De acordo com informações oficiais,
mais de quinhentos funcionários federais foram demitidos, por
corrupção, no ano passado, o que, segundo alguns, representa
expressiva "limpeza" na máquina governamental, que nem sempre
funciona de acordo com as expectativas e necessidades da
coletividade. Ainda é pouco, considerando que estes são apenas os
que se deixam apanhar, porque os "diplomados em maracutaias" e
portadores de "costas quentes" se safam facilmente. O ideal seria
que não houvesse razões para tantas demissões, a bem do serviço
público, mas aí seria esperar demais de uma cultura forjada, ao
longo dos anos, de olho em facilidades e vantagens em proveito
próprio; isso, desde que o governo colonizador aqui sustentou seus
apaniguados à frente de legiões de aventureiros e renegados em sua
sociedade de origem, também buscadores do mais fácil.
Pergunte-se, aos milhares buscadores
nos umbrais de concursos públicos, pelos motivos que os levam à
disputa por uma vaga e outra resposta não é obtida: o concurso atrai
pelas vantagens inerentes ao cargo, pelo bom salário (bom, antes;
depois é questionado mediante greves) e por maior estabilidade. E
quando dizem vantagens inerentes ao cargo, não são poucos os que
pensam "naquelas", inconfessáveis e que constituem o maior estímulo
à sede com que comparecem aos concursos. À primeira oportunidade, no
trato com a coisa pública, o espertalhão travestido de funcionário
põe em ação sua mão de gato.
Tudo bem; foram demitidos mais de
quinhentos de servidores, mas seria melhor ainda que fossem
cassados, também, todos os políticos corruptos, e recuperados todos
os valores surrupiados dos cofres públicos ou amealhados à custa do
cargo ou função exercida. Políticos, sob a capa partidária e
blindados por leis oportunas e protecionistas, praticam toda sorte
de improbidades e, se apanhados, desenrola-se à sua volta um
teatrinho para a satisfação do público. Ao fim, tudo continua como
dantes!
Assiste-se, novamente, ao drama de
milhares de pessoas, vítimas de danos causados por chuvas
torrenciais ou continuadas, em Minas, Rio e Espírito Santo. Fatos se
repetem nos mesmos estados, mesmos locais e, muitas vezes, a
envolver as mesmas pessoas. Tragédias humanas continuam a acontecer,
periodicamente, por ocasião do período chuvoso, porque providências
não são tomadas no impedimento de ações em prejuízo da segurança
coletiva, ou porque recursos para obras com o mesmo objetivo são
desviados para outros fins ou por apropriação indébita. Depois de
alguma exposição negativa na mídia e encenação processual relativa
ao crime cometido, o político, com a mesma "cara de pau" de quando é
apanhado com a boca na botija, está de volta ao cargo e a disputar
eleições.
Faz um ano que várias cidades
fluminenses, praticamente, foram destruídas por chuvas intensas,
matando centenas de pessoas e arrasando a economia local. Novamente,
desventura do mesmo gênero bate à porta daquelas populações e as
encontra, praticamente, na mesma situação em que ficaram no ano
passado. Recursos chegaram às cidades atingidas, não só para
assistência às vítimas, como para a recuperação dos equipamentos
públicos, mas não foram empregados ou foram mal administrados. Cabe
aqui registro de que nem donativos destinados às populações carentes
estão a salvo da corrupção. Material que deveria ser distribuído,
gratuitamente, acaba nas mãos de inescrupulosos já acostumados a
viver da desgraça alheia.
Só quem já viveu o drama do
desalojamento por esses motivos pode aquilatar o grau do sofrimento
dessas pessoas. E se engana quem pensa que o pior está no momento do
evento em si, porque aí parte da comunidade se solidariza e a vítima
recebe amparo; o poder público cumpre sua parte nas emergências.
Naqueles momentos em que a natureza parece voltada contra os mais
fracos, a coletividade foca sua atenção sobre as vítimas e as coisas
se resolvem, de uma maneira ou de outra. Depois, a coisa é outra!
Passada a tempestade natural e dispersas as atenções para o plano
individual, a situação se normalizando para a maior parte da
comunidade, o cidadão flagelado se vê no olho do maior dos furacões:
o mesmo coração humano a exercer a tirania do desprezo. De vítima
passa à condição de estorvo. Em busca dos seus direitos portas lhe
são fechadas; pessoas em posição de dar assistência, tomar
providências, prover soluções, se omitem; quando prometem, não
cumprem. Audiências fazem crer em seriedade, mas de encenações não
passam como satisfação à mídia, ficando o dito pelo não dito para a
vítima. Não vale a lei, mas qualquer outro estratagema, mesmo o
"desaparecimento" de documentos, ditado pela vontade do mais forte,
para que o cidadão atingido se recolha à sua insignificância, na
avaliação dos arrogantes.
Diante de toda a lama, que não é só a
das enchentes, demissão de meio milhar de servidores é muito pouco,
comparada ao número que se precisa cassar para passar este país a
limpo!