O elo partido
Qualquer pessoa
medianamente informada sabe existir um mercado de obras de arte barroca,
que se alimenta de peças encontradas nas antigas igrejas, especialmente
em Minas, e que esta é causa do "desaparecimento" de tantas
imagens e objetos de culto que integram o patrimônio artístico e
histórico. Esse desaparecimento se dá de várias formas: por
leviandade de administradores paroquiais, que não hesitam em dispor de
peças para fazer caixa - sem ao menos conhecer-lhes o valor - ou
simplesmente locupletar-se; por incúria, ignorância e pelo furto, com
ou sem a colaboração interna. Pela natureza das peças, sempre
cobiçadas por grandes colecionadores, deduz-se facilmente que os
envolvidos nos furtos e tráfico são pessoas também de livre
circulação em salões em gabinetes, não havendo muito espaço para
ladrão do tipo pé-de-chinelo. Resumindo em linguagem curta e grossa:
são ladrões de punhos de renda, da mesma espécie, porém um tanto
diferentes dos de colarinho branco, especialistas em golpes financeiros!
Por esta razão, tais crimes dificilmente são desvendados. Seus autores
têm as costas quentes! E a extensão da lista de objetos desviados ou
furtados das igrejas, sem que lhes conheça o paradeiro, comprova isso.
De vez em quando alguma peça é descoberta e retorna à sua origem, por
puro golpe de sorte, ou descuido em algum ponto do esquema criminoso.
Dentre as atividades
criminosas que movimentam altas somas, o tráfico de drogas é o único
do qual se ouve falar em prisões e condenação de culpados, mas isso
é devido ao fato de o tráfico ter ramificações em todas as classes
sociais. Os apanhados pela Lei são da base da pirâmide criminosa, que
é maioria e constituída por pessoas das camadas inferiores. Esses
criminosos visíveis, a polícia os prende nas favelas e nos bairros
menos nobres. Enquanto isso, os verdadeiros responsáveis, invisíveis
aos olhos da sociedade – até de seus comandados - por camuflagem
feita de atividades regulares e legais, residentes em mansões e
condomínios de luxo, se garantem para dar continuidade à atividade
criminosa sem despertar suspeitas no grande público. Por ser atividade
restrita aos de alto poder aquisitivo, o furto e tráfico de peças
artístico-históricas não deixa rastros visíveis ao público, ficando
sua autoria conhecida apenas ao pequeno círculo dos principais
envolvidos e colaboradores regiamente compensados. Por tudo isso,
desperta atenção de observadores mais atentos o sucesso obtido nas
recentes operações policiais, ao localizar e identificar peças já
dadas como perdidas por várias igrejas em território mineiro. É muito
estranha a súbita revirada a favor da sociedade e do patrimônio
artístico-histórico num setor considerado invulnerável pelas razões
aqui expostas. Tem-se impressão de haver rompido importante elo na
forte corrente criminosa. Em poucos dias dezenas de peças foram
recuperadas e, segundo o noticiário, já foram identificados
comerciantes e colecionadores do setor responsáveis pelo desvio e
receptação dos objetos.
Toda essa movimentação, em
torno da recuperação do patrimônio de origem sacra, acontece
justamente quando se completam trinta anos do audacioso furto no museu
da igreja-matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto. Grande
coleção de objetos duplamente valiosos foi ali furtada na noite de 2
de setembro de 1973, e, até hoje, oficialmente nada se apurou, embora
tenham corrido rumores de que os responsáveis seriam pessoas
influentes, na mesma proporção do valor e importância das peças
furtadas. Se eram pessoas importantes, está claro, portanto o porquê
do mistério ainda não desvendado. E agora, uma curiosidade: outra
grave ocorrência policial teria ocorrido naquela mesma noite, e, embora
suspeita de ser parte do plano, nada se ouviu quanto a uma
investigação em torno do caso. Um policial em serviço, no antigo
posto da Polícia Militar, onde hoje se ergue o condomínio "Alphaville",
morreu em circunstâncias bastante estranhas. Foi dito que teria sido
vítima de tiro acidental. Tal acidente na noite do furto e na rota de
fuga dos autores seria bastante providencial. "Yo
no creo en brujas, pero que las hay, las hay"