Comecei minha vida
profissional como engenheiro júnior, na construção da
primeira usina nuclear brasileira, em Angra dos Reis (RJ),
onde permaneci até atingir o posto máximo de diretor da
usina nuclear Angra 1. Quando a usina nuclear Angra 2 estava
em fase final de construção, fui transferido, mas tive a
oportunidade de ajudar a trazer essa usina à plena operação
e o privilégio de ser seu primeiro diretor chefe.
Como a vida sempre nos apresenta novos caminhos, em 2001,
tive a honra de ser convidado para trabalhar em Viena,
Áustria, na Organização das Nações Unidas (ONU), como
especialista sênior de Segurança Nuclear, num cargo
diplomático na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Foram sete anos especiais, quando tive a oportunidade de
visitar, gerenciar treinamentos e realizar inspeções nas
diversas usinas nucleares em países como a Rússia, Irã,
China, Coreia, Índia, Armênia, dentre outros. Atualmente,
trabalho como diretor de Desenvolvimento de Projetos de
Novas Centrais Nucleares de uma empresa multinacional
espanhola, razão pela qual eu e minha família vivemos em
Madri. Como veem, a energia nuclear faz parte da minha vida.
As pessoas sempre tiveram muito medo de usinas atômicas, por
fazerem associação, incorretamente, por falta de
conhecimento técnico, com a bomba atômica - o que é
totalmente compreensível -, mas o termo correto é usina
nuclear. Com o acidente recente de Fukushima, no Japão,
todos voltaram a criticar, condenar essa tecnologia de
geração de eletricidade.
O que aconteceu no Japão não pode e não deve ser minimizado,
mas, como tudo na vida, deve ser visto com cuidado. É
preciso analisar as causas de tudo, as consequências dos
erros cometidos e, principalmente, aprender com cada um
deles. Não existe nenhuma tecnologia de geração de energia
que seja 100% segura e quem diz o contrário está totalmente
equivocado. Todas possuem seus riscos e se aprimoram com
erros. O que temos de fazer como engenheiros é reduzir esses
riscos.
Quando ocorrem catástrofes, é natural que se tente apontar
responsáveis, mas, no caso do Japão, há certa transferência
de valores, pois, no meio de tanta devastação, somente se
questionam os efeitos nos problemas ocorridos nas usinas.
Infelizmente, as mortes no Japão devem chegar a 20 mil
pessoas. Mas quantas delas são provenientes do acidente
nuclear de Fukushima? Nesse sentido, até eu ter produzido
este texto, no término de março, só uma morte estava
registrada, havia duas pessoas desaparecidas, que poderiam
estar mortas, e outras poucas dezenas feridas.
Como nenhuma obra de Engenharia é projetada para fazer
frente a terremotos seguidos de tsunamis dessas magnitudes,
todas as instalações industriais, refinarias e indústrias
químicas na região foram totalmente colapsadas e destruídas,
com milhares de mortes, e o consequente efeito no meio
ambiente é, no momento, muito difícil de se calcular, mas,
certamente, é enorme.
Os efeitos nas usinas foram devastadores, pois alguns dos
reatores estão destruídos. Não houve explosão nuclear,
conforme noticiado, pois esses reatores não explodem –
fisicamente, isso é algo impossível de ocorrer. É algo
totalmente distante do acidente ocorrido em 1986, em
Chernobyl, na Ucrânia, cujo projeto era completamente
diferente deste do Japão e de todos os reatores que existem
no mundo nuclear, com exceção de alguns ainda operando na
Rússia, mas que foram revisados e apresentam agora mais
segurança.
A explosão que vimos pela televisão, na Usina de Fukushima,
ocorreu devido à reação entre o gás Hidrogênio, produzido
pela alta temperatura do combustível nuclear que estava sem
resfriamento, e o Oxigênio encontrado no ar. Foi dramático.
Os procedimentos que devem ser realizados nesta situação, e
os técnicos japoneses os estão fazendo, são o de resfriar os
combustíveis encontrados no reator com água do mar até que
as bombas projetadas para essa atividade possam voltar a
operar. E, quando o resfriamento normal for obtido, o nível
de radiação baixará consideravelmente. Em pouco tempo, não
serão mais encontrados resíduos radioativos no ar.
Outro ponto importante que devemos saber é que as usinas de
Fukushima foram projetadas para suportar um terremoto de
valor 8, na Escala Richter, e conseguiram suportar um
terremoto de quase 9, sem muitos problemas. Em relação ao
tsunami, elas foram projetadas para ondas de 7 metros de
altura, o maior histórico da região. E o que ocorreu? As
ondas tinham quase 14 metros! A inundação dos equipamentos
de geração de energia elétrica de emergência da usina foi
total, impedindo sua operação e a usina, já desligada
automaticamente pelos sinais de proteção contra terremoto,
necessitava agora de água de resfriamento, o que não ocorreu
devido à inoperabilidade das bombas de refrigeração de
emergência!
É importante dizer que, de todas as instalações industriais
na região, somente as 14 usinas nucleares ali instaladas
resistiram ao terremoto e ao tsunami e se desligaram
automaticamente. Todas as outras instalações industrias
foram totalmente destruídas.
Dessas 14 usinas nucleares, os problemas de resfriamento
ocorreram em quatro unidades, das seis de Fukushima Daichi.
E, no momento em que escrevo estas notas, as informações que
chegam do Japão confirmam que o resfriamento está sendo
restabelecido (ainda de maneira não convencional), as taxas
de dose de radiação estão caindo, mas o cenário ainda não é
tranquilizador. Espera-se que, em poucas semanas, a
alimentação elétrica de emergência esteja já restabelecida
e, com isso, as bombas de resfriamento possam ser ligadas
normalmente, fazendo com que as condições plenas de
segurança sejam alcançadas. Os técnicos japoneses já estão
quase chegando a esse ponto.
Lições de Fukushima
Sempre aprendemos com os acidentes. E as lições de Fukushima
não poderão ser esquecidas nunca. Lembram-se do acidente de
Bophal, da Union Carbide, na Índia? E da recente
contaminação do mar devido ao vazamento de óleo da BP, no
Golfo do México? Vocês sabiam que, se uma represa se romper,
o tsunami que gerará destruirá e matará centenas ou milhares
de pessoas? Nem por isso se deixará de produzir produtos
químicos, de se extrair petróleo, nem de construir represas
para gerar eletricidade. Certamente essas tecnologias se
aprimoraram ainda mais, pela incorporação das lições desses
trágicos eventos.
O Japão não pode viver sem energia nuclear, não há como. O
país tem mais de 50 usinas, produzindo cerca de 30% de toda
sua necessidade elétrica. É um dos países industrializados
que estão trabalhando seriamente na diminuição das emissões
de contaminantes na atmosfera e, para isso, as usinas
nucleares são fundamentais e necessárias. Hoje, o mundo fala
muito de efeito estufa, mudança do clima, contaminação
carbônica, etc. Isto é um fenômeno real, em que a
contaminação de CO2na atmosfera terrestre está se
acumulando e destruindo a camada de Ozônio que protege a
Terra da irradiação daninha do sol. A única maneira de
interromper esse fenômeno é reduzir a liberação desse gás na
atmosfera. E um dos maiores contribuintes para a liberação
de CO2 é a geração de eletricidade por meio de
gás, carvão e petróleo. Dessa forma, temos de substituir
essas fontes! Mas como? Com as energias não poluidoras, as
chamadas alternativas, que são as provenientes da água, do
vento, das marés, do sol, e das nucleares!
De todas as energias, as únicas que podemos utilizar em
grandes pacotes de potência, por 24 horas do dia, todo o
ano, são as hidráulicas e as nucleares. Todas são
importantes e devem ser desenvolvidas e implementadas. Mas
não há ventos onde e quando necessitamos, nem durante as 24
horas do dia, nem faz sol todo o tempo. E as usinas das
marés, alguém pode perguntar. Na realidade, ainda estão
muito incipientes em seu desenvolvimento.
Hoje, a energia elétrica produzida por essas fontes tem alto
custo de produção e os governos subsidiam uma boa
percentagem, pois, de outra forma, o preço da eletricidade
que pagamos todo mês teria um aumento insuportável para os
cidadãos. Mesmo assim, a energia é cara e esse é o preço que
os governos e, portanto, nós, os cidadãos, pagamos para que
essas fontes alternativas possam se tornar cada vez mais
viáveis.
Em relação às grandes hidráulicas, elas estão cada vez mais
distantes do centro de consumo, seu licenciamento ambiental
é cada vez mais difícil, pela grande área a ser inundada, e
nem todos os países têm essa possibilidade, muito menos o
Japão. Então, as usinas nucleares vêm sendo a solução mais
oportuna, com projetos cada vez mais seguros, com sistemas
de segurança cada vez mais sofisticados.
Destruição silenciosa
O acidente de Fukushima é um desastre para a indústria
nuclear. Como foi o acidente de TMI 2, nos Estados Unidos,
em 1979, e o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. A indústria
nuclear aprendeu muito com esses eventos e acontecerá o
mesmo com o de Fukushima. A indústria nuclear sairá desse
evento muito mais robusta, apesar do forte golpe que sofrerá
nos primeiros meses pós-Fukushima. Não há como ser
diferente, pois, como expliquei, o maior desastre que está
ocorrendo diariamente é a destruição silenciosa e impune da
camada de ozônio que protege o nosso planeta das irradiações
daninhas do sol. E para essa proteção, hoje, só existem as
energias alternativas, dentre elas a nuclear, que é a mais
potente.
Agora, infelizmente, os catastrofistas estão brandindo o sloganantinuclear.
É compreensível, pelo desconhecimento que possuem do
assunto. Também os políticos estão utilizando a ignorância
natural deste tema para dizer não às novas usinas nucleares
ou mesmo a todas as nucleares. É fácil de entender, pois
pensam nas próximas eleições e não nas próximas gerações.
Aliás, isso é o que distingue um político de um estadista. O
Brasil e o mundo estão necessitando de estadistas para que
as próximas gerações não paguem o alto preço das decisões
equivocadas de agora. Não podemos deixar que a histeria do
desconhecimento leve a decisões cujas consequências serão
sentidas pelos nossos netos, bisnetos ou por nós, ao
reencarnarmos, quando o sol estiver queimando o ar que
respiramos por falta da camada de ozônio, destruída pelos
gases de carbono que lançamos na atmosfera.
A indústria nuclear, somente como informação adicional, está
desenvolvendo um reator baseado no que ocorre no sol, que
nos aquece e nos dá vida, ou seja, a fusão nuclear. Esse
reator é chamado deInternational Thermonuclear
Experimental Reactor, ou Iter, e deverá ter seu
protótipo operando por volta de 2050. Esse tipo de reator
nuclear deverá substituir e aposentar não só os reatores
nucleares a fissão (os atuais), mas também as várias outras
fontes convencionais e algumas alternativas. Ele não produz
rejeitos, utiliza a água como combustível e produz o gás
hélio como subproduto, que é o gás de cozinha que
conhecemos. Uma maravilha, mas que vai levar várias dezenas
de anos até que possamos utilizá-lo comercialmente.
Alguns leitores poderão concluir que sou um defensor da
indústria nuclear e essas pessoas não estarão equivocadas. É
que o Espiritismo me ensinou a ter uma fé raciocinada e a
Engenharia me demonstrou a lógica cartesiana onde 2 + 2 = 4!
Raciocínio e lógica juntos.
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