O errado é que está
certo
De vez em quando,
rápida olhada no retrovisor do tempo faz bem e serve para comparar o
trecho percorrido com o ponto onde estamos e, se possível, com o que
ainda percorreremos. Se mais facilidades temos hoje na condução da
vida material, não obstantes as críticas, queixas e reivindicações
próprias da insatisfação humana, percebe-se que no aspecto moral a
decadência é gritante, a ponto de se porem em dúvida os limites dos
direitos do indivíduo na confrontação com o ilícito e o crime.
Banalizadas ações outrora suficientes para o autor, durante bom tempo,
ficar na cadeia, o crime avança sobre o restante do que há de leis
balizadoras da sociedade, confundindo-se o bem e o mal, o ético e o
antiético, o certo e o errado, na cabeça do indivíduo que não mais
aprende o valor de ser, porque antes de tudo vem o ter.
Ao se tomar
conhecimento da situação vivida por uma pessoa que, ao ter o corro
roubado, vai à polícia registrar a ocorrência e, lá, é atendido
pelo próprio ladrão, vem a impressão surrealista de que errado é
quem obedece ao legal. E deve ser isso mesmo, porque cada vez mais as
sociedade vive atrás de grades, enquanto os malfeitores andam à solta
ou, se presos, dos presídios controlam e comandam seu mundo, determinam
quem, como e quando deve morrer. Pelo retrovisor do tempo vejo quando as
residências permaneciam de portas abertas durante todo o dia, sem o
perigo de estranho entrar, sem antes avisar; ia-se à compra de carne e
voltava com ela à mão pendurada por um pedaço de embira, sem que
sequer um cão ousasse interferir na relação posse/possuidor; abria-se
a janela, pela manhã, e lá estava o pão fresquinho deixado pelo
padeiro e, junto, o leite não esquecido pelo leiteiro. Esse era o ritmo
normal, e, quem dele se desviava ficava marcado. Que se cuidasse para
não ser apanhado, porque tolerância não havia. Polícia era polícia
e bandido era bandido!
É estranho porque,
hoje, arromba-se casa para o furto de um par de meias; assalta-se garoto
para lhe tomar o tênis; gasta-se bala, rouba-se vida, para não ter que
pagar um passe no transporte coletivo. A punição não passa de formal
visita à delegacia, pois antes que se veja detrás às grades, o
marginal escapa pelas folgadas brechas da lei e sai a encarar,
zombeteiro, quem o prendeu e a sociedade, sua vítima, para novos
delitos praticar. Ganha espaço na mídia e, mais que autoridade, dá
entrevistas à imprensa. Se condenado, no presídio é quem manda,
determina o cardápio e a troca do diretor, exige mordomias e, quem
sabe, orgias sexuais. Não há mais limites à vontade do infrator e do
bandido, porque o estado legal ficou de cócoras diante do crime. A
sociedade, encurralada pelo terror que os criminosos impõem e pela
frouxidão do estado, por enquanto não sabe como se defender. Mas, nos
bolsões controlados por bandidos, a reação que seria contra o crime
já se faz contra as forças da segurança pública, porque os bandidos
aprenderam como manipular os fatos a seu favor.
Dou mais uma olhada
pelo retrovisor e vejo a denominação equipe, normalmente endereçada a
grupo de trabalho ou quadro de competição esportiva, mas um delegado
atual subverte seu (da palavra equipe) conceito empregando-a com
referência a grupo de malfeitores, que só pode ser chamado quadrilha.
E assim tudo se subverte, vira-se pelo avesso, numa confusão que nos
tornará todos errados, não antes que os bandidos reivindiquem
benefícios sociais tais como aposentadoria e outros, que se julguem com
direito, pelo estressante "trabalho" junto à sociedade, no
passado, tida como correta. Pelo andar da carruagem, é possível que
consigam!