na água, não mais aceitassem as imposições. O coaxar polifônico cedeu lugar ao estranho som introduzido pelo Dr. Sapiente, praticado por um reduzido número grupo ao seu lado. Enquanto isso, Brejo Seco tornava-se realmente seco em manifestações próprias e destacadas. Certo dia, estava o Dr. Sapiente a dar instruções quanto ao novo coaxar, enquanto saltitava pra lá pra cá, em desacordo com os costumes dos sapos.

_ Vejam só, os sapos precisam abandonar as velharias e adotar coisas novas. Essas manifestações ridículas, herdadas dos antepassados devem ser substituídas.

Falava e experimentava uns saltos estranhos, de costas, sem se dar conta do afastamento dos que o acompanhavam. Num daqueles saltos, o Dr. Sapiente foi parar num estranho buraco; foi o que lhe pareceu na hora, antes que a escuridão o envolvesse. Nem percebeu ter caído na goela de uma enorme cobra.

Ressentida e ao mesmo consternada, porém novamente confiante, a população de Brejo Seco recomeçou a escrever sua história, dentro da maior que é a da própria Sapolândia!

nbatista@uai.com.br

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