O número de
pedintes nas ruas, ao contrário do verificado ainda há pouco tempo,
reduziu-se, e, não seria para se esperar outra coisa, em razão do
que se alardeia por aí sobre as bolsas sociais distribuídas pelo
governo. Menos mal, porque a mendicância, que irrita a insensíveis,
provoca sensação de desconforto moral, ou mesmo de culpa, em quem se
solidariza, momentaneamente, embora se saiba que nesses casos, nem
sempre, de grão em grão a galinha enche o papo, se o pedinte
realmente necessita. Em reação ao assédio do pedinte, série de
conjeturas se abre e leva a pessoa ao dilema: dar ou não dar a
esmola! Sem conhecer a verdade por trás do apelo recebido, tanto
pode estar uma vida desamparada como pode se tratar de golpe, para
explorar o sentimento alheio. Mas, se diminuiu o número de pessoas
nesse tipo de abordagem nas ruas ou à porta das casas, surge a
modalidade organizada e dirigida dentro de coletivos.
Pessoa entra no
veículo, distribui folhetos com o pedido, em alguns casos
acompanhados de pequeno "brinde", retornando depois para recolher os
papeluchos e as contribuições dos que aderem. Mais do que na rua ou
à porta de casa, o passageiro se sente constrangido, parecendo-lhe o
pedido uma imposição e obrigação da qual não pode fugir. Na maioria
das vezes dessa modalidade, o pedinte se apresenta como
representante de alguma associação de deficientes, sempre de local
distante. Sem como conferir a veracidade do que se apresenta
naqueles poucos instantes, o abordado se deixa dominar pela emoção e
o pejo de parecer insensível. Atende ao pedido, embora lhe fique a
dúvida sobre o merecimento alegado por quem pede. Bom argumento para
a negativa seria a existência de organizações assistenciais bem mais
próximas, idôneas e cumpridoras dos objetivos propostos à sociedade,
mas a consciência acusa a omissão diante do certo e facilita a opção
pelo incerto. E outro aspecto há que se considerar, antes de decidir
por resposta positiva ao apelo.
Em princípio,
deficiência física, ou dos sentidos, nem sempre se constitui em
fator excludente do mercado de trabalho, podendo cada qual se
adaptar a uma atividade, específica e que melhor se adapte à sua
personalidade. Reconhece-se, no entanto, estar o mercado de trabalho
longe de absorver todos portadores de deficiência, mas a cultura
tupiniquim que, desde o berço, trata deficientes como "coitadinhos",
muito contribui para que parcela dessas pessoas especiais se coloque
à parte da sociedade produtiva, quando poderia até servir de exemplo
aos ditos "normais", porém carentes de ânimo para enfrentar e
superar obstáculos. Pessoa dessas, ao demonstrar disposição para
superar seus limites, não raramente, encontra apoio necessário, pois
a comunidade tende a elevar ao panteão dos heróis os que se destacam
na luta desigual pela vida.
Exemplo desses
casos deu-se, em Ouro Preto, há cerca de cinquenta anos, ainda no
início dos anos 60, quando a comunidade local, livre de influências
estranhas, era mais interativa, solidária e orgulhosa de sua
criatividade. A economia girava em torno da fábrica da ALUMINAS, em
Saramenha, onde ganhava o pão a maior parte da população laboriosa;
poucos carros circulavam pelas ruas, todas ainda de mão dupla; e, a
provocar gaiatos que diziam inventarem-se santos para se fazer
procissão, quase que a cada semana havia uma festa religiosa. As
maiores diversões dos ouropretanos, nos fins de semana, eram o
cinema, as domingueiras no "Quinze" (Clube XV de Novembro) e o
"footing" na Rua São José. Certo dia, à pensão onde tomavam
refeições bom número do pessoal de escritório (este escriba
incluso), de Saramenha, servidores municipais e pequenos
comerciantes, chegou, não se sabe de onde, um rapaz mudo. Para se
comunicar, portava papel e lápis usados com rapidez nos contatos com
as pessoas. Demonstrava ter bom nível em conhecimentos gerais e,
embora limitado no poder de comunicação, fez seu círculo de
amizades, chegando a conseguir emprego na área de manutenção, em
Saramenha. Também arrumou namorada e, por ocasião do Natal, chamou a
atenção por sua contrição, de joelhos, a segurar grande vela,
durante todo o ofício religioso. Era admirado por sua educação e
determinação, embora lhe faltasse a fala.
Levava a vida
normal quando, certo manhã, enquanto fazia rápida oração, ao entrar
na fábrica, a fala se soltou diante dos colegas ao lado e do
funcionário da portaria. Formou-se o reboliço com todos a gritar
milagre, milagre, milagre! Naquele dia, de outro assunto não se
tratou: todos estavam impressionados e satisfeitos pelo acontecido.
O "Mudo" – assim ficara conhecido – não mais era mudo! E, como não
podia deixar de acontecer, no domingo seguinte houve celebração
religiosa, incluindo-se procissão, em agradecimento pelo feliz
ocorrido. Só faltou o mudo ser carregado em andor! Mais algum tempo
e, lá um dia, o "Mudo" desapareceu. Seus companheiros, no alojamento
de solteiros, denunciaram sua saída furtiva à noite; e, pior,
objetos pessoais de alguns dos alojados teriam também desaparecido.
Foi a decepção geral, confirmada e acrescida com informação
veiculada em páginas policiais no dia seguinte: era perigoso ladrão
fugitivo da Justiça... que, em Ouro Preto, se revelara artista!