Espionagem solta
Em combinação com
individualidade e liberdade, valores mais sagrados ao mundo dito
civilizado, a tecnologia, há tanto ansiada e em pleno desenvolvimento
na atualidade, está a levar o homem a viver um paradoxo: a cada passo
dado no exercício da individualidade e do gozo da liberdade, menos
privacidade ele tem e mais preso fica na teia dos interesses de
terceiros. A abelhudice, no passado, reservada a ouvidos e línguas
inescrupulosos, ganha feições de espionagem - resguardadas as
proporções - nos moldes dos filmes de James Bond, sem licença para
matar, é claro, embora em alguns casos se autoconceda o
"direito". Depois do aparato desenvolvido e colocado no
mercado à disposição de qualquer um de relativo poder aquisitivo,
ouvir e repassar informações clandestinas de forma verbal é coisa de
mexeriqueiro barato. A parafernália voltada para a espionagem
particular e generalizada está a transformar o mundo num grande
"big brother", essa idiotice televisiva, criada não sei onde
e copiada em terra tupiniquim.
Os olhos eletrônicos das
lojas e supermercados já se instalam nas ruas e, nas mãos de quem
espiona, não mais o gravador trambolho autodenunciante, pois a
discrição lhe reduziu o tamanho e ampliou o alcance. Além do mais, é
possível estar sob disfarce. Pode enganar-se quem, por não ver o
gravador, abre o bico com palavras comprometedoras. E as diminutas
câmeras ao gravar imagens, fazem o maior estrago na reputação do
apanhado em flagrante. Nos últimos anos, escândalos nos círculos
políticos e de governos aconteceram por força da bisbilhotice
eletrônica, com destaque para escutas telefônicas clandestinas, o que
tem deixado políticos com a pulga atrás da orelha, antes de tê-la
colada ao telefone e soltar a língua. Mas o mais recente caso, que
chegou a abalar a estrutura política do governo, esteve em ação uma
câmera de vídeo que gravou imagem e conversa comprometedora de
funcionário de alto costado do Palácio do Planalto com indivíduo
ligado ao mundo dos jogos e loterias. Com isso, segredos que devem
continuar segredos, só guardados a sete chaves, literalmente.
Ao sair à rua o cidadão
arrisca-se estar sob o foco de câmeras, reveladoras de comportamento e
gestos, que podem interessar a terceiros com intenções pouco
ortodoxas. No aconchego do lar, diante do computador, a liberdade do
internauta em navegação pela web pode custar sua individualidade sob a
bisbilhotice dos que pesquisam hábitos, ingenuamente revelados aqui e
ali. A verdade é que todos estão vulneráveis à vigilância
facilitada por engenhocas cada vez mais sofisticadas, disfarçadas,
diminutas e imperceptíveis a olhos menos atentos. Contraditoriamente,
as pessoas se sentem mais livres e prontas para ser exercer suas
individualidades, ignorando que essa liberdade começou a cair no dia em
que fabricaram o primeiro cassete
E isso me faz lembrar
observação de um amigo sobre a mudança de comportamento comercial do
pequeno produtor rural que, até princípio dos anos sessenta,
conduzindo sua pequena tropa nas ruas de Ouro Preto, negociava produtos
diretamente com o consumidor. Dizia ele que o rádio à pilha pusera fim
ao poder de negociação do consumidor com o pequeno produtor rural.
Antes da fabricação do primeiro rádio à pilha, quando na roça não
havia energia elétrica, o consumidor exercia um pouco de influência na
determinação do preço. Depois do rádio à pilha, esse poder se
esboroou diante dos argumentos do vendedor que já chegava à cidade
ciente dos preços praticados em outros centros. Ele tinha razão. Tudo
começou com o rádio à pilha!