Esperteza e corrupção
tupiniquins
Ouvir conversa alheia
nunca foi de bom tom, e, não era à toa que, nos tempos da educação
de berço, mãe torcia orelha do pimpolho quando este a punha a
serviço da bisbilhotice, antenada às interações verbais com as
comadres, mormente sob capa do segredo. A abelhudice cresceu,
fazendo-se, hoje, com tecnologia, para desespero dos incautos, sob o
manto legal da Justiça à cata do ilegal ou à sombra do crime contra
a privacidade do cidadão.
Mas, não se trata aqui da
escuta avançada de que tanto falam jornais, e nem da primitiva atrás
de portas ou com ajuda de visão clandestina via buraco de
fechaduras, porque a conversa transcorria aos quatro ventos, para
quem quisesse ouvir, ou não, mesmo porque não há escolha em tempo de
tanta zoeira. Atreve-se, até, a proclamar bem-aventurados os surdos,
porque não lhes chegam tanto barulho e mediocridade por ondas
sonoras! E aquela conversa seria melhor não ter sido ouvida, porque
esperanças acumuladas no registro de fatos favoráveis se desmancham
no ar, na constatação de que à força de trabalho que gera a riqueza
deste país nem sempre corresponde o nível de consciência cidadã
necessária à formação de uma nação, verdadeiramente desenvolvida
como se deseja.
Eram dois trabalhadores
com alguma experiência, conclusão à qual se chegava pela idade
aparente, pouco mais de trinta, e pela forma de expressão, acima dos
iniciantes e mal qualificados. Os dois conversavam animadamente
sobre questões do emprego de cada um, quando o aparentemente mais
jovem disse:
- Estou de aviso prévio,
devendo me desligar da empresa no fim do mês, mas tenho um "grilo"
quanto ao que fazer depois.
- É barra pesada! No meio
dessa crise, ficar desempregado não é o melhor dos mundos; eu sei o
que é isso – comentou o outro rapaz.
_ Não, não é isso. No meu
caso é o contrário.
- Como assim?
- É que, por coincidência,
ao mesmo tempo fui chamado por empresa, onde deixara currículo há
algum tempo. Veja só meu azar: esse chamado podia ter aguardado uns
três meses, eu receberia o seguro desemprego e voltaria a trabalhar
logo em seguida.
Ao ouvir aquela
imbecilidade, tive vontade de me meter, apesar de não serem meus
conhecidos, mas fiquei na expectativa da reação do segundo. Em tom
de galhofa, ele disse:
- Você é um azarão! Tinha
de acontecer as duas coisas ao mesmo tempo! Pois, comigo aconteceu o
que você esperava e não vai ter. Passei os últimos três meses
comendo o seguro-desemprego e voltei a trabalhar em janeiro. O meu
não foi deixado para o governo!
A comunhão de pensamento
dos dois, além da decepção em dobro, levou-me à suspeita de que a
maioria pensa dessa forma; que o seguro-desemprego é salário
merecido, e não auxílio emergencial, do qual seria melhor ninguém
necessitar. Corri os olhos pelo interior do coletivo, na tentativa
de saber quantas daquelas pessoas seguiriam o pensamento dos dois
trabalhadores. Infelizmente, a esperteza ainda se sobrepõe à
dignidade e o dinheiro fala mais alto que o trabalho! A mentalidade
nacional ainda não atingiu níveis coerentes com os ideais de
desenvolvimento e de bem estar coletivo. Não é à toa que a corrupção
é o maior desafio a ser vencido e o Brasil, comparado seu potencial
com o de outros países, está a entre nações menos desenvolvidas.