A quem fora da
sala e, de longe, ouvia o noticiário da televisão, parecia tratar-se
de beldade destacada em reunião social ou evento de grande
significado. Eram elogios e mais elogios relativos à beleza de uma
jovem, que o repórter considerava candidata natural às passarelas.
De fato, era bela a jovem focalizada pelas câmeras, e, razão havia
para os elogios. Mas, além da beleza, o que mais chamava a atenção
sobre a garota, naquele momento, era seu envolvimento com o mundo do
crime, ao participar de assalto a supermercado. Em companhia de dois
comparsas, a garota fora filmada na ação criminosa por câmeras de
vigilância do estabelecimento comercial, o que serviu para seu
reconhecimento ao passar diante de guardas municipais.
Ao invés da
passarela como sugeriam seus olhos verdes, segundo o repórter, a
garota estudante, de dezoito anos estava agora atrás das grades. O
profissional enfatizava o detalhe da sua beleza, enquanto narrava
como teria acontecido o assalto e, a consequente prisão dos
envolvidos; fato corriqueiro que se repete todos os dias, com
ligeiras variações, nas megalópoles e, eventualmente, já acontece
até em povoados. De acordo com a mesma narrativa, ninguém a veria
como criminosa, pois, de forma alguma, abria margem a suspeitas com
sua beleza morena, olhos verdes em corpo escultural de um metro e
setenta de altura.
E aqui se
mostra, mais uma vez, entre tantas outras oportunidades, a questão
do preconceito, prejulgamento e discriminação do semelhante com base
nas aparências. Em detrimento da competência, oportunidades de
crescimento pessoal são negadas a todo o momento, porque pessoas não
se enquadram no perfil da aparência convencionada, enquanto na outra
ponta, a mediocridade é promovida e a desonestidade premiada, porque
belos discursos e fachada física falam mais alto. A estupefação do
repórter diante do comportamento da "gata do crime", como passou a
ser chamada a assaltante, leva à pressuposição de que todo é
criminoso deve ser feio... ou, seria todo feio deve ser criminoso? A
princípio, informava-se que a menina era de classe média e se
mantinha, em São Paulo, com mesada de dois mil reais mensais. Além
de bonita, a jovem assaltante estaria longe de ser pobre, abandonada
pelos pais, ou em situação de risco social. Posteriormente, a
informação foi corrigida. Não era rica, mas recebia dinheiro da mãe
viúva, que vivia do trabalho, e com grandes sacrifícios dava suporte
à filha estudante. Sacrificava-se para que a filha alcançasse seu
sonho como profissional: ser delegada de polícia. Ironia do destino!
Por que as
primeiras informações eram de jovem bem situada economicamente?
Também aí entram o pré-julgamento e o preconceito, pois beleza
pessoal é, falsamente, associada à riqueza ou, pelo menos, situação
remediada economicamente, enquanto feiura e simplicidade,
especialmente no vestir, são tidas como sinais de pobreza.
Muitas gafes se
cometem, principalmente no comércio, com base na premissa de que
feiura e simplicidade denotam pobreza. Uma delas, ouvi de ex-gerente
de loja: em manhã de sábado, dia em que, tradicionalmente, se
separavam alguns trocados, para atender esmoleres, entrou na loja um
homem, já idoso, muito mal vestido, calçado com antigas alpargatas e
a carregar surrada bolsa de lona. Vendo o velhinho a se aproximar,
meteu mão na gaveta para apanhar o donativo, mas, antes que a
retirasse, ouviu do recém-chegado sua vontade de comprar.
Envergonhada, pois quase expusera seu preconceito diante do cliente,
passou a atendê-lo. Foi a melhor venda feita por ela em sua vida
profissional! A bolsa de lona estava abarrotada de cédulas do maior
valor naquela época!
Segundo alguns,
violência e criminalidade são resultantes da pobreza, da miséria, da
fome, do desemprego, da exclusão social; teoria facilmente derrubada
quando se veem braços musculosos a empunhar armas pesadas, condição
e ato incompatível com a fome; também derrubada pelo envolvimento de
indivíduos com boa situação econômico-financeira, bom emprego.
Ninguém nunca viu subnutrido e faminto integrante de gangue, que
assalta, sequestra, mata e leva o terror à sociedade.
Se verdade
fosse, este país já teria soçobrado sob o peso da ação da maioria
pobre, grande parte ainda inserida na miséria e excluída de tudo.