PONTO DE VISTA DO BATISTA

Estado late mas não morde...  bandido!

Não sei se alguém ainda se lembra quando, ao fim do seqüestro do ônibus 174 no Rio, morreu aquela jovem, vítima do banditismo, que se faz de governo em alguns pontos deste país, e da Polícia mal preparada para produzir o que do seu meio: segurança. Embora o desenrolar de todo o drama, terminado em tragédia, tenha sido visto pela televisão, ao vivo e em cores, o episódio pode ter se perdido em meio a tantos outros, vindos depois, igualmente dolorosos e revoltantes. Mas, todos devem se lembrar da reação do governo, imediatamente anterior ao atual, que prometeu mundos e fundos contra os bandidos e a violência que promovem.

Enterradas as vítimas, incluindo-se o autor do seqüestro - morto depois de dominado por policiais - e arrefecido o ímpeto da mídia, a resposta governamental ao episódio ficou apenas na retórica e criação da Força Nacional de Segurança, que até o momento nada produziu de concreto quanto ao que lhe caberia, mesmo porque nas vezes em que seu emprego se cogitou, governos locais recusaram. Vaidades pessoais e esquivas à sensação de fracasso diante da opinião pública fazem dos agentes políticos, nos estados, renitentes em relação à participação direta de forças de segurança estranhas em seus domínios, ainda que em situações de descontrole. A cada investida mais ousada da criminalidade, a expectativa de reação firme nutrida pela sociedade é frustrada mediante condescendência governamental, em que não faltam acordos com bandidos, satisfação de seus caprichos nos presídios e impunidade geral. Ao mesmo tempo descobre então a sociedade que a responsabilidade pela edição de leis está entregue a políticos corruptos e suspeitos de envolvimento com algum tipo de crime, representando estes significativa parcela dos parlamentos. Melhor não pode ser para os criminosos, a essa altura tão bem organizados, a ponto de empregarem métodos empresariais na "administração" do crime.

À falta de ação do Estado de direito nos bolsões em situação de risco social, o crime organizado fincou sua estrutura assistencial às populações em troca do silêncio, muitas vezes convertido em simpatia e adesão à linha de seus propósitos. Quando o poder trocou de mãos no Planalto Central, acendeu-se em muitos a esperança de efetivo combate ao crime, mas, em seguida, percebeu-se que, nesse aspecto, apenas os "mosquitos" tinham sido substituídos por outros. Consolidado o estado bandido com o passar do tempo, fez-se o primeiro teste de seu poder na rebelião coordenada dos principais presídios, passo importante para se desencadear mais tarde (ano passado), na cidade de São Paulo, a série de ataques, nos moldes de guerrilha urbana. A cada investida do crime do crime organizado, o Estado brasileiro age como cão inofensivo, fazendo muito barulho e nenhuma ação prática contra o ladrão. E outro rugido se fez ouvir no Planalto Central depois que bandidos transformaram o Rio de Janeiro em praça de guerra na semana passada. Ao discursar na posse, prometendo dar combate firme à criminalidade, o presidente debitou-a à desestrutura familiar e conseqüente má formação moral do indivíduo.

Tem razão o presidente, ou quem o orientou quanto à causa. Não poucas vezes, esse fator foi aqui apontado como principal causa da criminalidade, com ou sem violência, cruenta ou incruenta, mas isso não isenta o Estado de suas responsabilidades. Por trás da desestrutura familiar já está a ausência de boa educação regular em paralelo com a educação de berço. O quadro favorável ao crime se completa com o sistema policial mal estruturado, mal preparado, mal equipado, leis condescendentes, judiciário lerdo e sistema penal desmoralizado.

Tudo isso ainda teria conserto, se políticos não tivessem objetivos diferentes dos daqueles que os elegem. E olhe que desta vez nem os mosquitos foram trocados!

nbatista@uai.com.br

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