Os tristes e revoltantes
episódios, recentemente acontecidos no Senado Federal, não
constituíram surpresa para quem acompanha, nem que seja
superficialmente, o desenrolar da política partidária neste país
engendrado a partir de descobrimento programado; ocupado
inicialmente por condenados e rejeitados em terra do descobridor;
colonizado a princípio por latifundiários nomeados, valendo-se de
mão-de-obra escrava, porque o colonizador não queria se sujeitar aos
rigores do clima tropical; tornado independente pelo próprio
herdeiro da coroa, para assim não perder a boquinha; tornado
república por bando de espertos em pirraça contra a abolição da
escravatura; e, finalmente, dominado por oligarquias surgidas na
poeira da república mal configurada.
Outro resultado não se
esperava de toda aquela lengalenga em torno das supostas traquinices
do eventual presidente daquela Casa Legislativa, pois é do
conhecimento do cidadão mediano que raposa não come raposa. O
espírito corporativista é muito forte e vem muito antes de qualquer
preocupação com coisas maiores da nação. Mesmo antagônicos em
questões diversas, políticos se protegem como se irmãos fossem, cada
qual a se prevenir contra pisadas em seu próprio rabinho. Além do
mais, por a corda no pescoço do presidente do Senado seria o
desatamento da aliança que sustenta o governo e pretende eleger o
sucessor.
Embora seja o maior no
cenário nacional, o partido do presidente do Senado, oportunista dos
oportunistas, prefere ser aliado e não sair à frente com candidato
próprio, o que convém ao do presidente da República, mesmo tendo que
fazer pesadas concessões, meio de aquele tirar o maior proveito do
governo sem ser governo. Por essa razão, muito mais nobre que
qualquer outra pretensão nacional ou vontade popular - na concepção
dos políticos que temos -, sabia-se de antemão, que entre mortos e
feridos daquela vergonhosa refrega política, todos se salvariam. A
cada escândalo político o resultado é esse; "panos quentes
sobre...", "uma pedra em cima", "tudo para debaixo do tapete",
seguido da confraternização com pizza. E assim continuará ad
aeternum!
Continuará, enquanto não
se fizer mudança radical no sistema, dando feição democrática de
fato ao processo de escolha dos mandatários. O ideal é a escolha
entre líderes naturais da sociedade, devidamente organizada e livre
de partido político. Somente assim o eleitorado poderia ser
responsabilizado pela qualidade de seus representantes e governantes
e, como forma de corrigir o erro teria, sob mediação da Justiça
Eleitoral, o poder de cassar qualquer mandato fora de sintonia com a
ética, o zelo e a honestidade. No sistema atual atribui-se ao
eleitorado a culpa pela má escolha, mas na realidade, o eleitor
escolhe entre pratos feitos e apresentados pelos partidos. Como se
vê, a culpa por esse estado de coisas é dos partidos políticos e não
do eleitorado. Em vários textos tenho defendido o eleitorado,
eximindo-o dessa culpa atribuída pelo próprio sistema e alardeado
pela mídia.
Mais ou menos, o mesmo
pensamento se encontra em trecho do
MANIFESTO À NAÇÃO, datado de 15 de julho de 2009, do Lions Clube
de Blumenau Centro, conforme se vê a seguir: "Assim como não se
pode exigir que um filho imaturo seja exemplo para seus pais, mas
sim o contrário, da mesma forma não se pode jogar nas costas da
sociedade a responsabilidade pelo pouco caso que seus dirigentes têm
para com a coisa pública, impingindo-se a ela, sociedade, a culpa
por suposta falta de critério na escolha dos candidatos eleitos.
Esta é uma forma ardilosa, perversa e demagógica de pulverizar a
responsabilidade por má conduta, tirando-a dos ombros dos dirigentes
para espalhá-la comodamente sobre os ombros dos dirigidos".
O Brasil precisa reagir,
depressa, para se colocar nos trilhos novamente, e, seria bom se
considerasse que partidos políticos já fizeram mal demais à
humanidade!