PONTO DE VISTA DO BATISTA

Os ébrios do poder

Não resistimos à tentação de comparar ou fazer analogias entre fatos ou comportamentos humanos com ocorrência em situações profundamente diversas. É a maneira que o crítico encontra para chamar a atenção sobre situações que deveriam ser outras, de acordo com o senso comum, se não entrassem em cena fraquezas que levam a perder esforços voltados para a melhora da vida humana. A chegada ao poder do grupo, que por longos anos fez oposição ferrenha à política dos então detentores do destino deste país, tem demonstrado que pouco variam as atitudes diante dos problemas que nos afligem. A luta surda, com reflexos cá fora, travada nos domínios da política em Brasília faz-nos lembrar um bar, onde, sob os eflúvios do álcool, pessoas discutem assuntos variados, sem se importar muito com o que ocorre na rua. Como são pessoas de naturezas diversas, é natural que entre elas surjam discussões mais acaloradas que o normal, resvalando, às vezes, para a agressão pura e simples, seguida de evasão ou mesmo expulsão do indivíduo em posição desvantajosa. Quem está na rua censura o que ali se faz e esconjura o ambiente. Mas, que se entenda, essa posição muda quando se penetra no penetra no bar. Uma vez dentro, entra-se no "clima".

Tanto quanto o álcool em relação às condições físicas e psicológicas, o poder inebria o ego do indivíduo. Daí as contradições entre o antes e o depois da posse. Não se fala a mesma língua das ruas, e, o que a estas parecia unido fraciona-se com facilidade, pois há vários dialetos entre os que falam pelo poder, cada qual com sua pretensão a ser língua principal. Produzem-se então dissensões com marcas tão profundas que mais fácil explicação teriam, se fossem parte das relações entre as forças instaladas no poder e as que de lá desceram. Rompem-se os laços com destaques do grupo instalado e se estreitam com tradicionais adversários.

A política do meio ambiente, incluindo-se a polêmica questão dos transgênicos, denunciada por descontentes do grupo governista como em desacordo com propostas estabelecidas pelo partido, acabou por azedar ainda mais o já fermentado clima político. E a estrela da questão ambiental pediu o boné, ou melhor, devolveu o boné estrelado, não sem antes acionar sua metralhadora giratória sobre decisões governamentais com as quais não concorda. No meio das críticas sobrou para o ministro, ao qual chama de deselegante, por ter lhe dado o bolo na reunião de despedida. Entretanto, deselegância maior o deputado praticou em relação ao vice-presidente da República. Ao se referir à viagem do presidente e de seu ministro predileto a Cuba, deixando o "abacaxi" da Medida Provisória dos transgênicos nas mãos do vice-presidente, o deputado assim se expressou em entrevista: "Ninguém no nosso parlamento se preparou tanto para contribuir para o tema (os transgênicos) como eu. E vejo companheiros de jornada, como o Lula e o José Dirceu, numa decisão como essa, virarem as costas e irem para Cuba. Deixaram como interlocutor um senhor do interior de Minas, que assumiu que não entendia nada do assunto. Não podia ser mais pobre".

Nenhum comentário se fez sobre estas palavras, embora a expressão "senhor do interior de Minas" esteja eivada de preconceitos, que não ficam bem na boca de um político de expressão. Esse "senhor" – com sutil desdém - ao qual alude, é o vice-presidente da República, José de Alencar. Podia ser ele do interior de qualquer parte do Brasil, mas o fato de ser de Minas deu ao deputado descontente motivo para a depreciação. Com "senhor do interior de Minas", o deputado quis dizer matuto, caipira, capiau e outros adjetivos endereçados por "urbanóides" ao habitante da zona rural, especialmente a mineira. Lealdade e sinceridade, características do nosso caipira, o vice-presidente tem demonstrado ter de sobra. E residência em Copacabana ou no Morumbi não constitui garantia de ser ou estar bem informado!

nbatista@uai.com.br

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