Entulho para turista ver
Poderão alguns argumentar
que o assunto nada tem a ver com os interesses de quem mora nesta
região. Mas quando se trata de transporte coletivo, não importa
onde, deixa de ser assunto apenas local, pois as cidades estão
abertas a visitantes, que se locomovem por suas ruas, praças e
bairros. E em se tratando da capital do estado, metrópole que cresce
e absorve outras cidades em seu entorno, atraindo pessoas de todos
os pontos do país em seu processo de desenvolvimento, é razoável e
justa a discussão do transporte coletivo por quantos, embora
residentes fora de seus limites, têm com ela uma relação freqüente,
seja nos negócios, no trato com órgãos do Estado, nos estudos ou
mesmo na área do entretenimento. Portanto, a deficiência do
transporte coletivo de Belo Horizonte não afeta somente à local, mas
a uma grande população flutuante, que depende do transporte de
massa. Logo, falar do assunto aqui não extrapola limites, nem
interfere em seara alheia, pois a capital é de todos e afeta esta
região muito mais do que se imagina.
Anuncia-se que pretendem
voltar com os bondes para as ruas de BH. No primeiro momento, uma
ponta de saudade se agita e bate palmas para a idéia, vista como
resgate de um dos ícones do ar romântico já respirado na capital
mineira. Era o transporte de todos quando automóvel era privilégio
de poucos, e, a cidade pouco avançava além da Avenida do Contorno;
quando não havia pressa e o cidadão circulava sem maiores
preocupações, cuidando apenas de não ter levada a carteira por algum
"amigo do alheio". Logo em seguida, percebe-se a inviabilidade do
retorno do bonde como meio de transporte, pois as circunstâncias que
o validavam ficaram no passado, e, suas características não atendem
as exigências de uma metrópole com quase três milhões de habitantes,
sem contar a população dos municípios que integram a Região
Metropolitana.
Para quem está ao volante
de veículo, Belo Horizonte é um caos, e, para o cidadão que depende
do transporte público, a deficiência do sistema colocado à
disposição bate duro no poder aquisitivo e necessidades do usuário.
Não se vêem sinais de melhoramentos e o anúncio da volta dos bondes
até parece brincadeira de mau gosto com a população. Ônibus
desconfortáveis, lotados e a circular na contramão de demanda,
tarifas fora da realidade econômica do usuário, falta de informação
ao público sobre o serviço, profissionais muitas vezes despreparados
e fragilidade diante da violência urbana são alguns dos fatores
negativos que precisam ser atacados para que a população comece a
ser bem servida pelo transporte público. Ao invés disso, pretendem
criar um veículo "frankstein" com cara de bonde e rodas de ônibus,
improviso encontrado para fugir à implantação de trilhos. Segundo
primeiras informações, seria destinado a turistas, que pagariam
tarifa em torno de quinze reais pelo "privilégio" no uso do bizarro
a se acrescer ao já congestionado e confuso trânsito de Belo
Horizonte.
Enquanto isso, o metrô,
transporte verdadeiramente de massa, além de seguir traçado que não
responde às necessidades, tem sua implantação tocada a passo de
tartaruga. Não se compreende a implantação do metrô de superfície no
traçado escolhido, quando se sabe que Belo Horizonte é das poucas
cidades brasileiras favoráveis ao metrô subterrâneo, sem necessidade
de perfurações sob grandes edificações. Poderia ter sido construído
abaixo das pistas de grandes avenidas como a Amazonas, a Antônio
Carlos e outras. Sob a Avenida do Contorno, uma linha circular
completaria o desafogo do centro da capital, onde o pedestre teria
mais espaço.
Mas, a administração
municipal belorizontina prefere o estrambótico entulho pra turista
ver!