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PONTO DE VISTA DO
BATISTA
No reino dos espertos
De olhos fechados
para os próprios defeitos e fraquezas, todos nos enchemos de
indignação diante de tretas e mutretas, que os jornais nos trazem
diretamente do círculo dos poderosos, como se fossem aquelas mazelas
exclusivas dos apontados e criticados. Esquecemo-nos de que os grandes
deslizes se assentam em outros menores, praticados por nós outros no
dia-a-dia ao interagirmos com o meio em que vivemos. O famoso jeitinho e
as inocentes transgressões de regras, fatores de esperteza da qual
muitos se vangloriam, estão na mesma proporção dos golpes maiores
atribuídos a notórios figurões da República. Pode o fura-fila do
banco, ou de qualquer outro setor, não prejudicar a totalidade da
comunidade, mas isso não deixa de ser parte da mesma cultura que faz um
político violar o painel de votação no Senado ou fraudar
autorização judicial para escuta telefônica em investigação
policial.
Com a introdução,
na lei, de garantias de preferência e outras vantagens a cidadãos
especiais, abriu-se espaço para espertalhões cujas ações precisam
ser coibidas ante o risco de aqueles benefícios serem suprimidos.
Sabe-se que, da parte dos que deveriam ter o controle da situação,
solução, quando vem, é a mais radical possível. Constatada água
suja na bacia, está é lançada fora, mas o bebê vai junto! Dias
desses, ensolarado e quente, o banco estava como um forninho a assar
clientes em várias filas, que se estendiam até a calçada. Havia fila
para os caixas "ao vivo" (a maior), para os caixas
eletrônicos, para "audiência" com o gerente e até para os
"fora de fila" (maiores de 65, grávidas, etc.). Na fila maior
não poucos clientes carregavam pastas e pacotes, o que denunciava mais
demora nos guichês; conseqüentemente, mais exposição ao calor
sufocante daquele ambiente precariamente adaptado para agência
bancária, como sói acontecer em Ouro Preto. Nesses momentos, quando a
aflição ainda não nos domina, a bom observador não escapam
peculiaridades no comportamento de outras pessoas no mesmo barco.
Algumas permanecem impassíveis, como se presas do seu próprio mundo à
parte do que as circundam. Há os impacientes que criticam a demora dos
funcionários, mas não hesitam em colaborar com o fura-fila, fazendo ou
deixando que outros à frente façam o trabalho para o(a) espertinho(a)
que não quer aguardar a sua vez , de acordo com a ordem de chegada.
Não faltam os gaiatos que brincam com a situação, fazem gracejos e
assim amenizam o clima de cansaço; nem tampouco os que se valem do
momento para fazer amigos, trocando impressões sobre os acontecimentos
em curso; e até aquele cujo excesso de gentileza lhe vale sutil
reprovação, ao orientar uma senhora de cabelos brancos para o
atendimento fora de fila. Vai brincar com a vaidade das mulheres em
relação à idade aparente, vai!
A senhora de cabelos
brancos repele a sugestão com declaração de que ainda não atingiu a
idade legal, mas na fila sugerida está outra bem mais jovem com um
garoto nos braços. Tudo bem, porque entre os contemplados pela regra
estão pessoas com crianças de colo. E aqui está o detalhe que remete
a dita cidadã para a lista dos espertinhos: a criança não é
"de", mas está "no" colo. É um bezerrão com a
pele tostada pelo sol, sandálias com solado "careca" de tanto
o portador andar e fazer peraltices próprias da idade. Com menor
sacrifício, pois o garoto deve ser pesado, ela poderia ter entrado na
outra fila que andou mais rápido a partir de determinado momento. Mas,
aquela mulher tinha de provar a si mesma que era esperta e tinha poder
para atrasar o atendimento a cerca de cinco octogenárias atrás de si.
Cidadãos como ela
até que têm direito de protestar contra abusos nos altos escalões,
mas, e a moral onde está?
nbatista@uai.com.br
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