PONTO DE VISTA DO BATISTA

O eterno conflito de interesses

Ao se tornar consciente de si mesmo, o homem começou também a se libertar de condições impostas por forças naturais e circunstâncias geradas no mundo animal do qual várias espécies, não obstante a superioridade em força física, gozavam também de vantagem numérica por viverem em bandos. Aprendeu como produzir fogo, construiu a primeira lança, inventou a roda e não parou mais de criar meios de vencer adversidades. Mas, ao mesmo tempo em que o aprendizado consciente determinava a convivência com as forças da natureza e domínio sobre os animais, surgiam conflitos entre indivíduos, isoladamente ou entre grupos, na disputa pelo melhor que cada um preconizava para si ou para seu grupo. É fácil imaginar o que podia acontecer, por exemplo, quando vários indivíduos, uns já armados com lanças primitivas, outros ainda não, e uma lança atingia animal cobiçado por caçador desarmado.

Percebeu o homem que cada conquista gerava desequilíbrios na relação de interesses com seu semelhante;desequilíbrios que sempre correspondem a conflitos. Dessas disputas e do bom senso de outros do grupo nasceram as primeiras regras de convivência que, do ambiente tribal, chegaram à sociedade humana como um todo sob a forma de leis, regulamentos, códigos e órgãos de controle, tudo com o propósito de resguardar o equilíbrio entre os direitos de uns e de outros. Ao surgimento de cada invenção ou descoberta de aplicação generalizada surgem também chances de conflitos mais adiante.

No início, o automóvel podia ser utilizado mais livremente por quem o possuía, porque eram poucos e sua velocidade não chegava a causar grandes apreensões, embora tenha sido amaldiçoado e considerado coisa do diabo. Com sua crescente popularização, um conjunto de leis surgiu ao longo do tempo, tanto para a existência do próprio veículo, quanto para o comportamento do condutor e para sua circulação, até chegar ao que temos hoje. Mas, com todo o controle montado sobre o uso e o trânsito de veículos, ainda estamos longe de evitar os conflitos de interesses entre milhões de condutores em circulação nas ruas e rodovias. E, em decorrência da popularização do automóvel acrescida da parafernália sonora, cuja utilização agride os direitos de quem prefere o silêncio ou audição de outro tipo de música (música mesmo) e em volume mais condizente com a natureza do ouvido humano... surgem mais conflitos! Não se entende qual a necessidade de veículo ter aparelho sonoro no volume máximo, voltado para o exterior, quando o lógico e correto é o volume limitado aos seus ocupantes, os verdadeiros interessados. Pior ainda é que as autoridades ainda não tenham proibido a instalação de tais engenhocas em autos, sabendo-se que a poluição, nesses casos, transcende o típico caso de agressão aos direitos de terceiros, paras se constituir em fator de graves danos à saúde. Mas há quem queira proibir aposição de nomes de gente aos bichos!

Como a necessidade é que faz o sapo pular, depois do apagão de 2001, o aquecedor solar, até então pouco conhecido, ganhou visibilidade entre consumidores de energia elétrica. O sol torna-se então, também no sentido figurado, a grande estrela da economia para a população, mas o direito de residentes estará à mercê de edificações que se erguerem a lhes fazer sombra. É conflito, certamente, propenso a dar dor de cabeça aos que tiverem a incumbência de resolver casos a surgir, se ainda não existentes. Veremos se com o sentido da locução "o sol brilha para todos", à qual alguém acrescentou "e sombra existe para quem a merece" estão afinados preceitos da justiça humana!

nbatista@uai.com.br

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