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PONTO DE
VISTA DO BATISTA
Educação sucateada
Anuncia-se já
estar em andamento o PDE – Plano de Desenvolvimento da Educação
(também chamado PAC da Educação), que promete para, em quinze anos,
dar considerável salto na qualidade do ensino. Por si só, o Plano
tem o mérito de ser confissão de culpa governamental e
reconhecimento do lamentável nível ao qual desceu a educação neste
país.
De governo em
governo (de variadas tendências), cada qual mais imbuído do espírito
faraônico, próprio dos que perpetuam seus nomes em placas, a
educação construiu escolas, levou mais alunos para as salas de aula,
instalou cozinhas e refeitórios para os escolares, mas falhou no
principal: na razão de ser da escola. Da formação integral do
cidadão como ser pensante, independente de sua condição social e
econômica, o sistema de ensino descambou para robotização do
indivíduo com a preponderância do “ter” sobre o “ser”, o
direcionamento do ensino/aprendizado para a mais valia no mercado,
sem levar em conta a natureza individual. A pressa por resultados
imediatos com os quais atender demanda da industrialização feita a
toque de caixa, mais a política populista, que sempre se valeu de
números para encher os olhos de babões, mataram a pau o ensino de
qualidade, produzido por idealismo e transmitido com dedicação por
profissionais então formados no mesmo sistema.
Do PDE anunciado,
uma das primeiras metas é a alfabetização de toda criança até oito
anos nos próximos dois anos. Isto soa estranho. Para quem se
alfabetizou há cinqüenta, sessenta anos, a diretriz se apresenta
como anomalia, pois criança alfabetizada aos oito anos era então
coisa normal, inserida nos padrões do sistema educacional, e não
parte de nenhum plano de impacto. Criança não alfabetizada aos oito
anos de idade era porque estava fora da escola ou porque portava
alguma anomalia que bloqueava o aprendizado; mesmo os reprovados
repetiam o primeiro ano, já sabendo ler e escrever razoavelmente.
Criança ingressava na escola aos sete, e não aos seis anos, não
havia pré-escola, escolinha ou algo semelhante. Para o aprendizado
das primeiras letras a criança ia à escola, levando apenas um
caderno de oito folhas, pequena cartilha, lápis e borracha, em
contraste com a pesada mochila de hoje recheada de coisas
dispensáveis. Se não reprovado, aos oito anos o aluno estava no
segundo ano, alfabetizado. E havia que estar porque, a partir do
segundo ano, quando se iniciavam os estudos de História e Geografia,
ele precisava copiar os “pontos” escritos pela professora no
quadro-negro. Para acompanhar essas duas matérias, o aluno levava
mais dois cadernos. Não havia livros, com exceção de dois; o de
leitura (comum), e o de “Leitura Manuscrita”, ambos emprestados pela
própria escola, que o aluno devolvia no fim do ano, conservados ao
máximo possível para serem emprestados a outro no ano seguinte. O
“Leitura Manuscrita”, composto de textos de próprio punho e variadas
autorias, se prestava à pratica da leitura de manuscritos, pois
assim era a maioria dos documentos. Aluno, que dominava a leitura de
tal livro, ficava craque na decifração de qualquer garrancho da
época. Creio que hoje poucos sabem da existência desse antigo volume
que, por sinal, em nada auxiliaria na decifração dos toscos rabiscos
atuais. Também no segundo ano, aprendiam-se rudimentos de redação.
Redigiam-se pequenos textos, especialmente cartas, praticava-se a
interpretação e resumo de textos de terceiros. Era também no segundo
ano, que o aluno se iniciava na escrita a tinta com a “pena-de-molhar”,
para a grande maioria, ou com a caneta-tinteiro, para um ou dois
privilegiados da classe. Com a “pena-de-molhar”, ou caneta-tinteiro,
o aluno era levado a empunhar a ferramenta da escrita na forma
adequada e grafar textos legíveis, ao contrário dos manuscritos de
hoje, que parecem rastros de inseto saído da tinta. A esferográfica,
essa destruidora da arte manuscrita, embora inventada pouco antes da
II Grande Guerra, ainda não havia sido industrializada.
Além de todas
essas peculiaridades, em Cachoeira do Campo/Ouro Preto-MG a escola
não tinha prédio próprio e as classes estavam distribuídas em vários
pontos, destituídos de sanitários e de água encanada. A água para
beber era providenciada pela própria professora, também responsável
pela faxina. Alunos residentes em localidades distantes como, por
exemplo, Morro da Mata e Serra do Siqueira vinham a pé ou, quando
possuíam, em lombo de animal.
A escola era como
coqueiro difícil de ser escalado. Entretanto, todos se sentiam
estimulados a escalá-lo e, lá no alto, colher o coco. Mais tarde,
responsáveis pela administração do serviço, entenderam que a
colheita era muito penosa. Derrubaram o coqueiro para facilitar a
todos!
nbatista@uai.com.br
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