PONTO DE VISTA DO BATISTA

O exigível como extra

Quando há vontade política, tudo se resolve. Aparam-se arestas entre interessados na solução, filtram-se as melhores opiniões e sugestões com vistas à montagem de planos de ação, cuja execução deve estar a cargo dos que conhecem o assunto; profissionais treinados, disciplinados, dentro de estruturas com o mínimo de organização.

É assim que se conduz o combate ao crime, especialmente o narcotráfico, nos morros e favelas do Rio de Janeiro, cujas populações, há muito tempo, se tornaram reféns do crime organizado, mediante táticas de intimidação, terrorismo e assistencialismo bandido em lugar da política social de estado.

A imprensa, a televisão em destaque, mostra a ousadia dos bandidos em ações de confronto com as forças de segurança pública e a ostentação de seu poder dentro das comunidades dominadas. Entretanto, pessoas conviventes naquelas comunidades, em contato com o mundo fora do seu meio, apontam o dito pela imprensa como apenas a ponta do iceberg. As quadrilhas fazem muito mais do que se imagina dentro do "estado ilegal", que criaram, e a situação daquelas populações é bem pior do que o divulgado.

Sob o ponto de vista bandido, as pessoas dentro das comunidades se classificam em três grupos: a - cooptáveis, ou seja, fáceis de serem atraídas para o mundo do crime; b - sociáveis, ou neutras, que podem lhes prestar serviços legais, sem qualquer comprometimento; c - dispensáveis ou rejeitados, normalmente suspeitos de ligação com as forças de segurança e o estado legal. As pessoas do grupo "a" são as que mais interessam aos criminosos. Manipuladas com facilidade, aceitam o papel de "defensores", "testemunhas" da inocência dos bandidos, podendo passar, definitivamente, para o lado destes no momento que quiserem. São pessoas que engrossam manifestações contra a polícia, fazem depredações, levam recados aos comerciantes, quando convém aos bandidos o fechamento do comércio. É graças a elas que, nos confrontos entre bandidos e policiais, balas que atingem pressupostos inocentes são apontadas como disparadas por armas da polícia, nunca dos bandidos. Ainda que provas em contrário se façam, os bandidos continuam isentos diante do público. O grupo "b" engloba pessoas, com as quais aos bandidos não interessam contatos, senão na prestação de serviços legais. Desde que não ofereçam perigo à atuação dos criminosos, pessoas do grupo "b" não são incomodadas; são mantidas à parte, sem sofrer qualquer assédio, imposições ou intimidações. Ao grupo "c" pertencem os que nem deveriam morar onde moram. Tidas como pertencentes ao estado legal, contatos da polícia, delatores, ou simplesmente por não quererem colaborar, tais pessoas sofrem pressões e intimidações até que se mudem. Em muitos casos, ao retorno de viagem ou de pequena ausência, o morador encontra a casa tomada pela bandidagem. E isso ainda é sorte porque pode dar-se o caso de a pessoa "desaparecer" sem deixar rastro, antes do imóvel ocupado. Os bandidos cobram pedágios pela circulação nas favelas, avocam "autoridade" para permitir, ou não, a entrada de pessoas estranhas, até personalidades, como se viu em diversos casos.

A situação chegou a esse nível porque o Estado foi omisso, e covarde mesmo, para não dizer em consequência da cumplicidade de pessoas, que não corresponderam ao grau de responsabilidade que lhes foi dado. Enquanto o crime se organizava, o Estado abria discussões estéreis em torno das causas da criminalidade, destacando entre elas o desemprego e a miséria. Quem não tinha como abastecer o estômago de feijão com arroz, de repente estava de armas pesadas e caras em punho para matar e roubar, comercializar drogas, corromper a juventude, aterrorizar comunidades inteiras; era a teoria dos sociólogos de botequim.

De algum tempo para cá, as coisas têm tomado rumo diferente com intenso combate ao crime, devolução do espaço e da paz aos moradores dos morros e favelas do Rio, graças à atuação de Unidades de Polícia Pacificadora. Entretanto, o que a maioria não sabe é o porquê desse súbito "fervor" do Estado na pacificação daquelas comunidades e recuperação de sua moral junto à população. Infelizmente, para se realizar o bem neste país muitas vezes é preciso interferência e influência estrangeiras. A nova política de segurança pública, no Rio, só foi possível graças a dois eventos de nível mundial: a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas 2016. Houve pressão dos organizadores daqueles eventos para soluções na área da segurança pública, bem como nas de transporte, de saúde, de hospedagem, etc. Soluções, que deveriam ser normais como retorno de impostos pagos e direitos de cidadania, são aplicadas por exigências alienígenas; eventos, cujos benefícios seriam extras, espécie de prêmio aos esforços desenvolvimentistas, são usados como meio para se fazer o de obrigação dos governos.

Tamo na mão de calango!

nbatista@uai.com.br

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