PONTO DE VISTA DO BATISTA

Enjeitadas da cultura ouropretana

Em pesquisa sobre filmes interessantes, que pudessem preencher tempo, que outros diriam para o ócio, e eu digo tanto para descanso da rotina quantopara a expansão do conhecimento, a depender da qualidade do que vemos, lemos e ouvimos nessas ocasiões, tive a atenção voltada para o título "A Banda". Vi logo tratar-se de banda de música, realmente, e não de conjunto musical de outro gênero ou mera dupla, à qual a mídia denomina genericamente, "banda", isto desde início dos anos oitenta do século passado, só para confundir e levar as verdadeiras bandas ao desaparecimento.

De acordo com a sinopse, o filme conta as peripécias de banda de música da polícia egípcia, em viagem por Israel, aonde fora para a inauguração de centro da cultura árabe. A banda desembarcou em Israel e, por razões de natureza burocrática ou "burrocrática", como também acontece em terras tupiniquins, não encontrou esquema receptivo de boas vindas e de orientação em sua estada naquele país nem tanto amigo. Os músicos acabaram por embarcar em ônibus errado e levados para destino muito diferente do planejado. Imagine-se a situação dos músicos árabes, em território judeu, completamente fora de rumo.

Não claramente, mas nas entrelinhas, percebe-se que prevaleceu o sentimento humano e não as picuinhas políticas entre aqueles dois povos que, no fundo, vêm da mesma raiz. O filme estava na programação de TV por assinatura, mas, não se sabe por que cargas d’água, foi retirado; talvez mesmo por focalizar banda de música.

Mesmo não tendo visto o filme, parece-me que o vivido, ou sofrido, pelos músicos egípcios, seria o mesmo que tantas vezes padecemos, nós músicos de bandas, no cumprimento de nossas obrigações, no Brasil. E trapalhada por trapalhada, lembrei-me de episódio mais ou menos recente, no qual foi envolvida a Associação Musical Nossa Senhora da Conceição da Lapa, do distrito de Antônio Pereira/Ouro Preto. Setor de esportes da prefeitura de Ouro Preto havia "contratado" aquela banda para abrilhantar evento desportivo na Barra, no distrito sede. O evento seria à tarde, mas no dia combinado, o veículo que faria o transporte da banda chegou à hora do almoço com emissário e instruções para que os músicos fossem reunidos imediatamente, pois o evento teria sido antecipado. E como condução para toda a banda, composta de cerca de quarenta jovens, adolescentes em sua maioria, à porta da sede estacionou uma Van. Risível e motivo para chacota contra a estratégia logística municipal, se não fosse o cúmulo da incompetência e – por que não? – da ignorância dos responsáveis, sabendo-se que, no município existem nove bandas em atividade, nenhuma transportável de uma só vez em Van. A presidente da banda, Maria de Carvalho Ferreira, a aguerrida "D. Dunga", fez ver que ainda que fosse ônibus perfeitamente adequado ao serviço, a banda não se deslocaria ao distrito sede àquela hora, que não era a combinada, além de os músicos estarem em hora de almoço em suas casas.

Pouco mais que um mês antes do carnaval, neste mesmo espaço lembrei que, em alguns dias, a prefeitura deveria anunciar a verba destinada às escolas de samba, para o desfile de carnaval. E, ao mesmo tempo em que destaca agremiações carnavalescas como promotoras de cultura e atrações turísticas, portanto merecedoras de repasses financeiros para suas atividades, únicas no ano, deixa as bandas de música a "ver com os olhos e lamber com a testa", embora sejam registradas, cadastradas nos devidos órgãos oficiais, portadoras do título de "utilidade pública" e reunidas em associação como a ABAMMOP. A administração municipal diz ser inconstitucional subvenção às bandas, mas não com relação às agremiações carnavalescas. Até para blocos improvisados, não registrados, houve vontade política na distribuição generosa de verba. Montou-se esquema especial para que todos fossem contemplados.

Passou o carnaval e agora é momento das festas religiosas, a começar pela Semana Santa. As bandas, que participam das solenidades externas dos muitos eventos religiosos, ao longo do ano em todo o município, não recebem subvenção municipal sob a alegação de inconstitucionalidade. Entretanto, a Prefeitura Municipal de Ouro Preto insiste em remunerá-las pelos serviços prestados a terceiros, ou seja, nos eventos religiosos católicos. E não se sabe por que isso também não é inconstitucional! Mais que inconstitucional, é discriminação e sectarismo! Igrejas evangélicas e de outras denominações ainda não pleitearam, mas quero ver o que a PMOP fará se isso acontecer. Se uma tem direito, todas as demais têm.

Isso em termos comerciais é controle de mercado cultural, ação predatória sobre as bandas e sobre as iniciativas populares comunitárias, que deixam de exercitar a criatividade, como se fazia anteriormente na captação de recursos para seus eventos. Em lugar de assumir compromissos, que cabem a terceiros cumprir, a PMOP deveria ter calendário de eventos culturais/turísticos, aproveitando o potencial das bandas, como se faz em outros municípios. Mas, isso ela não quer fazer.

nbatista@uai.com.br

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