PONTO DE VISTA DO BATISTA

Dúvidas do petróleo

No princípio era o nada de petróleo em território tupiniquim; não porque a natureza tivesse esquecido esta parte do planeta, para deixar em outras as imensas reservas do chamado ouro negro. Não havia petróleo no Brasil porque políticos da época assim quizeram e decidiram, embora fortes evidências denunciassem a ocorrência do mineral estratégico.

O Brasil era bom produtor de café, depois de ter visto ir pras cucuias o ciclo da borracha, que fez a riqueza individual de alguns, em detrimento do sofrimento de muitos, além de pouca ou nenhuma influência na economia do país como um todo. O carnaval era apenas a festa do povo, ainda não descoberta e transformada em indústria do turismo, enquanto o futebol, por sua vez, era somente esporte.

Circular pelo país, fora dos trilhos ferroviários que não iam muito longe, era aventura das mais arriscadas, pois rodovias não havia, afora uns caminhos de cabrito pomposamente denominados estradas de rodagem.

Se o petróleo movimentasse apenas automóvel e caminhão, até que teria sentido a negação sistemática de reservas petrolíferas no subsolo brasileiro, porque o número de veículos automotivos era irrisório e mais concentrado nos centros urbanos. Mas, ele se revelava a mola de nova economia partir da indústria automotiva, que se desenvolvia em outros pontos do mundo. E a quem produzia os novos veículos interessava vender também a gasolina aos que os comprassem. Portanto, longe de afinação com necessidades e interesses nacionais, políticos brasileiros negavam a existência em solo pátrio, na condição de subordinados e, quiçá, subornados à custa de mais atraso econômico para o país.

Contra esse estado de coisas insurgiu-se a figura do escritor Monteiro Lobato, que chegou a criar empresas para exploração de petróleo, tão convicto estava dessa ocorrência debaixo dos seus pés, mas a inexistência "decretada" pelo governo brasileiro acabou por prevalecer por algum tempo. A polêmica se esquentou entre os meios oficiais e o escritor, quando este, em posição de desafio, lançou o livro "O Escândalo do Petróleo", no qual denuncia a subordinação dos interesses nacionais aos do estrangeiro, acusando o governo de "não perfurar e não deixar que se perfure" poço de petróleo no Brasil. O livro acabou sendo proibido e apreendido pelo governo de Getúlio Vargas e, seu autor, mais tarde, preso como subversivo, acusado de tentar desmoralizar o Conselho Nacional do Petróleo. A posição do governo federal só se inverteu, definitivamente, em 1953, com a criação da Petrobrás, cinco anos depois da morte de Monteiro Lobato.

Passados cinquenta e seis anos, desde a criação da empresa, o país já autosuficiente na produção de petróleo, percebe-se a ironia daquela política favorável aos estrangeiros, que não queriam o Brasil entre os produtores de petróleo. Se confirmada, oficialmente, a ocorrência de petróleo no subsolo brasileiro àquela época, fatalmente a exploração teria caído em mãos estranhas, levando o país à reboque de determinantes externos no que tange ao setor. O que era prejudicial acabou por ser benéfico aos interesses nacionais.

Reflexões sobre esse passado, não tão longínquo na vida do país, são sugeridas pela atual euforia em torno do pré-sal, reservas petrolíferas que governo e Petrobrás dizem ser a redenção econômica e a chance de se fazer justiçar social. Se verdadeiros os prognósticos quanto às reservas e sua exploração, considerando ainda controvérsias suscitadas por um "Monteiro Lobato" às avessas, o país se vê diante de outra ironia, pois o petróleo desponta como maior vilão na questão ambiental, e, o próprio Brasil está na vanguarda das pesquisas de combustíveis alternativos, na intenção de reduzir queima de combustíveis fósseis, principal agente da poluição atmosférica.

Como serão tratados programas como o Biodiesel e o Proálcool?

nbatista@uai.com.br

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