PONTO DE VISTA DO BATISTA

Festival da Vida

A evolução cultural de um povo processa-se em ondas cíclicas, alternando-se progresso e decadência. Enquanto ela, sociedade, não descartada qualquer parcela de sua totalidade, interage espontaneamente na realização do imaginário, temos a efervescência cultural, a prosperidade e a busca de mais realizações. Mas chega o momento em que todo o fervor se exaure e vem a estagnação seguida da decadência, cuja tendência é revertida com a reação que só ocorre no nível mais baixo. Novamente em movimento ascendente, a cultura é incrementada até atingir o clímax e, então, entrar novamente em decadência. Vivemos um período de decadência, e praza a Deus que já tenhamos chegado ao fundo, pois a mediocridade atingiu níveis intoleráveis. É bem verdade que, de vez em quando, aqui e ali, esboçam-se iniciativas com sinais de nova ascensão. Resta saber se a tendência se confirma.

Se não disfarçado para atender interesses obscuros, o "Festival da Vida", que se realiza em Mariana durante uma semana a contar deste sábado, tem tudo para ser um marco na retomada do movimento ascendente, pelo menos na região. A natureza sacro-profana do evento é o fator que chama atenção para possibilidade de recuperação, pois retrata os fundamentos da cultura brasileira, que nasceu da fusão do estabelecido para a sacristia, o púlpito, o coro, o adro, com a espontaneidade e singeleza da fé popular nas ruas. Assim como em outras partes do mundo, aqui também as artes ganharam impulso sob a influência da cruz cristã/católica, que moldou o modo de ser do brasileiro. O "Festival da Vida", como demonstra sua programação, retrata a simbiose entre o sagrado e o profano, tão marcante nas celebrações e festas de antanho, que desapareceram não por culpa da "pasteurização cultural provocada pela globalização", mas, antes de tudo, por obra e graça da própria Igreja; se não da instituição, certo que de parte do clero. Lançar a culpa sobre a globalização virou moda e um jeito fácil de fugir à responsabilidade.

Nos últimos quarenta anos, a mesma Igreja que fomentou a cultura de modo geral, tendo as festas tradicionais como principais meios de expressão, causou extinção de orquestras, quando as expulsou dos coros, juntamente com a música própria para o enlevo espiritual. E em lugar desta última, introduziu uma "musiquinha" pobre, quando não a profana da pior qualidade. De um devoto simples, mas indignado, ouvi: "já estão cantando até calango na igreja!" Poucas paróquias ainda mantêm antigas tradições. Do mesmo modo, a Igreja inibiu a criatividade popular com a eliminação de manifestações culturais paralelas a festas, cuja realização demandava a participação de toda a comunidade, orgulhosa dos resultados alcançados, incluindo-se os de natureza social. Os grandes eventos religiosos católicos aproximavam pessoas, reuniam familiares dispersos por força do trabalho, faziam aquecer a economia local, revelavam valores humanos e reforçavam a fé. Se feita a reviravolta, que aboliu o solene, com a intenção de atrair fiéis, o sacrifício do sagrado com a introdução da vulgaridade provoca efeito adverso. O povo, intuitivamente, entende que o divino pode estar na simplicidade, mas, simples não se confunde com medíocre. O que encantava e induzia o fiel a perscrutar as profundezas da alma deixou de existir nas celebrações católicas. E muitos, como se lhes tivesse sido roubada a meta que buscavam, agora se voltam para novos rumos. Outras correntes religiosas se beneficiam com a evasão nas hostes católicas.

Como católicos somos todos culpados pelo desmazelo cultural em nosso meio, mas até quando vamos por a culpa em terceiros? O "Festival da Vida" pode ser o momento de repensar tudo!

nbatista@uai.com.br

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