PONTO DE VISTA DO BATISTA

Efeitos da politicagem ouropretana

Duvido haver alguém que nunca tenha passado pela experiência de uma "pedra no sapato", expressão que, ao pé da letra, diz pouco da aflição provocada pela intromissão de um corpo estranho, e indesejável, entre o nosso pé e os contornos internos do calçado; penso também não haver quem algum dia não tenha tido algo a lhe "atravessar a garganta", um assunto, um fato, um comportamento de difícil "digestão" para a nossa compreensão. As duas expressões em seu sentido figurado dizem bem de nosso ânimo sob a influência do incômodo e sensação de alívio, numa ,ao livrarmo-nos da presença real do indesejável, e, noutra, ao emitirmos nossa opinião e expressarmos nossa indignação em relação ao que foge da linha do bom senso no âmbito da vida em comunidade, das relações humanas e dos sentimentos de fraternidade. Ressalte-se que esses sentimentos de fraternidade não são "apagados" nem por espécimes de espécies ditas inferiores, quando um deles se vê acha em situação desvantajosa e a reclamar atenção especial.

O lamentável episódio do impedimento de uma cirurgia bucal de urgência, necessitada por uma garotinha de apenas quatro anos, foge à compreensão de quantos vêm a prática do amor e da solidariedade como mola mestra da evolução humana. E, mais trágico quando se percebe que a assistida de uma entidade humanitária, de beneficiária converteu-se em vítima da truculência administrativa eventualmente à frente de um hospital que, ao longo de mais de duzentos e sessenta anos vem prestando inestimáveis serviços à saúde ouropretana; vítima, sobretudo, da politicagem de um grupo político, também eventualmente na direção da Santa Casa de Misericórdia, que da própria política do hospital. São inegáveis os benefícios proporcionados pelo Projeto Sorria à população infantil destituída dos mínimos recursos para cuidar da saúde bucal e mais ainda como fator educativo na prevenção contra os males na origem de tantos desdentados. Acrescente-se a isso o fato de ser a única instituição, na região, a proporcionar tais benefícios. Logo, a recusa de cessão de espaço para a realização da cirurgia ultrapassou a fronteira de picuinhas políticas para se constituir em ato desumano contra uma criança indefesa, se não bastasse sua desfavorável condição econômica. Quando tanto se fala em direitos da criança e por esse meio se abre espaço para a projeção de tanta gente na mídia, a atitude de uns poucos em Ouro Preto dá um retrocesso histórico: lança-nos nas penumbras de um tempo em que o pobre só tinha o direito de morrer; assim mesmo sem perturbar os demais! E criança pobre sobrevivia por pura teimosia. Ouro Preto, que no campo político é tão festejada como berço de lutas pela liberdade, igualdade e fraternidade, como eco à Revolução Francesa, põe em prática tudo ao contrário. Em defesa da criança que, se fosse infratora nas mãos da polícia, teria recebido manifestação de apoio de entidades de defesa dos Direitos Humanos, nada se fez, pois a própria Justiça, em segunda instância, se pôs contra ela. Outro hospital, em outra cidade, a pequena vítima da doença e da incúria política encontrou a mão parceira de que o Projeto Sorria necessitava para lhe minorar o sofrimento. Quando marginais são presos em flagrante há sempre um político para libertá-los!

Diante do ignóbil comportamento da direção - eventualmente responsável pelos destinos da Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto - confirmado por ato jurídico, levanta-se dúvida quanto ao vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente que, por si só, deveria bastar, se não suficiente o preceito da caridade cristã, que manda dar socorro a quem dele necessita. Nenhuma justificativa ou preceito legal deveria se sobrepor ao direito de uma criança ter saúde. Mas, a política miúda – a pedra em nosso sapato - tem suas razões... E, em se tratando de política miúda, em Ouro Preto até galinha cisca pra frente!

nbatista@uai.com.br

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